A JetBio, do grupo americano Summit, vai licenciar uma tecnologia da Honeywell UOP para fazer diesel renovável na fábrica de SAF prevista para 2030 em Paulínia (SP). A mesma planta pode trocar um produto pelo outro conforme os contratos, e 80% do que sair dela deve ser exportado.
A JetBio vai usar a fábrica que planeja em Paulínia, no interior de São Paulo, para fazer diesel renovável a partir de etanol. Antes, o plano era só o combustível sustentável de aviação (SAF) anunciado no primeiro semestre. A novidade foi contada pelo CEO da empresa, William Moore, em entrevista ao The AgriBiz publicada nesta quinta-feira (8).
A rota foi desenvolvida pela Honeywell UOP e será licenciada para a JetBio. A empresa é controlada pelo Summit Agricultural Group. Para ela, ter o diesel renovável como segunda saída reduz as incertezas de um projeto estimado em US$ 2 bilhões. Para o setor de etanol, o recado é outro: aparece um comprador grande. E ele chega quando as usinas discutem para onde vai o excesso de produção dos próximos anos.
O que mudou desde o anúncio da fábrica de SAF
Quando o projeto veio a público, no primeiro semestre, a conversa era só de SAF. A empresa havia garantido uma área em Paulínia. Previa decisão final de investimento no primeiro trimestre de 2027 e início da produção em 2030, como registrou o Valor Econômico em 9 de junho. O site oficial da JetBio ainda descreve a unidade como biorrefinaria de álcool para querosene de aviação. A meta é de mais de 770 mil toneladas de SAF por ano.
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O fato novo é a flexibilidade. “Temos a capacidade de produzir 100% SAF ou 100% diesel renovável, dependendo de como estruturarmos os contratos de venda. É exatamente a mesma planta”, disse Moore ao The AgriBiz. Quem vai decidir a proporção é a demanda.
A entrevista trouxe ainda números que não apareciam na divulgação do primeiro semestre. Um deles é o tamanho da conta de etanol. Os outros são o desenho do financiamento, com o BNDES, e a fatia que vai para fora do país. Cada um deles está detalhado abaixo.
Como o etanol vira diesel renovável?
A rota usada pela JetBio é a chamada álcool para querosene (AtJ, na sigla em inglês). No site da empresa, o processo aparece em etapas. O etanol entra na planta e passa por uma desidratação que o transforma em etileno. Depois, esse etileno é encadeado e hidrogenado pelo processo da Honeywell UOP até virar hidrocarboneto. Uma destilação no fim separa o combustível pronto.

A JetBio e a Honeywell não detalharam em público em que ponto dessa cadeia o diesel renovável se separa do SAF. Moore afirmou que a molécula final é a mesma do diesel de petróleo. O ganho está no corte de pelo menos 65% nas emissões de gases de efeito estufa. Esse corte pode chegar a 95% conforme o tipo de etanol usado e a fonte de calor da fábrica.
Esse combustível não tem nada a ver com o biodiesel que já vai misturado no diesel do posto. O biodiesel brasileiro sai de óleo de soja e de sebo bovino. O produto da JetBio tem molécula parecida com a do HVO, o óleo vegetal hidrotratado que o mercado chama de diesel verde. “Mas ninguém ainda havia produzido diesel renovável a partir de etanol”, disse o CEO.
Segundo Moore, o diesel renovável da JetBio pode ser usado puro. Não é preciso adaptar motor nem misturar com o diesel fóssil. É esse o argumento de venda para frotas que já existem.

Por que o diesel pesa mais que o querosene na conta da JetBio
O primeiro motivo é o tamanho do mercado. Segundo Moore, o mercado de diesel é cinco vezes maior que o de combustível de aviação. Ele está espalhado por setores difíceis de descarbonizar, como navegação, mineração, indústria pesada, geração de energia, agricultura e caminhões pesados. “O SAF eventualmente vai chegar lá, mas ainda é muito incipiente”, afirmou.
O segundo motivo é a matéria-prima. As regras de certificação do diesel renovável aceitam melhor o etanol comum como insumo, de acordo com o executivo. O SAF exige mais, o que obriga o produtor a pagar um prêmio pelo etanol de resíduos ou de culturas intermediárias. Com o diesel, a JetBio pode comprar mais etanol brasileiro tradicional, e o custo de produção fica abaixo do custo do SAF.
Isso não quer dizer diesel barato. Moore admitiu que o diesel renovável tende a sair mais caro que o diesel de petróleo. Para ele, o ideal seria chegar a um custo equivalente a duas vezes o do diesel fóssil. “Se estivéssemos produzindo hoje, seríamos muito competitivos com o combustível fóssil. Mas o atual nível de preços de diesel não vai existir para sempre”, disse.
Quem financia os US$ 2 bilhões
O plano da JetBio divide o investimento em duas metades. Uma vem de dívida, com bancos comerciais brasileiros, bancos internacionais e bancos de desenvolvimento. A outra, de US$ 1 bilhão, deve ser levantada pelo próprio Summit Agricultural Group, acionista controlador da JetBio.
| Origem do dinheiro | Valor (US$) | Parte do total de US$ 2 bilhões |
|---|---|---|
| Summit Agricultural Group (capital próprio) | 1 bilhão | 50% |
| Dívida com bancos, total | 1 bilhão | 50% |
| Dentro da dívida: crédito sinalizado pelo BNDES | 500 milhões | 25% |
Valores informados por William Moore, CEO da JetBio, ao The AgriBiz em 08/10/2026. O crédito do BNDES é sinalização, não contrato assinado.
A conta da tabela é simples. US$ 500 milhões divididos por US$ 2 bilhões dão 25% do projeto. Divididos pelo US$ 1 bilhão de dívida, dão metade do que a JetBio pretende tomar emprestado. Ou seja, o BNDES sozinho cobriria metade da parte financiada, se a sinalização virar crédito. “O BNDES tem sido muito favorável ao projeto e quer viabilizá-lo ainda este ano, ou pelo menos assumir um compromisso com o projeto ainda neste ano”, disse Moore.
O que 1,8 bilhão de litros por ano muda para as usinas
Seja para SAF ou para diesel renovável, a fábrica vai consumir 1,8 bilhão de litros de etanol por ano. Com isso, a JetBio vira a maior compradora individual de etanol do Brasil, segundo o The AgriBiz. Dividido por 365 dias, o volume dá cerca de 4,9 milhões de litros por dia. E o etanol é quase todo o custo da operação: “85% da minha estrutura de custos é etanol”, disse Moore.
Para ter uma ideia do peso, vale olhar a projeção de Filipi Cardoso, especialista de agro do Bradesco. Em setembro, na Conferência NovaCana, ele estimou que o etanol de milho deve somar entre 12 bilhões e 13 bilhões de litros na safra 2026/27. O consumo da JetBio equivale a algo entre 14% e 15% desse volume (1,8 dividido por 13 dá 13,8%; dividido por 12, dá 15%). Cardoso também calculou que a eletrificação dos carros pode tirar 12 bilhões de litros do consumo de gasolina e etanol. É daí que vem a pressa das usinas por novos mercados.
A compra vai passar pela FS, produtora de etanol de milho que tem o Summit como principal acionista. “A FS vai originar todo etanol que precisaremos, mas apenas parte será produzido por ela”, explicou Moore. A FS, que já tem uma área de trading, vai comprar etanol de terceiros para revender à JetBio, e pode vender a própria produção.
Para quem produz etanol, a régua de preço tem um segundo critério: a intensidade de carbono. “Eu estou buscando o melhor preço possível para o etanol, com a melhor pontuação de intensidade de carbono possível”, disse o CEO. Etanol com menos emissão na conta tende a valer mais nesse contrato.
O diesel renovável da JetBio vai chegar ao posto brasileiro?
Pelo plano atual, a maior parte não fica no país. Segundo Moore, 80% da produção, seja SAF ou diesel renovável, deve ser exportada. Os 20% restantes ficariam no Brasil, mas a JetBio não disse para quem nem em que formato vai vender essa fatia.
A empresa também pede que a fábrica seja enquadrada como Zona de Processamento de Exportação (ZPE). Esse regime dá benefícios fiscais a quem produz para vender lá fora. Não há decisão anunciada sobre esse pedido.
Os clientes que Moore citou não são motoristas de carro. São donos de navios, de frotas e de equipamentos de mineração, que poderiam cortar emissões sem aposentar as máquinas que já têm. “Vai custar um pouco mais, mas o consumidor terá um produto diferenciado”, afirmou. Para quem abastece no posto, o efeito mais provável no curto prazo vem pelo lado do etanol. Um comprador desse tamanho ajuda a segurar o mercado do biocombustível que também vai para a bomba.
O calendário até 2030
A JetBio diz que preferiu gastar primeiro com terreno, engenharia e equipe antes de assinar contratos de venda. “Muitos desenvolvedores de projetos de SAF começam assinando compromissos de compra e depois tentam encontrar o dinheiro para fazer todo esse trabalho. Esse modelo não funciona”, disse Moore. As conversas com possíveis compradores começaram, mas os contratos só serão fechados quando a empresa tiver clareza sobre o custo de produção.
A decisão final de investimento está prevista para março de 2027, e a construção deve começar no próximo ano, com produção a partir de 2030. Até lá, cabe aos contratos definir quanto da fábrica de Paulínia vai para o querosene de avião e quanto vai para o diesel renovável.
Se der certo, o Brasil passa a ter um caminho para transformar o etanol que sobra em combustível para navio, trator e caminhão pesado. Na sua avaliação, o diesel renovável de etanol tem chance contra o HVO e o biodiesel de soja? Ou o preço de duas vezes o diesel fóssil vai travar a demanda?
