A carta de 4 de novembro cita 11 de dezembro; a nota de 6 de novembro fala em parar até o fim de 2026, sem dia marcado. Veja quem diz o quê em Ribas do Rio Pardo, quantos postos entram na conta e o que vem antes de qualquer demissão.
O dia escrito na carta é 11 de dezembro. A Vetorial Siderurgia colocou essa data no comunicado ao sindicato, datado de 4 de novembro, para interromper a produção de ferro-gusa em Ribas do Rio Pardo (MS), a 97 quilômetros de Campo Grande. Contando deste sábado, 7 de novembro, são 34 dias (conta nossa).
Na sexta-feira (6), a empresa trocou a palavra. A nota enviada ao Campo Grande News, assinada pelo diretor-presidente Gustavo Correa, fala em suspensão por tempo indeterminado. A parada ocorre até o fim de 2026, e o cronograma sai depois dos preparativos operacionais. A usina fica preservada para uma eventual volta, sem previsão de retomada.
O tamanho da conta veio da prefeitura. Roberson Luiz Moureira, prefeito de Ribas do Rio Pardo, estimou ao Campo Grande News, na sexta, entre 200 e 240 empregos na operação industrial. Ele ressalta que a empresa ainda precisa confirmar o número. Carvoarias e outras atividades da cadeia ficam fora dessa estimativa.
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A Vetorial vai fechar ou suspender a usina de Ribas do Rio Pardo?
Pela nota mais recente, suspender. “A paralisação é por tempo indeterminado”, diz o texto da companhia. Ela afirma manter a estrutura em condições de voltar a funcionar se o mercado mudar.
A carta anterior usava outra linguagem: encerrar a produção, com desligamentos. O documento foi assinado pela Diretoria de Recursos Humanos e pelo Departamento Jurídico, registra a Folha MS, e chegou ao sindicato na tarde de quinta (5).
| Data | Quem diz | O que diz |
|---|---|---|
| 4/11 | Vetorial, carta ao sindicato | Encerrar a produção em 11/12, com desligamentos |
| 6/11 | Vetorial, nota à imprensa | Suspensão por tempo indeterminado, até o fim de 2026, sem dia fechado |
| 6/11 | Prefeito Roberson Moureira | Estimativa de 200 a 240 empregos, a confirmar, sem carvoarias |
| 6/11 | Sindicato, Johans Loureiro | 220 empregos diretos, sem terceirizados |
Quem olha o calendário fica assim: 11 de dezembro segue como o único dia citado num papel da empresa. A nota de sexta não repete essa data. Os 220 diretos informados por Johans Rogério de Pinho Loureiro, presidente do sindicato, caem exatamente no meio da faixa do prefeito (conta nossa).
O número da empresa fica para a reunião com o sindicato. Na carta, a Vetorial prometeu levar a quantidade de afetados, as funções e o cronograma.
Por que falta carvão vegetal para fazer ferro-gusa em Ribas?
O carvão vegetal sai da madeira de eucalipto. É nessa madeira que a Vetorial coloca a principal razão da parada em Ribas do Rio Pardo.

Na carta de 4 de novembro, a siderúrgica cita dificuldade de abastecimento de carvão vegetal, por causa da concorrência de celulose e etanol de milho pelo eucalipto. Diz conviver com o problema há cerca de um ano e ter avaliado até matéria-prima importada, sem chegar a condição viável. Na nota do dia 6, o peso vai para as indústrias de etanol de milho que chegaram a Mato Grosso do Sul. Elas usam biomassa como energia e, segundo a empresa, pressionam o preço do eucalipto.
O restante da lista é de custo: inflação, transporte sob o frete mínimo, expectativa de mais imposto com a reforma tributária e crise nacional da siderurgia. O setor siderúrgico é um dos principais compradores do ferro-gusa de Ribas do Rio Pardo, diz a companhia. A unidade opera sem resultado positivo desde o início de 2026, ainda segundo a nota.
Moureira desenha o mapa da disputa a partir da leitura dele: celulose em Ribas do Rio Pardo e Três Lagoas, florestas para o projeto da Arauco em Inocência e etanol de milho em Dourados, Maracaju e Sidrolândia. Mais procura pela madeira, carvão vegetal mais caro.
A usina de Ribas já ficou parada antes?
Ficou sete anos sem produzir. A unidade de Ribas do Rio Pardo parou em 2014, com a retração do mercado de ferro-gusa, e voltou em agosto de 2021 com cerca de R$ 25 milhões investidos. Se a parada vier em dezembro, a retomada terá durado cerca de 5 anos e 4 meses (conta nossa).

O governo de Mato Grosso do Sul registrou na época capacidade de 237 mil toneladas por ano, 194 postos diretos e 80 indiretos. Os 220 de agora são 26 a mais que aqueles 194 (conta nossa).
Em 2021, o então secretário Jaime Verruck, da Semagro, ligou o retorno aos incentivos fiscais do Estado. Em 2026, Loureiro aponta para o mesmo endereço, com sinal trocado: “O culpado disso tudo é esse governo do Estado”, disse ele ao Campo Grande News. Para o presidente do sindicato, celulose e etanol de milho avançaram sobre o eucalipto sem considerar as siderúrgicas já instaladas. A Semadesc, secretaria estadual procurada pelo jornal, não havia respondido até a publicação daquela reportagem.
O que a Vetorial precisa fazer antes de demitir os trabalhadores?
Antes de demitir em massa, a empresa precisa chamar o sindicato. O Supremo Tribunal Federal fixou em junho de 2022 que a intervenção sindical prévia é exigência em dispensa coletiva. A mesma decisão deixa claro que isso não é autorização do sindicato.
Na carta, a Vetorial pediu reunião e se comprometeu a não fazer desligamentos ligados ao encerramento antes dessa etapa. Até sexta (6), segundo Loureiro, não havia encontro marcado.
O sindicato quer outra conversa primeiro. A diretoria decidiu procurar fornecedores de carvão vegetal, inclusive em outras localidades. “Estamos tentando ver se conseguimos arrumar carvão em algum lugar, para não haver essa demissão”, afirmou o presidente da entidade. Se aparecer carvão mais caro, ele pretende discutir redução de custos para manter a usina.
Onde pode surgir vaga para quem sair da usina?
Corumbá é a primeira porta citada. A unidade de ferro-gusa do Pantanal continua e deve acelerar a produção para compensar parte da capacidade de Ribas do Rio Pardo, de acordo com a nota da empresa. A explicação é a venda mais voltada à exportação. Mineração, portos, logística e carbonização também ficam, com possíveis ajustes de capacidade. A carta admite aproveitar parte dos profissionais em outras unidades ou atividades.

A segunda porta está no mesmo eucalipto da disputa. Moureira conta que a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico prepara reunião com trabalhadores, Senai e Governo do Estado, prevista para a próxima semana. O objetivo é montar cursos voltados a celulose e silvicultura.
As funções que ele lista são concretas: motorista, mecânico, soldador, eletricista, operador de máquinas e trabalhador de plantio e colheita de eucalipto. Parte dessas vagas, diz o prefeito, hoje fica com gente de outras cidades por falta de mão de obra qualificada no município. Loureiro faz a ressalva pelo outro lado: a Vetorial emprega moradores da região, e parte das vagas novas pede qualificação específica.
Sobre mudar a decisão, Moureira considera difícil no curto prazo, por envolver questão comercial e custo de madeira. A prefeitura pediu ainda uma reunião com a empresa, o Governo do Estado e a Reflore, entidade do setor florestal.
