Cotrijal, Cotripal e Cotrisal tocam no Rio Grande do Sul uma indústria de biodiesel que deve ligar as máquinas em 2028. A conta mostra por quê: cada tonelada esmagada no país deixa 3,84 vezes mais riqueza que o grão embarcado, e o diesel do posto já leva 15% de biodiesel.
Três cooperativas gaúchas decidiram que vender soja em grão já não basta. Cotrijal, Cotripal e Cotrisal investem R$ 1,25 bilhão na Soli3, uma indústria de esmagamento de soja e produção de biodiesel. Ela fica em Cruz Alta, no noroeste do Rio Grande do Sul, mostrou a Gazeta do Povo nesta quinta-feira (8).
A terraplanagem começou em 30 de junho, e a primeira fase deve operar em 2028. “A gente precisava industrializar a soja. Não simplesmente receber, armazenar e vender para terceiros”, disse à Gazeta do Povo Germano Döwich, presidente da Cotripal e da Soli3. Ele já marcou a meta pessoal: ver a primeira gota de óleo sair em maio de 2028.
Quanto a Soli3 vai produzir em Cruz Alta?
Os números estão no comunicado da Cotripal sobre o início das obras, de 1º de julho. Na primeira fase, a fábrica vai processar 3 mil toneladas de soja por dia, o que dá 1 milhão de toneladas por ano.
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Desse grão sai óleo de soja degomado, farelo para ração e casca peletizada. A parte de combustível deve chegar a 600 toneladas por dia, ou 200 mil toneladas de biodiesel por ano, segundo a cooperativa.
O projeto já prevê uma segunda fase bem maior. Nela, o esmagamento sobe para 7,2 mil toneladas por dia, cerca de 2,6 milhões de toneladas ao ano. A produção de combustível renovável vai a 500 mil toneladas anuais, 2,5 vezes a meta da largada.
| Soli3 em Cruz Alta | 1ª fase (2028) | 2ª fase (sem data) |
|---|---|---|
| Soja processada por dia (toneladas) | 3 mil | 7,2 mil |
| Soja processada por ano (toneladas) | 1 milhão | 2,6 milhões |
| Biodiesel por ano (toneladas) | 200 mil | 500 mil |
Dados do comunicado da Cotripal de 1º de julho de 2026. A segunda fase não tem data nem investimento divulgados.
O complexo terá 75 mil metros quadrados construídos num terreno de 138 hectares, com ramal ferroviário. As três cooperativas projetam faturamento de R$ 2,5 bilhões por ano, o dobro do que custa a obra.
Mil vagas na obra e 150 empregos fixos depois
Para Cruz Alta, a fatura mais rápida é o emprego. A Cotripal informa cerca de mil postos de trabalho durante a construção. O Sine da cidade fez em 10 de setembro um feirão de vagas da Soli3 para servente, pedreiro, carpinteiro e armador.

Quando a indústria rodar, a conta encolhe e fica mais qualificada: 150 empregos diretos e 500 indiretos, de acordo com o comunicado das cooperativas. A equipe atual já tem engenharia, finanças, suprimentos e segurança do trabalho, e os operadores entram perto da partida.
A prefeita de Cruz Alta, Paula Librelotto, chamou a planta de “divisor de águas” para a economia local no mesmo comunicado. O equipamento de processo, a caldeira e a subestação de energia já foram contratados, segundo a cooperativa, o que ajuda a segurar o cronograma.
Por que esmagar soja rende mais que exportar o grão?
A resposta está num número do Cepea, da Esalq/USP, em parceria com a Abiove, divulgado em 30 de julho. Uma tonelada de soja produzida e processada no Brasil gerou R$ 6.710 em PIB, contra R$ 1.747 da tonelada exportada em grão.
Isso não é o que a cooperativa embolsa. O Cepea mede a riqueza de toda a cadeia: transporte, armazém, fábrica e energia. Entra também quem usa o farelo na carne e o óleo de soja no biodiesel. Quanto mais etapas ficam no país, mais valor fica aqui.
Fazendo a conta para Cruz Alta: a diferença é de R$ 4.963 por tonelada (6.710 menos 1.747). Multiplicada pelo 1 milhão de toneladas da primeira fase, dá cerca de R$ 4,96 bilhões a mais de PIB por ano. Isso vale se todo esse grão antes fosse embarcado cru. É uma aproximação pela média nacional, não uma previsão da Soli3.
O emprego segue a mesma lógica. Pelo mesmo estudo do Cepea, cada mil toneladas de soja processada ocuparam 26 trabalhadores na cadeia. Na soja exportada em grão, foram 6,5, no primeiro trimestre de 2026.
Óleo de soja, a matéria-prima de dois terços do biodiesel
O interesse das cooperativas tem endereço: o tanque do caminhão. Em 2025 o Brasil produziu 9,8 bilhões de litros de biodiesel. O óleo de soja respondeu por 65,9% da matéria-prima das usinas, informa a Gazeta do Povo.
Quem abastece com diesel já paga por isso. Desde agosto de 2025 vale o B15, ou seja, 15% de biodiesel em cada litro vendido na bomba. A Lei do Combustível do Futuro previa 16% a partir de março de 2026. Mas a própria lei deixa o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) avaliar cada degrau, e a mistura seguia em 15% nesta quinta.
O calendário legal termina em 20% de biodiesel em 2030. Cada ponto a mais no diesel puxa mais óleo de soja. É essa demanda que Döwich descreve à Gazeta: “Hoje a demanda é maior que o fornecimento”.
Em litros, a Soli3 cabe numa fatia pequena do país. O BiodieselBR apontou, no lançamento do projeto em 2025, capacidade de até 220 mil metros cúbicos por ano, ou 220 milhões de litros. Isso equivale a cerca de 2,2% dos 9,8 bilhões de litros produzidos no Brasil em 2025.
Cooperativas do Sul somam quase R$ 3 bilhões em soja e biodiesel
A Soli3 não está sozinha. A mesma reportagem lista outras cooperativas do Sul indo para o esmagamento ou para a usina de biodiesel. A soma dos valores divulgados passa de R$ 2,9 bilhões.
| Cooperativa | Cidade | Projeto | Investimento |
|---|---|---|---|
| Cotrijal, Cotripal e Cotrisal (Soli3) | Cruz Alta (RS) | esmagamento e biodiesel | R$ 1,25 bilhão |
| Frísia e outras seis cooperativas | Ponta Grossa (PR) | esmagadora comprada da Louis Dreyfus | acima de R$ 1 bilhão |
| Coamo | Paranaguá (PR) | usina de biodiesel, fim de 2027 | R$ 480 milhões |
| Cooperalfa | Chapecó (SC) | unidade ligada ao processamento de soja | R$ 230 milhões |
| Cocamar | Maringá (PR) | usina de biodiesel desde 2022, 90 milhões de litros por ano | sem valor na reportagem |
Valores da Gazeta do Povo de 8 de outubro de 2026. A soma (1,25 + 1 + 0,48 + 0,23) dá R$ 2,96 bilhões. É um piso: a Frísia passa de R$ 1 bilhão e a Cocamar fica fora da conta.
No Paraná, a Frísia informou em março que a planta de Ponta Grossa esmaga 3,4 mil toneladas por dia. É um pouco mais que a primeira fase da Soli3. O foco declarado é o óleo de soja degomado, destinado sobretudo a biocombustíveis.
O que ainda falta para a Soli3 sair do papel
Falta parte do dinheiro. O primeiro financiamento veio do Banrisul: R$ 200 milhões assinados na Expointer em 1º de setembro. O dinheiro vai só para armazéns e recebimento de grãos, conforme o comunicado da Cotripal sobre o contrato. O resto do R$ 1,25 bilhão ainda não tem fonte divulgada.
As obras civis estavam previstas para começar em outubro de 2026, e a licença de instalação já saiu do governo gaúcho. Até agora, só terraplanagem e canteiro estão de pé.
Para as 3 cooperativas, a aposta é mudar de lugar na fila. A soja continua sendo a matéria-prima, mas o associado passa a dividir também o resultado do farelo e do biodiesel. “É uma forma de agregar mais valor à produção dos nossos associados”, disse Nei César Manica, presidente da Cotrijal, à Gazeta do Povo.
E você, acha que o Brasil deveria esmagar mais soja em casa em vez de exportar o grão? Conta nos comentários.
