Na costa noroeste, perto de Port Nolloth, a toupeira dourada de De Winton sumiu desde 1937. Em novembro de 2023, conservacionistas e geneticistas rastrearam DNA ambiental em dunas, coletaram mais de 100 amostras e confirmaram o animal, após expedição de 300 km com a cadela Jessie na praia McDougal’s Bay
A toupeira dourada que “nada” pela areia e evita contato humano voltou ao mapa da conservação na África do Sul depois de 86 anos sem registro confirmado, um intervalo que chega a parecer inacreditável para uma espécie de mamífero. Vista pela última vez em 1937, na pequena cidade portuária de Port Nolloth, a toupeira dourada de De Winton foi declarada oficialmente extinta e permaneceu fora do alcance da ciência por décadas.
A confirmação veio em novembro de 2023, quando uma equipe de conservacionistas e geneticistas do Endangered Wildlife Trust, da Universidade de Stellenbosch e da Universidade de Pretória rastreou DNA ambiental nas dunas costeiras, encontrou evidências genéticas no solo e, além disso, capturou um animal vivo para sequenciar o DNA e confirmar a identidade da espécie.
Por que a toupeira dourada enganou cientistas por tanto tempo

As toupeiras douradas são descritas como pequenos animais esquivos que passam quase toda a vida debaixo da terra, sendo raramente vistas por humanos. Quando aparecem na superfície para buscar insetos, isso tende a ocorrer à noite, e muitas vezes o único indício de presença é uma crista elevada no solo, sugerindo um túnel raso por baixo.
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No caso de espécies que vivem em areia fofa, como a toupeira dourada de De Winton (Cryptochloris wintoni), até esse sinal pode desaparecer. Os túneis desmoronam na areia, apagando vestígios e transformando a busca em uma tarefa de alta incerteza, especialmente ao longo de dunas extensas e instáveis.
Outro fator que embaralhou o rastreamento por décadas foi a presença de uma espécie muito parecida na região, a toupeira dourada de Grant (Eremitalpa granti). Com um “sósia” ainda presente em áreas próximas, a distinção a olho nu se torna ainda mais difícil, contribuindo para a longa condição de espécie “perdida”.
Último registro em 1937 e pressão de mineração na costa oeste

A toupeira dourada de De Winton foi detectada pela última vez em 1937, em Port Nolloth, na costa noroeste da África do Sul. Ao longo do último século, a espécie foi descrita como severamente afetada por mineração de diamantes e outros minerais na costa oeste, com suspeita de que a população tenha diminuído substancialmente nesse período.
Essa combinação de ameaça ambiental e dificuldade extrema de detecção ajuda a explicar por que, mesmo sem novos registros por mais de 80 anos, a espécie permaneceu no limbo entre “extinta” e “não confirmada”.
Espécie perdida não é o mesmo que espécie extinta

Há um critério importante que separa duas categorias. Espécies perdidas são aquelas que desapareceram da ciência por pelo menos 10 anos, frequentemente por muito mais tempo. Já espécies extintas são aquelas que não são detectadas por mais de uma geração de sua vida, mesmo após pesquisas exaustivas no habitat.
Embora a toupeira dourada de De Winton não fosse vista há mais de 80 anos e fosse presumida extinta, foi destacado que nenhuma busca abrangente havia sido realizada ao longo do período. Por isso, ela também podia ser entendida como uma espécie “perdida”, um detalhe que muda o peso científico e operacional do desaparecimento.
A expedição de 2021: 300 km de litoral, 18 km de dunas por dia e uma cadela no time
O caminho até a redescoberta foi preparado com testes prévios. Em 2020, ocorreu um estudo piloto na Baía de Lambert, onde vive a espécie irmã toupeira dourada de Van Zyl (Cryptochloris zyli), em perigo de extinção. O piloto mostrou que técnicas de detecção seriam eficazes para toupeiras douradas, reforçando a viabilidade do método.
Em julho de 2021, começou uma expedição ao longo da costa oeste até Port Nolloth, o único local com registro histórico da espécie. A equipe explorou um trecho de 300 km do litoral, da foz do rio Groen até Alexandra Bay, ao norte. Foram realizados levantamentos a pé durante uma semana, percorrendo 18 km de dunas diariamente.
O grupo tinha cinco pessoas e incluía a border collie Jessie, treinada para identificar outras toupeiras douradas. Um detalhe operacional ganhou relevância: quando a equipe encontrava túneis e Jessie não demonstrava interesse, isso sugeria que poderiam estar diante de algo diferente das espécies mais comuns, fortalecendo a hipótese de uma presença “nova” nas dunas.
DNA ambiental no solo e confirmação por sequência de referência de museu
A confirmação central veio do DNA ambiental (eDNA). A equipe coletou mais de 100 amostras de solo do interior de túneis subterrâneos. O raciocínio é direto: animais liberam DNA no ambiente por meio de células da pele, pelos, excreções e secreções, e esse material pode ser extraído do solo mesmo sendo invisível a olho nu.
Depois, o eDNA foi extraído em laboratório e sequenciado por código de barras, permitindo comparar a assinatura genética com uma referência. A sequência encontrada correspondeu a uma sequência de referência de De Winton, gerada em 2010 a partir de um espécime de museu depositado no Museu Nacional de História Natural Ditsong.
Essa etapa é decisiva porque não depende de “avistamento” casual. A prova está no material genético, reduzindo espaço para confusão com espécies parecidas e elevando o nível de certeza científica.
Re:wild, Endangered Wildlife Trust e a pressão por encontrar uma espécie cobiçada pela conservação
O trabalho foi realizado dentro do Programa de Conservação de Zonas Áridas do Endangered Wildlife Trust, que recebeu financiamento da Re:wild, uma organização sem fins lucrativos fundada por cientistas de conservação com participação de Leonardo DiCaprio, e que havia incluído a toupeira dourada de De Winton na lista das espécies extintas mais procuradas do mundo.
Além disso, a bióloga molecular Samantha Mynhardt, vinculada ao esforço e afiliada à Universidade de Stellenbosch, descreveu que buscava métodos alternativos não invasivos para estudar toupeiras douradas, após enfrentar o desafio prático de capturá-las na natureza para amostras genéticas.
Onde ela apareceu com mais força e o que ainda não dá para afirmar
A atividade da toupeira dourada foi considerada particularmente abundante na praia de McDougal’s Bay, em Port Nolloth, o que sugere a possível existência de uma população saudável no local. Também houve detecção em outros pontos, indicando que a espécie pode ser mais disseminada do que se imaginava.
Ao mesmo tempo, há limites claros no que já é possível concluir. Foi dito que ainda não dá para estimar o tamanho da população nesta fase, e que pesquisas futuras devem se concentrar nesse objetivo. Um dado concreto reforça a importância do achado: além do DNA ambiental, uma toupeira dourada foi capturada e confirmada por sequenciamento, e depois uma segunda toupeira dourada de De Winton foi encontrada na mesma área.
O que a redescoberta muda na corrida para salvar a toupeira dourada
A redescoberta da toupeira dourada de De Winton cria duas consequências imediatas. A primeira é científica: abre a chance de aprender mais sobre um mamífero descrito como fascinante e pouco compreendido, com características como cegueira, iridescência e forte capacidade auditiva.
A segunda é conservacionista: revitaliza esforços para proteger toupeiras douradas ameaçadas e reforça o uso de DNA ambiental como ferramenta para localizar outras espécies “perdidas” ou sob risco. Em um cenário de mineração histórica, habitat sensível e dificuldade de detecção, o método de rastrear eDNA nas dunas vira uma peça central para decidir onde agir e com que urgência.
Você acha que o uso de DNA ambiental deve virar prioridade em operações de conservação para encontrar espécies “perdidas”, ou ainda depende demais de sorte e de expedições longas em campo?

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