Com o Forno 2 em operação desde setembro de 2025, o complexo da Vale no sudeste do Pará dobra de tamanho e entra na metade mais barata da curva global de custo do metal
O níquel de Onça Puma virou o símbolo de uma reviravolta industrial no Pará. A mesma mina que já foi obrigada a interromper as atividades por decisão judicial anos atrás não só voltou a operar como ligou o Forno 2 em setembro de 2025, saltou de 25 mil para 40 mil toneladas por ano e se consolidou como a maior operação de ferroníquel do Brasil.
A virada é da Vale Base Metals, que colocou o Forno 2 para funcionar dentro do prazo e, surpreendentemente, cerca de 13% abaixo do orçamento previsto. Uma operação dada como problema no passado renasceu maior, mais barata e mais competitiva.
Da paralisação judicial à maior do Brasil
A história de Onça Puma tem capítulos difíceis. A mina chegou a ter as atividades suspensas por decisão da Justiça, num longo embate que parou a produção e ameaçou o futuro do complexo. Para muita gente, aquele era o fim da linha.
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Não foi. Com a retomada das operações e, agora, a entrada do novo forno, o complexo não apenas sobreviveu como assumiu a liderança nacional no seu segmento. Sair de uma paralisação para o topo do ranking do país é o tipo de reviravolta raro na mineração pesada.
Segundo a Vale, a partida do Forno 2 consolida Onça Puma como a maior operação de ferroníquel do Brasil. É a confirmação de que a aposta em recuperar e ampliar o ativo, em vez de abandoná-lo, valeu a pena.
O que o Forno 2 mudou: de 25 mil para 40 mil toneladas
O coração da expansão é o novo forno de fundição. Conforme a Brasil Mineral, ele adiciona cerca de 15 mil toneladas de capacidade de níquel por ano, levando o complexo de 25 mil para uma capacidade nominal de 40 mil toneladas anuais. Em termos simples, a operação quase dobrou de tamanho de uma vez.

Dobrar a capacidade não é apenas produzir mais. Diluir custos fixos por um volume maior torna cada tonelada mais barata, e é isso que coloca a operação numa posição competitiva melhor. Escala, na mineração, é sinônimo de sobrevivência quando o preço do metal oscila.
Esse salto acontece num momento em que o níquel é cada vez mais disputado, o que dá à ampliação um timing estratégico. Mais capacidade instalada significa mais capacidade de aproveitar os ciclos de alta do mercado.
US$ 480 milhões e 13% abaixo do orçamento
Os números de execução do projeto chamam atenção pela eficiência. A Vale investiu cerca de US$ 480 milhões no Forno 2, abaixo dos US$ 555 milhões inicialmente previstos, uma economia de perto de 13% que é rara em grandes obras industriais, quase sempre marcadas por estouros de orçamento.
Mais impressionante ainda é o dado de segurança: o projeto foi concluído sem nenhum acidente com afastamento ao longo dos três anos de obra. Entregar uma obra desse porte no prazo, abaixo do custo e sem acidente grave é um trio difícil de alcançar.
A construção também movimentou a economia local, gerando cerca de 2.500 empregos na fase de obras. É o tipo de injeção de renda e atividade que transforma a dinâmica de uma região inteira, ainda que temporariamente.
Por que o níquel importa: aço inox e baterias
O níquel não é um metal qualquer. Ele é essencial na produção de aço inoxidável, o material que não enferruja e está em tudo, de talheres a estruturas industriais, e ganhou peso extra como componente de baterias para veículos elétricos.
Isso coloca o metal na lista dos minerais críticos da transição energética, disputados por indústrias e governos. Quem produz níquel de forma competitiva tem em mãos um insumo estratégico do século XXI. A demanda tende a crescer à medida que a eletrificação avança no mundo.
Para o Brasil, ter uma operação de ferroníquel forte significa participar dessa cadeia global de valor, em vez de apenas assistir. Onça Puma coloca o país no mapa de um metal que move a indústria pesada e a nova economia ao mesmo tempo.
O níquel de Onça Puma e a competitividade global

Com o Forno 2, o complexo passou a ocupar a metade mais barata da curva global de custo do níquel. Esse jargão do setor tem um significado prático poderoso: operações na parte baixa da curva continuam lucrativas mesmo quando o preço do metal despenca.
Estar entre os produtores de menor custo é o que garante longevidade a uma mina. Enquanto os concorrentes mais caros fecham nas crises de preço, os mais eficientes resistem e ganham participação de mercado. É a diferença entre sobreviver aos ciclos e ser esmagado por eles.
Foi exatamente essa competitividade que a ampliação buscou, e é o que dá segurança ao futuro de longo prazo da operação no Pará.
O peso para o Pará e Ourilândia do Norte
O complexo fica em Ourilândia do Norte, no sudeste do Pará, e sua expansão tem impacto direto na economia da região. Além dos milhares de empregos na obra, uma operação maior significa mais empregos permanentes, mais fornecedores locais e mais arrecadação municipal.
Para uma cidade do interior amazônico, uma mina desse porte é ao mesmo tempo oportunidade e responsabilidade. Ela movimenta a economia, mas exige planejamento para que os benefícios não desapareçam quando a jazida se esgotar. Desenvolvimento que dura é o desafio de toda cidade mineradora.
O caso reforça o papel do Pará como um dos grandes polos minerais do Brasil, indo além do ferro de Carajás e diversificando para metais como o cobre e o níquel.
Vale Base Metals e a aposta em metais críticos
A ampliação de Onça Puma faz parte de uma estratégia maior da Vale Base Metals de reforçar sua posição em minerais críticos. A empresa vem tratando níquel e cobre como pilares de crescimento, apostando na demanda da transição energética.
Recuperar e expandir um ativo que já foi problemático, em vez de descartá-lo, mostra confiança nesse futuro. A companhia está dizendo, na prática, que acredita no valor de longo prazo do níquel brasileiro. E faz isso ampliando produção em solo nacional, não no exterior.
Essa aposta interna é positiva para o país: mantém valor, emprego e tecnologia dentro do Brasil, num setor que poderia facilmente migrar para outras geografias mais baratas.
Os desafios ambientais e sociais
Nada disso apaga a complexidade de minerar na Amazônia. A própria história de paralisação judicial de Onça Puma nasceu de tensões ambientais e sociais, e esse tipo de conflito exige diálogo, licenciamento rigoroso e responsabilidade contínua.
Operar na região amazônica coloca qualquer mineradora sob os holofotes, e com razão. A licença para produzir vem acompanhada da obrigação de fazer certo, do controle de impactos ao respeito às comunidades do entorno.
O futuro de Onça Puma dependerá tanto da eficiência industrial quanto da capacidade de conduzir a operação de forma sustentável. Por ora, fica o fato contraintuitivo: uma mina que já foi mandada parar renasceu como a maior de ferroníquel do país. Quantos outros ativos dados como perdidos poderiam seguir o mesmo caminho?
