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Enquanto no Brasil o trem-bala São Paulo-Rio nunca saiu do papel, a China planeja furar 120 km sob o mar para ligar duas cidades por trilhos — 90 km serão debaixo d’água, com trens a 250 km/h, e a viagem de 8 horas cairá para 40 minutos

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 20/04/2026 às 18:00
Máquina TBM dentro do túnel submarino do Estreito de Bohai
Túnel de Bohai terá 90 km sob o mar — mais que a soma dos trechos submarinos do Eurotúnel e Seikan juntos
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Enquanto no Brasil o trem-bala entre São Paulo e Rio nunca saiu do papel, a China planeja furar 120 km sob o mar para ligar duas cidades por trilhos — 90 km serão debaixo d’água, os trens passarão a 250 km/h e a viagem que hoje leva 8 horas cairá para 40 minutos

Existe um estreito de água no nordeste da China que separa duas regiões industriais gigantes. Para cruzar o Estreito de Bohai hoje, passageiros precisam de um ferry que leva 8 horas — quando o clima permite.

A China quer resolver isso furando 120 quilômetros de túnel sob o leito marinho, criando o maior túnel submarino ferroviário da história.

O projeto do Túnel do Estreito de Bohai conectaria as cidades de Dalian, na província de Liaoning, e Yantai, na província de Shandong. Com trens de alta velocidade a mais de 250 km/h, a viagem de 8 horas cairia para apenas 40 minutos.

90 km debaixo d’água — mais que o dobro do Eurotúnel

Para entender a escala deste projeto, é preciso compará-lo com o que existe.

O Eurotúnel, que liga a Inglaterra à França sob o Canal da Mancha, tem 50,5 km de comprimento total e 37,9 km submarinos. Foi inaugurado em 1994 e é considerado uma das maiores obras de engenharia do século XX.

O Túnel Seikan, no Japão, tem 53,85 km e 23,3 km submarinos. Foi o mais longo do mundo até o Eurotúnel.

O Túnel de Bohai teria 123 a 125 km de comprimento total, com 90 km diretamente sob o leito do mar. Isso é mais do que a soma dos trechos submarinos do Eurotúnel e do Seikan juntos.

  • Eurotúnel: 37,9 km submarinos, trens a 160 km/h
  • Seikan (Japão): 23,3 km submarinos, trens a 260 km/h
  • Bohai (proposto): 90 km submarinos, trens a 250+ km/h

Seriam duas tubulações paralelas escavadas sob o leito marinho, projetadas para transportar passageiros e veículos — carros seriam carregados em vagões ferroviários, como acontece no Eurotúnel.

Trem de alta velocidade chinês saindo de túnel

Entre US$ 28 e US$ 43 bilhões — e a China considera “razoável”

O custo estimado do projeto varia entre US$ 28 bilhões e US$ 43 bilhões, dependendo da fonte e da configuração final.

Em reais, isso representaria algo entre R$ 155 bilhões e R$ 238 bilhões.

Para comparação, o trem-bala brasileiro entre São Paulo e Rio de Janeiro — com 510 km de extensão e SEM túnel submarino — foi orçado em R$ 35 bilhões em 2010 e jamais saiu do papel.

Os planejadores chineses consideram o investimento “razoável” diante dos benefícios econômicos esperados: integração de duas regiões industriais, redução de custos logísticos e alívio das redes ferroviárias sobrecarregadas de Pequim e Tianjin.

O maior desafio: furar através de uma das falhas sísmicas mais ativas da Ásia

A engenharia do Túnel de Bohai enfrenta um obstáculo que nenhum túnel submarino do mundo precisou superar.

O traçado passa diretamente sobre a Falha Tan-Lu, uma das falhas tectônicas mais ativas de toda a Ásia Oriental.

Construir 90 km de túnel debaixo d’água em zona sísmica ativa exige máquinas de perfuração especiais — as chamadas TBMs de Slurry de Alto Desempenho — capazes de operar sob pressões hidrostáticas extremas.

Sensores avançados, compartimentos estanques e técnicas construtivas de última geração serão necessários para garantir que o túnel resista a terremotos sem comprometer a segurança dos passageiros.

É um desafio que nenhum país enfrentou antes nesta escala.

Corte transversal do túnel submarino

100 milhões de pessoas conectadas por trilhos

O Estreito de Bohai separa o nordeste industrial da China do polo econômico de Shandong.

A Zona Econômica do Círculo de Bohai abriga mais de 100 milhões de pessoas em uma das regiões mais densamente industrializadas do planeta.

Hoje, bens e pessoas precisam contornar o golfo inteiro por terra — uma viagem de mais de 1.500 km — ou esperar horas pelo ferry.

O túnel eliminaria esse gargalo logístico, reduzindo o que os economistas chamam de “Custo Médio de Transporte Ponderado” em condados do norte que hoje estão isolados dos centros econômicos.

O projeto faz parte da estratégia ferroviária do 15º Plano Quinquenal chinês (2026-2030), que prevê redes de alta velocidade em formato “oito verticais e oito horizontais” cobrindo todo o país.

Quando o túnel ficará pronto — e se vai mesmo sair do papel

O projeto foi formalmente submetido à Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reformas da China em maio de 2019.

Em abril de 2026, ainda está em fase de estudos de viabilidade, avaliação ambiental e definição de rota.

Se a construção começar nos próximos anos, as projeções indicam 10 a 15 anos de obras — o que colocaria a conclusão entre 2036 e 2041.

A China tem histórico de entregar megaprojetos no prazo. A ferrovia Dali-Ruili, que atravessou 19 falhas sísmicas e um túnel de 34 km, foi concluída em 14 anos. O Túnel Jintang, de 16 km sob o mar, está em fase final.

Mas o Bohai seria de outra magnitude. Nenhum país jamais construiu um túnel de 90 km sob o oceano.

Vista aérea do Estreito de Bohai

Enquanto o Brasil debate, a China fura

A comparação com o Brasil é inevitável.

O projeto do trem-bala São Paulo-Rio foi lançado em 2007. Quase 20 anos depois, não há um metro de trilho construído.

A China, no mesmo período, inaugurou mais de 40 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade — a maior rede do mundo.

Se o Túnel de Bohai for construído, será a maior obra de engenharia subaquática da história humana.

Porém, é importante ressaltar que o projeto ainda não foi oficialmente aprovado. Os custos estimados já subiram de US$ 28 bilhões para US$ 43 bilhões em diferentes avaliações, e os desafios sísmicos da Falha Tan-Lu não têm precedente em engenharia de túneis.

A pergunta não é se a China tem capacidade técnica para construí-lo — ela já provou isso dezenas de vezes. A pergunta é se o custo-benefício justifica furar 90 km sob o mar quando alternativas por terra e ponte também estão sendo avaliadas.

Será que vale furar o fundo do oceano para economizar 7 horas de viagem? Para a China, aparentemente, sim.

Se o Brasil não conseguiu construir 510 km de trem-bala em superfície em 20 anos, será que algum dia teremos a capacidade — ou a vontade política — de furar um túnel sob o mar?

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Fábio
Fábio
27/04/2026 05:01

.. é que no brasil têm brasileiros.
Na China, chineses…

Carlos Lima
Carlos Lima
24/04/2026 20:23

6 bilhões com gasto em campanha política.
10 bilhões pé de meia.
60 bilhões no orçamento secreto.
Etc….

José Alves de Almeida
José Alves de Almeida
23/04/2026 10:38

Lá não existe Orçamento secreto e nem esquema de ****……

Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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