Torrista sobe 40 metros em alto-mar para montar tubulações pesadas em plataformas de petróleo. Função crítica no pré-sal paga até R$ 18 mil por mês.
A rotina offshore é repleta de funções que combinam conhecimento técnico, esforço físico e uma resiliência que poucos conseguem desenvolver. Entre elas, uma se destaca pela complexidade e pelo risco inerente ao ambiente de trabalho: a profissão de torrista, conhecida internacionalmente como derrickman. No Brasil, esse profissional atua principalmente nas plataformas de perfuração do pré-sal, subindo a estruturas de até 40 metros de altura para manipular tubulações pesadas enquanto a embarcação se move com o balanço natural do mar. Em 2025, a função segue como uma das mais demandadas e valorizadas da indústria de petróleo, com salários que chegam a R$ 18 mil por mês, segundo sindicatos e empresas do setor.
O torrista é peça fundamental da cadeia de perfuração offshore. Sua função principal é trabalhar no topo da torre — o derrick — onde ficam os suportes que organizam, conectam e estabilizam os tubos de perfuração que podem atingir 7 quilômetros de profundidade. É ali, no ponto mais alto da plataforma, que ele ajuda a montar, alinhar e conduzir milhares de quilos de tubulação, sempre coordenado com o sondador, o operador de mesa rotativa e toda a equipe de perfuração.
O trabalho a 40 metros de altura, sob ventos de 30 nós e ondulações constantes
O derrick de uma plataforma ou navio-sonda é uma estrutura metálica cuja altura varia entre 35 e 45 metros — o equivalente a um prédio de 12 a 15 andares. Lá em cima, o torrista trabalha preso por talabartes e equipamentos de segurança que são revisados diariamente. No entanto, mesmo com protocolos rigorosos, o ambiente é altamente desafiador.
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A altura expõe o profissional diretamente aos ventos, que podem ultrapassar 30 nós (cerca de 55 km/h) em regiões como o pré-sal fluminense. Além disso, quando o trabalho é realizado em navios-sonda — que não ficam ancorados, mas mantêm posição com sistemas de posicionamento dinâmico (DP) — o movimento do mar cria oscilações que chegam a 2 ou 3 graus de inclinação, suficientes para alterar o ponto de equilíbrio do operador no alto da torre.
Outro fator crítico é o peso da tubulação. Um único tubo de perfuração de 9 metros pode ultrapassar 400 kg, dependendo do grau de aço. O torrista lida com blocos de dezenas de tubos, alinhando estruturas que pesam toneladas. Até mesmo o fluido de perfuração, bombeado sob altas pressões, pode respingar e criar condições escorregadias, exigindo atenção redobrada.
Trata-se de um cenário onde não há margem para erros. Em plataformas modernas, o derrick também abriga equipamentos que operam sob cargas elevadas, como top drives, polias e ganchos capazes de levantar mais de 500 toneladas. O torrista circula entre esses elementos, ajustando cabos, guias e estruturas metálicas pesadas enquanto a operação avança em ritmo contínuo.
Por que o torrista é essencial na perfuração do pré-sal
A cadeia de perfuração offshore envolve centenas de etapas, mas poucas dependem tanto de precisão física quanto o alinhamento da coluna de perfuração. O torrista:
- organiza e empilha tubos de perfuração no fingerboard;
- alinha a tubulação com o top drive;
- auxilia na inserção e remoção dos tubos dentro do poço;
- controla a casa de lama (mud room) em alguns rigs;
- garante que a torre esteja sempre limpa e operacional;
- orienta a equipe no sincronismo da coluna durante conexões e desconexões.
No pré-sal, a complexidade aumenta devido à profundidade. Perfurações típicas atravessam:
- 2.000 a 3.000 metros de água,
- 2.000 metros de sedimentos,
- e camadas densas de rocha e sal, que exigem trocas frequentes de tubulação.
Cada troca envolve reposicionar tubos enormes, e o torrista é quem garante que tudo aconteça com alinhamento perfeito — condição essencial para manter o poço estável, evitar perdas de circulação e respeitar os parâmetros de pressão, que podem ultrapassar 10 mil psi em zonas profundas.
Salários, qualificações e caminhos dentro da carreira offshore
A função de torrista exige qualificação técnica, experiência prévia na indústria e certificações específicas. Entre elas:
- CBSP (Curso Básico de Segurança de Plataforma)
- HUET (Treinamento de Escape Subaquático de Helicóptero)
- NR-35 (Trabalho em Altura)
- NR-33 (Espaços Confinados)
- Certificações internacionais de perfuração (IADC / IWCF)
O salário, segundo o Sindipetro e empresas como Valaris, Seadrill e Ocyan, varia entre:
- R$ 12 mil (nível iniciante em rigs menores)
- R$ 18 mil (torristas experientes em navios-sonda de 6ª e 7ª geração)
Além disso, muitos torristas evoluem para posições de maior responsabilidade, como:
- sondador (driller)
- chefe de sondagem (toolpusher)
- supervisor de perfuração
Cargos que podem ultrapassar R$ 40 mil mensais.
Um trabalho que une força, técnica e coragem
O torrista é, sem exagero, uma das profissões mais desafiadoras do setor offshore. Trabalhar suspenso a dezenas de metros de altura, manipulando estruturas pesadas e convivendo com o balanço permanente do mar, exige um tipo raro de profissional: concentrado, físico, técnico e mentalmente preparado.
O pré-sal depende desse conjunto de habilidades. Sem o torrista, a perfuração simplesmente não avança — e nenhum barril chegaria à superfície.

