Entenda como Trump e os Estados Unidos ameaçam bloquear o petróleo da Venezuela para Cuba, gerando alerta de crise energética e grave impacto econômico, além de elevar a tensão política no Caribe.
Uma declaração do presidente Trump elevou significativamente a tensão política no Caribe e reacendeu o temor de uma nova crise energética em Cuba. Ao afirmar que o país pode perder o acesso ao petróleo da Venezuela caso não aceite um acordo com os Estados Unidos, o líder norte-americano sinalizou um endurecimento da política externa em relação à ilha. Especialistas ouvidos pelo UOL, que publicou uma matéria sobre o tema nesta segunda-feira (19), classificaram a ameaça como um avanço na política de pressão dos Estados Unidos contra Cuba, com potencial de gerar impactos econômicos severos e efeitos geopolíticos duradouros na região.
Trump e Estados Unidos ampliam pressão sobre o petróleo destinado a Cuba
A fala ocorre em um momento de fragilidade estrutural da economia cubana, ainda marcada pelas consequências da pandemia, pela escassez de combustíveis e pela dificuldade de acesso a divisas internacionais. A dependência histórica do petróleo venezuelano torna o cenário ainda mais delicado, pois energia é um insumo essencial para transporte, produção de alimentos, serviços de saúde e funcionamento da infraestrutura básica.
A ameaça feita por Trump foi direta: Cuba pode ficar sem o petróleo da Venezuela se não aceitar as condições impostas pelos Estados Unidos. Segundo especialistas, o discurso representa uma mudança qualitativa na postura norte-americana, ampliando o alcance do bloqueio econômico que já limita as relações comerciais cubanas há décadas.
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De acordo com a professora Joana Salém, da Universidade Federal do ABC (UFABC), o bloqueio ao petróleo venezuelano seria a porta de entrada para uma crise total em Cuba. A energia impacta toda a cadeia produtiva e social do país. Assim, uma interrupção no fornecimento tende a provocar efeitos imediatos no transporte público, na distribuição de alimentos e no funcionamento de hospitais e escolas.
Além disso, os Estados Unidos exercem influência decisiva sobre o sistema financeiro internacional. Mesmo sem uma medida formal, declarações de Trump geram incerteza, encarecem transações e afastam potenciais parceiros comerciais, agravando o isolamento econômico cubano.
Petróleo da Venezuela e a dependência energética de Cuba
Durante décadas, a Venezuela foi o principal fornecedor de petróleo para Cuba, consolidando uma parceria estratégica iniciada nos anos 1990. Essa relação permitiu à ilha manter níveis mínimos de abastecimento mesmo sob sanções internacionais.
Dados recentes do setor mostram, porém, uma mudança relevante. Em 2025, o México assumiu a liderança no fornecimento de petróleo para Cuba, com cerca de 12,3 mil barris por dia, o equivalente a 44% das importações totais. A Venezuela, por sua vez, exportou aproximadamente 9,5 mil barris diários, mantendo-se como um parceiro essencial, ainda que não mais dominante.
Apesar dessa diversificação parcial, analistas alertam que o petróleo venezuelano continua estratégico, sobretudo porque integra acordos de cooperação baseados em trocas não monetárias. Cuba recebe petróleo da Venezuela em troca de serviços sociais, como saúde, educação e apoio técnico, reduzindo a necessidade de pagamentos em moeda forte.
Impacto econômico severo e risco de nova crise energética em Cuba
Especialistas concordam que uma interrupção no fornecimento de petróleo teria impacto econômico severo. O país já enfrenta dificuldades desde a pandemia de covid-19, período em que o Produto Interno Bruto (PIB) cubano recuou quase 11%.
Segundo Joana Salém, Cuba não conseguiu se recuperar plenamente e agora se vê diante de uma nova dificuldade estrutural. A escassez de combustíveis afetaria diretamente o transporte de alimentos, aumentaria os custos logísticos e pressionaria ainda mais o orçamento das famílias.
Além disso, o bloqueio imposto pelos Estados Unidos interfere nas trocas comerciais da ilha com outros países, encarecendo importações e dificultando o acesso a linhas de crédito. Mesmo fornecedores alternativos encontram barreiras financeiras e legais para negociar com Cuba, o que limita a capacidade de compensar uma eventual perda do petróleo venezuelano.
Estados Unidos, Trump e o aumento da tensão política no Caribe
A postura de Trump é vista por analistas como um marco de endurecimento da política externa dos Estados Unidos em relação ao Caribe e à América Latina. Para o professor Raúl Rodríguez Rodríguez, diretor do Centro de Estudos Hemisféricos e sobre Estados Unidos da Universidade de Havana, o clima de incerteza é generalizado.
Segundo ele, declarações contraditórias de Washington e Caracas dificultam previsões sobre o curto e o médio prazo. Ainda assim, Rodríguez avalia que a pressão não deve provocar a queda do governo cubano, embora possa fragilizar setores estratégicos da economia e agravar o cotidiano da população.
Na visão do professor, os Estados Unidos tendem a intensificar a guerra econômica, buscando cortar fontes de financiamento externo de Cuba e criar obstáculos às tentativas de diversificação de parcerias comerciais com países da América Latina e da Europa.
Cuba, Venezuela e uma aliança histórica sob pressão
A relação entre Cuba e Venezuela sempre foi marcada por forte alinhamento político e ideológico. Um dos marcos dessa parceria foi a criação da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), em dezembro de 2004, em Havana, pelos então presidentes Fidel Castro e Hugo Chávez.
Segundo Raúl Rodríguez, os dois países desenvolveram um intercâmbio baseado em princípios de anti-imperialismo, anticolonialismo e defesa da autodeterminação dos povos. Nesse contexto, Cuba passou a acessar petróleo venezuelano em troca de serviços sociais especializados.
A pressão dos Estados Unidos, no entanto, coloca essa relação sob risco. De acordo com o historiador Rafael Pinheiro de Araújo, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), há a possibilidade de um esfriamento da parceria bilateral, ainda que exista compreensão mútua sobre as dificuldades impostas pelo cenário internacional.
Consequências do bloqueio também para a Venezuela
Embora o foco das análises esteja em Cuba, especialistas ressaltam que a Venezuela também seria afetada por um eventual bloqueio ao petróleo. O país recebe, em contrapartida, serviços estratégicos em áreas como saúde e educação, considerados referência internacional.
A interrupção dessas trocas significaria prejuízo bilateral, especialmente em um momento em que a economia venezuelana também enfrenta limitações. Além disso, a perda de um parceiro histórico reduziria a capacidade de articulação regional frente à pressão dos Estados Unidos.
Resistência social e capacidade de adaptação de Cuba
Apesar do cenário adverso, analistas destacam a alta capacidade de resistência da sociedade cubana. Segundo Joana Salém, Cuba representa uma experiência singular de soberania nacional, com forte organização social e memória histórica de enfrentamento a crises prolongadas.
Essa característica, segundo especialistas, explica por que crises energéticas anteriores não resultaram em colapso político, embora tenham provocado dificuldades significativas no cotidiano da população. A convicção política e a estrutura social cubanas funcionam como elementos de contenção diante de pressões externas.
Falas de Trump: o que está em jogo para o futuro do Caribe?
A ameaça de Trump, feita em 19 de janeiro de 2026, de bloquear o petróleo da Venezuela para Cuba, recoloca a crise energética no centro do debate regional e expõe os limites das disputas geopolíticas no Caribe. O risco de uma nova crise energética é concreto, com impactos diretos na economia cubana, na relação bilateral com a Venezuela e na estabilidade política regional.
Ao mesmo tempo, o episódio reforça o papel central dos Estados Unidos na dinâmica continental e evidencia a vulnerabilidade de países dependentes de acordos energéticos em um cenário de alta polarização internacional. O desfecho dependerá da evolução das negociações políticas, da capacidade de Cuba de diversificar fornecedores e da disposição da Venezuela em manter sua parceria histórica.


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