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3 milhões de toneladas de cana liberadas para a Europa e para navios: usina da Zilor em Macatuba ganha o selo ISCC EU, um só navio já levou 640 mil litros de etanol em Santos, mas o preço extra ninguém revelou

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 09/10/2026 às 11:03 Atualizado em 09/10/2026 às 11:04
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Barcaça vermelha com a inscrição Bioethanol encostada no casco azul de um porta-contêineres da CMA CGM, com rebocador ao lado, no Porto de Santos.
Barcaça abastece com etanol o porta-contêineres CMA CGM IRON no Porto de Santos, em julho. Foto: Divulgação/Copersucar
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A unidade São José, no interior de São Paulo, ganhou o selo ISCC EU, que abre a União Europeia e o tanque dos navios ao etanol. A conta mostra quantos abastecimentos cabem num dia de produção da Zilor.

A Zilor recebeu o selo ISCC EU para a unidade São José, em Macatuba (SP), conforme reportagem do JornalCana publicada nesta quinta-feira (9). O certificado foi emitido pela Control Union, empresa de auditoria.

Com ele, a usina pode fornecer etanol para os biocombustíveis da União Europeia e para o etanol de navegação. O JornalCana fala em mais de 50 mil hectares certificados e cerca de 3 milhões de toneladas de cana aptas.

O que o selo ISCC EU destrava para a Zilor?

O selo é um passaporte. A página oficial do esquema ISCC EU diz que ele é reconhecido pela Comissão Europeia. Serve para provar sustentabilidade e corte de emissões pela diretiva de renováveis do bloco, a RED III.

A mesma página cita uso em combustível de estrada, de aviação e marítimo. Ou seja: o selo ISCC EU vale tanto para o tanque do carro europeu quanto para o do navio.

O comprador da União Europeia quer saber de onde veio a cana. Quer saber também se a área foi desmatada e quanto carbono cada litro carrega. Sem esse papel, o etanol brasileiro até chega ao porto, mas não conta para a meta de renováveis de quem compra.

Foi isso que a Zilor teve de montar, de acordo com o relato do JornalCana. Entraram revisão de documentos, treinamento de equipes, cálculo da intensidade de carbono e auditorias internas e externas. A conta de carbono pega lavoura, indústria, transporte e distribuição.

Antes do selo ISCC EU, a empresa já tinha outro certificado internacional. A página de certificações do RI da Zilor já listava o CORSIA, que habilita o etanol para virar combustível sustentável de aviação, o SAF.

Quanto etanol a Zilor consegue fazer

A página de negócios do RI da Zilor informa capacidade instalada de 6.450 metros cúbicos de etanol por dia. O número soma as unidades do grupo.

A empresa produz o anidro, que vai misturado na gasolina, e o hidratado, vendido direto na bomba. Toda essa produção é entregue à Copersucar, que faz a venda.

Quem leva o etanol certificado da Zilor para o navio ou para a União Europeia, portanto, é a trading da qual a usina é fundadora e acionista.

Um detalhe muda a leitura. O selo ISCC EU vale para a unidade São José, não para o grupo inteiro. A Zilor não abriu quanto da capacidade diária sai dessa usina, então a conta abaixo usa o teto total como régua.

Um navio, 640 mil litros

O tamanho do negócio aparece no porto. Em 12 de julho, a Copersucar abasteceu com etanol o porta-contêineres CMA CGM IRON no Porto de Santos. A informação está no comunicado da Copersucar sobre a operação.

Foi a primeira operação do tipo no Brasil para um navio transoceânico. O navio leva 13 mil contêineres e tem motor tricombustível certificado para queimar etanol.

O JornalCana registra que o abastecimento foi de cerca de 640 mil litros de etanol de navegação. O combustível foi usado em parte da viagem até o Sri Lanka.

A conta própria fica assim:

ItemNúmeroFonte
Capacidade diária de etanol da Zilor6.450.000 litrosRI Zilor
Um abastecimento do CMA CGM IRONcerca de 640.000 litrosJornalCana
Abastecimentos que cabem em um diacerca de 10conta: 6.450.000 / 640.000

Um dia de produção da Zilor encheria uns 10 navios como o de Santos. A conta é teórica. A usina vende para o carro brasileiro e agora também para quem pagar pelo papel europeu.

Por que o navio virou cliente do etanol de navegação?

O transporte marítimo queima bunker, um derivado pesado do petróleo, e corre atrás de combustível com menos carbono. O JornalCana aponta que o etanol de navegação tem desempenho ambiental melhor que o bunker que substitui.

A frota ainda é pequena. No comunicado da Copersucar, Flavio Ribeiro, CEO da Bunker One, estima em cerca de 70 navios a frota mundial apta a metanol e, por tabela, a etanol. Ele projeta outras 400 embarcações saindo dos estaleiros nos próximos anos.

A CMA CGM, dona do navio de Santos, prevê operar cerca de 200 porta-contêineres de baixo carbono até 2031, diz o mesmo comunicado. Para quem vende etanol de navegação, cada um desses navios é um tanque a mais atrás de fornecedor certificado.

É aí que entra a Copersucar. Priscilla Cortezze, diretora de Comunicação e Sustentabilidade da trading, disse ao JornalCana que a empresa prepara as usinas associadas para ampliar a oferta certificada.

O preço extra que ninguém contou

Aqui está o buraco da história. Nem a Zilor nem a Copersucar divulgaram quanto o etanol com selo ISCC EU vale a mais que o comum. Também não apareceu contrato com comprador da União Europeia ou com armador.

Andre Inserra, CEO da Zilor, disse ao JornalCana que o selo fortalece a competitividade e abre novas oportunidades de mercado.

Oportunidade não é preço. Sem o prêmio por litro, ninguém consegue dizer quanto a usina de Macatuba vai ganhar a mais.

O que muda para o setor

O ganho imediato do selo ISCC EU é de acesso. A unidade São José entra na lista de usinas brasileiras que podem disputar a União Europeia e o abastecimento de navios.

Para o fornecedor de cana do entorno de Macatuba, nada muda no preço da tonelada por enquanto. A diferença só aparece se o etanol certificado começar a sair com prêmio, e isso depende de contrato.

Para quem acompanha a Copersucar, o recado é outro. A trading está montando o fornecimento de etanol de navegação em escala, usina por usina, e a Zilor foi a que saiu na frente com o anúncio.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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