35 países gastaram mais de 20 bilhões de euros para construir no sul da França um reator que promete produzir 500 MW de energia usando apenas 50 MW de entrada — o ímã principal tem 18 metros de altura, força para levantar um porta-aviões, e o plasma atingirá 150 milhões de graus
É o maior experimento de energia da história da humanidade.
O ITER — International Thermonuclear Experimental Reactor — está sendo construído em Cadarache, no sul da França, cercado pelas colinas da Provença.
São 35 países trabalhando juntos num único projeto: União Europeia, Estados Unidos, China, Rússia, Índia, Japão e Coreia do Sul.
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O custo já ultrapassou 20 bilhões de euros (cerca de US$ 22 bilhões) — e continua subindo.
O objetivo é simples de explicar, mas extraordinariamente difícil de realizar: reproduzir na Terra a reação nuclear que alimenta o Sol e provar que é possível gerar energia limpa e praticamente ilimitada a partir da fusão de átomos de hidrogênio.
Se funcionar, mudará para sempre a forma como a humanidade produz e consome energia.

500 MW de saída com apenas 50 MW de entrada — o fator Q≥10
O ITER foi projetado para alcançar um fator chamado Q ≥ 10.
Na linguagem da fusão, isso significa produzir 500 megawatts térmicos de energia de fusão usando apenas 50 MW de energia para aquecer o plasma.
Em outras palavras: 10 vezes mais energia sai do que entra.
Se funcionar, será a primeira demonstração na história de que a fusão nuclear pode gerar significativamente mais energia do que consome em escala industrial.
A temperatura do plasma dentro do reator chegará a 150 milhões de graus Celsius — dez vezes mais quente que o núcleo do Sol, que está “apenas” a 15 milhões de graus.
Para ter uma ideia, a nenhum material conhecido no universo resiste a essa temperatura diretamente.
O plasma precisa ser mantido suspenso por campos magnéticos supercondutores extremamente potentes, sem tocar absolutamente nada — uma dança de física e engenharia que desafia os limites do que os humanos sabem construir.
Como funciona um tokamak — o donut que imita o Sol
O ITER é um tokamak — um dispositivo em forma de “donut” gigante, tecnicamente chamado de toroidal.
Dentro dele, hidrogênio pesado (uma mistura de deutério e trítio) é aquecido até se transformar em plasma — um estado da matéria em que os elétrons se separam dos núcleos atômicos.
Campos magnéticos supercondutores de intensidade extrema confinam esse plasma, mantendo-o circulando dentro do “donut” sem tocar as paredes internas.
Quando os átomos de deutério e trítio se fundem sob essas condições extremas, liberam enormes quantidades de energia na forma de nêutrons de alta velocidade.
É o mesmo processo que faz o Sol brilhar há 4,6 bilhões de anos e continuará brilhando por outros 5 bilhões.
A diferença é que o Sol usa a gravidade colossal de 330 mil vezes a massa da Terra para confinar o plasma.
O ITER precisa replicar esse confinamento usando apenas magnetos — numa câmara que cabe dentro de um edifício.

10 vezes maior que qualquer tokamak existente
O ITER é 10 vezes maior que o JT-60SA do Japão, atualmente o maior reator de fusão em operação no mundo.
O ímã principal do ITER tem 18 metros de altura e 4,25 metros de diâmetro.
Sua força magnética é tão intensa que, teoricamente, poderia levantar um porta-aviões inteiro do mar.
Em maio de 2025, todos os componentes do sistema magnético central foram finalmente concluídos — um marco que levou anos de fabricação distribuída em fábricas de múltiplos países.
Além disso, o ITER será o primeiro tokamak a usar deutério-trítio como combustível real em escala — todos os tokamaks anteriores usaram apenas hidrogênio ou deutério em seus experimentos.
Quem paga — e quanto cada um contribui
A União Europeia, que hospeda o projeto, arca com 40% dos custos.
Os outros seis membros — China, Índia, Japão, Coreia do Sul, Rússia e EUA — dividem os 60% restantes.
Cada país fabrica componentes específicos em suas próprias indústrias — magnetos na Coreia, câmara de vácuo no Japão, sistemas de aquecimento nos EUA — e os envia para Cadarache para montagem final.
É um dos maiores exercícios de engenharia colaborativa internacional já tentados — mais complexo até que a Estação Espacial Internacional em termos de integração de componentes.
8 anos de atraso — e as razões
O primeiro plasma do ITER estava originalmente previsto para 2025.
O novo cronograma, aprovado pelo conselho do ITER, empurrou as datas significativamente:
- 2033: primeiro plasma — a primeira vez que o reator ligará
- 2036: energia magnética completa — todos os sistemas operando juntos
- 2039: fase final com fusão deutério-trítio — o objetivo principal do projeto
O diretor-geral Pietro Barabaschi atribuiu os atrasos a uma combinação de fatores: “a pandemia de Covid-19, problemas de qualidade no design do reator, cultura interna e um cronograma excessivamente otimista para a montagem”.
Os custos também explodiram muito além do orçamento original, gerando críticas de analistas e políticos em vários países contribuintes.

Depois do ITER — o caminho até a tomada de casa
Mesmo que o ITER funcione perfeitamente e atinja Q≥10, ele não vai gerar eletricidade para a rede.
O ITER é um experimento — prova que a fusão pode funcionar em escala, mas não é uma usina de energia.
O próximo passo seria o DEMO, um reator de demonstração comercial projetado para gerar eletricidade de fusão pela primeira vez e alimentá-la na rede.
O DEMO está planejado para a década de 2040 — ou seja, ainda faltam 15-20 anos até que a fusão gere a eletricidade que chega à tomada da sua casa.
É uma perspectiva de longo prazo, mas cada passo — EAST, KSTAR, ITER — aproxima a humanidade de uma fonte de energia que pode resolver definitivamente a crise climática.
Ressalvas
O ITER não é uma usina — é um experimento científico de escala industrial.
Os custos já explodiram para mais de 20 bilhões de euros, e alguns críticos consideram o projeto um exemplo de “excesso de otimismo científico” que consome recursos que poderiam ir para renováveis já comprovadas como solar e eólica.
A instabilidade do plasma em temperaturas de 150 milhões de graus sem danificar o reator permanece um desafio técnico colossal que nenhum experimento anterior enfrentou nessa escala.
Além disso, as tensões geopolíticas entre membros do projeto — particularmente entre EUA, Rússia e China — criam incertezas sobre a continuidade da cooperação de longo prazo.
Ainda assim, se o ITER funcionar, ele provará que a humanidade pode dominar a energia das estrelas — e a corrida para comercializá-la vai acelerar exponencialmente, com empresas privadas como Helion, Commonwealth Fusion e TAE Technologies já na fila para transformar a ciência em negócio.
