A unidade São José, no interior de São Paulo, ganhou o selo ISCC EU, que abre a União Europeia e o tanque dos navios ao etanol. A conta mostra quantos abastecimentos cabem num dia de produção da Zilor.
A Zilor recebeu o selo ISCC EU para a unidade São José, em Macatuba (SP), conforme reportagem do JornalCana publicada nesta quinta-feira (9). O certificado foi emitido pela Control Union, empresa de auditoria.
Com ele, a usina pode fornecer etanol para os biocombustíveis da União Europeia e para o etanol de navegação. O JornalCana fala em mais de 50 mil hectares certificados e cerca de 3 milhões de toneladas de cana aptas.
O que o selo ISCC EU destrava para a Zilor?
O selo é um passaporte. A página oficial do esquema ISCC EU diz que ele é reconhecido pela Comissão Europeia. Serve para provar sustentabilidade e corte de emissões pela diretiva de renováveis do bloco, a RED III.
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A mesma página cita uso em combustível de estrada, de aviação e marítimo. Ou seja: o selo ISCC EU vale tanto para o tanque do carro europeu quanto para o do navio.
O comprador da União Europeia quer saber de onde veio a cana. Quer saber também se a área foi desmatada e quanto carbono cada litro carrega. Sem esse papel, o etanol brasileiro até chega ao porto, mas não conta para a meta de renováveis de quem compra.
Foi isso que a Zilor teve de montar, de acordo com o relato do JornalCana. Entraram revisão de documentos, treinamento de equipes, cálculo da intensidade de carbono e auditorias internas e externas. A conta de carbono pega lavoura, indústria, transporte e distribuição.
Antes do selo ISCC EU, a empresa já tinha outro certificado internacional. A página de certificações do RI da Zilor já listava o CORSIA, que habilita o etanol para virar combustível sustentável de aviação, o SAF.
Quanto etanol a Zilor consegue fazer
A página de negócios do RI da Zilor informa capacidade instalada de 6.450 metros cúbicos de etanol por dia. O número soma as unidades do grupo.
A empresa produz o anidro, que vai misturado na gasolina, e o hidratado, vendido direto na bomba. Toda essa produção é entregue à Copersucar, que faz a venda.
Quem leva o etanol certificado da Zilor para o navio ou para a União Europeia, portanto, é a trading da qual a usina é fundadora e acionista.
Um detalhe muda a leitura. O selo ISCC EU vale para a unidade São José, não para o grupo inteiro. A Zilor não abriu quanto da capacidade diária sai dessa usina, então a conta abaixo usa o teto total como régua.
Um navio, 640 mil litros
O tamanho do negócio aparece no porto. Em 12 de julho, a Copersucar abasteceu com etanol o porta-contêineres CMA CGM IRON no Porto de Santos. A informação está no comunicado da Copersucar sobre a operação.
Foi a primeira operação do tipo no Brasil para um navio transoceânico. O navio leva 13 mil contêineres e tem motor tricombustível certificado para queimar etanol.
O JornalCana registra que o abastecimento foi de cerca de 640 mil litros de etanol de navegação. O combustível foi usado em parte da viagem até o Sri Lanka.
A conta própria fica assim:
| Item | Número | Fonte |
|---|---|---|
| Capacidade diária de etanol da Zilor | 6.450.000 litros | RI Zilor |
| Um abastecimento do CMA CGM IRON | cerca de 640.000 litros | JornalCana |
| Abastecimentos que cabem em um dia | cerca de 10 | conta: 6.450.000 / 640.000 |
Um dia de produção da Zilor encheria uns 10 navios como o de Santos. A conta é teórica. A usina vende para o carro brasileiro e agora também para quem pagar pelo papel europeu.
Por que o navio virou cliente do etanol de navegação?
O transporte marítimo queima bunker, um derivado pesado do petróleo, e corre atrás de combustível com menos carbono. O JornalCana aponta que o etanol de navegação tem desempenho ambiental melhor que o bunker que substitui.
A frota ainda é pequena. No comunicado da Copersucar, Flavio Ribeiro, CEO da Bunker One, estima em cerca de 70 navios a frota mundial apta a metanol e, por tabela, a etanol. Ele projeta outras 400 embarcações saindo dos estaleiros nos próximos anos.
A CMA CGM, dona do navio de Santos, prevê operar cerca de 200 porta-contêineres de baixo carbono até 2031, diz o mesmo comunicado. Para quem vende etanol de navegação, cada um desses navios é um tanque a mais atrás de fornecedor certificado.
É aí que entra a Copersucar. Priscilla Cortezze, diretora de Comunicação e Sustentabilidade da trading, disse ao JornalCana que a empresa prepara as usinas associadas para ampliar a oferta certificada.
O preço extra que ninguém contou
Aqui está o buraco da história. Nem a Zilor nem a Copersucar divulgaram quanto o etanol com selo ISCC EU vale a mais que o comum. Também não apareceu contrato com comprador da União Europeia ou com armador.
Andre Inserra, CEO da Zilor, disse ao JornalCana que o selo fortalece a competitividade e abre novas oportunidades de mercado.
Oportunidade não é preço. Sem o prêmio por litro, ninguém consegue dizer quanto a usina de Macatuba vai ganhar a mais.
O que muda para o setor
O ganho imediato do selo ISCC EU é de acesso. A unidade São José entra na lista de usinas brasileiras que podem disputar a União Europeia e o abastecimento de navios.
Para o fornecedor de cana do entorno de Macatuba, nada muda no preço da tonelada por enquanto. A diferença só aparece se o etanol certificado começar a sair com prêmio, e isso depende de contrato.
Para quem acompanha a Copersucar, o recado é outro. A trading está montando o fornecimento de etanol de navegação em escala, usina por usina, e a Zilor foi a que saiu na frente com o anúncio.
