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Um abismo entre África e Ásia continua se abrindo, mesmo após 5 milhões de anos de suposta calmaria tectônica

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 18/11/2025 às 19:15
Novo estudo revela que o Golfo de Suez nunca deixou de se abrir: a separação entre África e Ásia segue ativa há milhões de anos, avançando 0,5 mm por ano e elevando riscos sísmicos antes ignorados
Novo estudo revela que o Golfo de Suez nunca deixou de se abrir: a separação entre África e Ásia segue ativa há milhões de anos, avançando 0,5 mm por ano e elevando riscos sísmicos antes ignorados
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Novo estudo revela que o Golfo de Suez nunca deixou de se abrir: a separação entre África e Ásia segue ativa há milhões de anos, avançando 0,5 mm por ano e elevando riscos sísmicos antes ignorados

Por muitos anos, a geologia ensinou que o Golfo de Suez, aquele estreito que separa parcialmente a África do Oriente Médio, era um rift “fracassado”. A narrativa clássica dizia que a fenda tectônica havia tentado se abrir cerca de 28 milhões de anos atrás, quando a placa Arábica começou a se afastar da placa Africana, mas que esse processo teria parado 5 milhões de anos atrás, deixando a região como um simples golfo, e não como um novo oceano em formação.

Acontece que essa história está mudando. E muito.

Pesquisas recentes mostram que o Golfo de Suez nunca deixou de se abrir. A separação apenas ficou mais lenta. De acordo com um novo estudo publicado em 3 de novembro na revista científica Geophysical Research Letters (AGU), o rift ainda se expande cerca de 0,5 milímetro por ano.

Pode parecer pouco, mas para processos tectônicos isso é significativo, e redefine como os cientistas entendem a evolução dessas estruturas.

O estudo é liderado por David Fernández-Blanco, geocientista do Institute of Deep-Sea Science and Engineering da Academia Chinesa de Ciências. Ele afirmou ao portal Live Science (fonte) que os resultados abalam a noção binária de que os rifts ou “dão certo” (como o Mar Vermelho, que está abrindo um oceano) ou “fracassam” completamente.

Segundo ele:
“Estamos mostrando que existe um caminho intermediário, no qual um rift pode desacelerar, mas sem realmente morrer.”

O que sempre pareceu quieto nunca esteve realmente parado

O Golfo de Suez sempre foi tratado como o exemplo perfeito de um rift que não evoluiu para oceano. Porém, a região vinha dando pequenos sinais de vida tectônica. Alguns trechos exibem recifes de coral antigos elevados acima do nível do mar, algo que não acontece sem forças estruturais empurrando o solo para cima. Tremores leves ainda ocorrem ocasionalmente. E há falhas geológicas que parecem estar levantando blocos de terreno.

Para Fernández-Blanco, havia uma lacuna entre o discurso dominante e os indícios físicos:
“O que nos chamou atenção foi o contraste entre a narrativa de total inatividade tectônica e os sinais dispersos de atividade contínua.”

Essas “pistas” motivaram a equipe a analisar detalhadamente toda a extensão do rift, cerca de 300 quilômetros, observando a geografia e o caminho dos rios que cortam as rochas. Quando um rio apresenta um perfil irregular, que não pode ser explicado apenas pela erosão, o culpado provavelmente é o movimento tectônico.

Além disso, os pesquisadores investigaram antigos recifes interglaciais, formados quando o nível do mar estava mais alto em períodos quentes. Muitos deles hoje estão a 18 metros acima do nível atual. A explicação? Movimentos lentos e contínuos da crosta.

A riftagem diminuiu, mas não acabou, e isso muda tudo

Combinando todos esses dados, o estudo concluiu que o rift realmente reduziu sua velocidade há cerca de 5 milhões de anos, quando parte da atividade tectônica se transferiu para a região do Mar Morto, onde surgiu uma nova fronteira entre as placas Africana e Arábica. Mesmo assim, o processo no Golfo de Suez não cessou.

A taxa atual de extensão, inclusive, lembra a que ocorre no oeste dos Estados Unidos, onde a expansão crustal forma o famoso conjunto de cadeias montanhosas e vales conhecido como Basin and Range Province.

Para Fernández-Blanco, isso reforça algo importante:
“Mudanças nas fronteiras tectônicas não significam necessariamente que um rift será desligado. As forças que impulsionam a riftagem são mais persistentes e complexas do que a simples movimentação das placas.”

Implicações: mais risco sísmico e muitos rifts “fracassados” podem não estar mortos

A descoberta tem efeitos práticos. Se o rifting nunca parou, então o Golfo de Suez pode estar mais vulnerável a terremotos do que se imaginava. A região, que inclui áreas costeiras do Egito e importantes instalações industriais, pode necessitar de revisão nas avaliações de risco.

Além disso, o estudo abre espaço para que outros rifts considerados “falhados”, em várias partes do mundo, como na África Oriental e até na Europa, sejam reavaliados com tecnologias modernas de mapeamento e datação.

Nas palavras do pesquisador:
“Podemos descobrir que os sistemas tectônicos da Terra são mais dinâmicos e persistentes do que imaginávamos.”

Em outras palavras, aquilo que se acreditava geologicamente morto pode, na verdade, estar apenas dormindo, ou melhor, abrindo lentamente um caminho que um dia pode se tornar um oceano.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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