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35 países gastaram mais de 20 bilhões de euros para construir no sul da França o maior reator de fusão nuclear do mundo — o ímã principal é tão potente que poderia levantar um porta-aviões e o plasma chega a 150 milhões de graus

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Escrito por Douglas Avila Publicado em 19/04/2026 às 19:00
Vista aérea da obra do ITER em Cadarache no sul da França
35 países investem mais de 20 bilhões de euros na construção do maior reator de fusão nuclear do mundo em Cadarache, França
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35 países gastaram mais de 20 bilhões de euros para construir no sul da França um reator que promete produzir 500 MW de energia usando apenas 50 MW de entrada — o ímã principal tem 18 metros de altura, força para levantar um porta-aviões, e o plasma atingirá 150 milhões de graus

É o maior experimento de energia da história da humanidade.

O ITER — International Thermonuclear Experimental Reactor — está sendo construído em Cadarache, no sul da França, cercado pelas colinas da Provença.

São 35 países trabalhando juntos num único projeto: União Europeia, Estados Unidos, China, Rússia, Índia, Japão e Coreia do Sul.

O custo já ultrapassou 20 bilhões de euros (cerca de US$ 22 bilhões) — e continua subindo.

O objetivo é simples de explicar, mas extraordinariamente difícil de realizar: reproduzir na Terra a reação nuclear que alimenta o Sol e provar que é possível gerar energia limpa e praticamente ilimitada a partir da fusão de átomos de hidrogênio.

Se funcionar, mudará para sempre a forma como a humanidade produz e consome energia.

Interior do poço do tokamak ITER durante montagem
O ímã principal do ITER tem 18 metros de altura e 4,25 metros de diâmetro — sua força magnética é descrita como capaz de levantar um porta-aviões

500 MW de saída com apenas 50 MW de entrada — o fator Q≥10

O ITER foi projetado para alcançar um fator chamado Q ≥ 10.

Na linguagem da fusão, isso significa produzir 500 megawatts térmicos de energia de fusão usando apenas 50 MW de energia para aquecer o plasma.

Em outras palavras: 10 vezes mais energia sai do que entra.

Se funcionar, será a primeira demonstração na história de que a fusão nuclear pode gerar significativamente mais energia do que consome em escala industrial.

A temperatura do plasma dentro do reator chegará a 150 milhões de graus Celsius — dez vezes mais quente que o núcleo do Sol, que está “apenas” a 15 milhões de graus.

Para ter uma ideia, a nenhum material conhecido no universo resiste a essa temperatura diretamente.

O plasma precisa ser mantido suspenso por campos magnéticos supercondutores extremamente potentes, sem tocar absolutamente nada — uma dança de física e engenharia que desafia os limites do que os humanos sabem construir.

Como funciona um tokamak — o donut que imita o Sol

O ITER é um tokamak — um dispositivo em forma de “donut” gigante, tecnicamente chamado de toroidal.

Dentro dele, hidrogênio pesado (uma mistura de deutério e trítio) é aquecido até se transformar em plasma — um estado da matéria em que os elétrons se separam dos núcleos atômicos.

Campos magnéticos supercondutores de intensidade extrema confinam esse plasma, mantendo-o circulando dentro do “donut” sem tocar as paredes internas.

Quando os átomos de deutério e trítio se fundem sob essas condições extremas, liberam enormes quantidades de energia na forma de nêutrons de alta velocidade.

É o mesmo processo que faz o Sol brilhar há 4,6 bilhões de anos e continuará brilhando por outros 5 bilhões.

A diferença é que o Sol usa a gravidade colossal de 330 mil vezes a massa da Terra para confinar o plasma.

O ITER precisa replicar esse confinamento usando apenas magnetos — numa câmara que cabe dentro de um edifício.

Magneto supercondutor gigante transportado para o ITER
Cada componente do ITER é fabricado em um país diferente e transportado até Cadarache — o ímã central pesa centenas de toneladas e precisa de veículos especiais

10 vezes maior que qualquer tokamak existente

O ITER é 10 vezes maior que o JT-60SA do Japão, atualmente o maior reator de fusão em operação no mundo.

O ímã principal do ITER tem 18 metros de altura e 4,25 metros de diâmetro.

Sua força magnética é tão intensa que, teoricamente, poderia levantar um porta-aviões inteiro do mar.

Em maio de 2025, todos os componentes do sistema magnético central foram finalmente concluídos — um marco que levou anos de fabricação distribuída em fábricas de múltiplos países.

Além disso, o ITER será o primeiro tokamak a usar deutério-trítio como combustível real em escala — todos os tokamaks anteriores usaram apenas hidrogênio ou deutério em seus experimentos.

Quem paga — e quanto cada um contribui

A União Europeia, que hospeda o projeto, arca com 40% dos custos.

Os outros seis membros — China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Rússia e EUA — dividem os 60% restantes.

Cada país fabrica componentes específicos em suas próprias indústrias — magnetos na Coreia, câmara de vácuo no Japão, sistemas de aquecimento nos EUA — e os envia para Cadarache para montagem final.

É um dos maiores exercícios de engenharia colaborativa internacional já tentados — mais complexo até que a Estação Espacial Internacional em termos de integração de componentes.

8 anos de atraso — e as razões

O primeiro plasma do ITER estava originalmente previsto para 2025.

O novo cronograma, aprovado pelo conselho do ITER, empurrou as datas significativamente:

  • 2033: primeiro plasma — a primeira vez que o reator ligará
  • 2036: energia magnética completa — todos os sistemas operando juntos
  • 2039: fase final com fusão deutério-trítio — o objetivo principal do projeto

O diretor-geral Pietro Barabaschi atribuiu os atrasos a uma combinação de fatores: “a pandemia de Covid-19, problemas de qualidade no design do reator, cultura interna e um cronograma excessivamente otimista para a montagem”.

Os custos também explodiram muito além do orçamento original, gerando críticas de analistas e políticos em vários países contribuintes.

Corte transversal do tokamak ITER mostrando escala
O ITER é 10 vezes maior que qualquer tokamak existente — será o primeiro a demonstrar fusão com deutério-trítio em escala relevante para geração de energia

Depois do ITER — o caminho até a tomada de casa

Mesmo que o ITER funcione perfeitamente e atinja Q≥10, ele não vai gerar eletricidade para a rede.

O ITER é um experimento — prova que a fusão pode funcionar em escala, mas não é uma usina de energia.

O próximo passo seria o DEMO, um reator de demonstração comercial projetado para gerar eletricidade de fusão pela primeira vez e alimentá-la na rede.

O DEMO está planejado para a década de 2040 — ou seja, ainda faltam 15-20 anos até que a fusão gere a eletricidade que chega à tomada da sua casa.

É uma perspectiva de longo prazo, mas cada passo — EAST, KSTAR, ITER — aproxima a humanidade de uma fonte de energia que pode resolver definitivamente a crise climática.

Ressalvas

O ITER não é uma usina — é um experimento científico de escala industrial.

Os custos já explodiram para mais de 20 bilhões de euros, e alguns críticos consideram o projeto um exemplo de “excesso de otimismo científico” que consome recursos que poderiam ir para renováveis já comprovadas como solar e eólica.

A instabilidade do plasma em temperaturas de 150 milhões de graus sem danificar o reator permanece um desafio técnico colossal que nenhum experimento anterior enfrentou nessa escala.

Além disso, as tensões geopolíticas entre membros do projeto — particularmente entre EUA, Rússia e China — criam incertezas sobre a continuidade da cooperação de longo prazo.

Ainda assim, se o ITER funcionar, ele provará que a humanidade pode dominar a energia das estrelas — e a corrida para comercializá-la vai acelerar exponencialmente, com empresas privadas como Helion, Commonwealth Fusion e TAE Technologies já na fila para transformar a ciência em negócio.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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