Retirada do Mar do Norte em apenas 10 segundos, a gigantesca plataforma Brent Delta virou símbolo da reciclagem industrial offshore, com mais de 97% da estrutura reaproveitada após desmontagem.
Em abril de 2017, uma das maiores estruturas da indústria petrolífera do Mar do Norte deixou de produzir petróleo e iniciou uma nova jornada. A plataforma Brent Delta, operada pela Shell, foi retirada do oceano em uma operação considerada um marco da engenharia offshore. Segundo a Shell, a estrutura superior da plataforma pesava cerca de 24.200 toneladas e foi erguida de uma única vez pelo navio Pioneering Spirit em apenas 10 segundos.
O que chama atenção não é apenas o tamanho da estrutura, mas o destino que ela teve depois. Em vez de permanecer abandonada no mar, a plataforma foi transportada para a costa britânica, onde passou por um longo processo de desmontagem industrial. Segundo relatório oficial do governo do Reino Unido sobre o projeto Brent Delta, mais de 97% do peso da estrutura foi reutilizado ou reciclado, transformando uma gigantesca instalação petrolífera em matéria-prima para novas atividades industriais.
Como uma plataforma do tamanho de um prédio foi retirada do oceano em apenas 10 segundos
A Brent Delta fazia parte do histórico campo petrolífero Brent, localizado a cerca de 186 quilômetros a nordeste das ilhas Shetland, no Mar do Norte. Segundo a Allseas, empresa responsável pela operação, a plataforma estava instalada em uma lâmina d’água de aproximadamente 140 metros de profundidade.
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Durante décadas, retirar uma estrutura desse porte era considerado um dos maiores desafios da indústria offshore. Tradicionalmente, plataformas eram desmontadas no próprio mar em milhares de peças menores, um processo lento, caro e arriscado.
No caso da Brent Delta, a Shell optou por uma solução diferente. Segundo a Institution of Civil Engineers do Reino Unido, a empresa decidiu remover toda a estrutura superior de uma única vez, reduzindo operações offshore e diminuindo riscos para trabalhadores e embarcações de apoio.
O navio que realizou um dos maiores içamentos marítimos já registrados
Para executar a operação foi utilizado o navio-guindaste Pioneering Spirit, considerado pela Allseas um dos maiores navios de construção offshore do planeta. Segundo a Shell, a embarcação possui comprimento equivalente ao de seis aviões jumbo alinhados e utilizou 16 braços hidráulicos compensados por movimento para levantar a plataforma. Após anos de planejamento e preparação estrutural, a remoção propriamente dita durou apenas 10 segundos.
A Shell afirma que aquele içamento representou o maior levantamento marítimo offshore realizado até então. A plataforma inteira foi separada de sua base e posicionada sobre o navio em um único movimento, eliminando a necessidade de centenas de cortes e içamentos menores.
O gigantesco processo de desmontagem que veio depois da retirada
A remoção da Brent Delta foi apenas o começo. Segundo o relatório oficial de encerramento do projeto, publicado pelo governo britânico, a estrutura foi transportada para o estaleiro Able Seaton Port, em Teesside, na Inglaterra. Lá começou uma operação industrial que durou cerca de 23 meses, envolvendo a separação de aço, equipamentos, sistemas elétricos, tubulações e materiais potencialmente perigosos.

De acordo com o relatório, a plataforma continha grandes quantidades de aço estrutural, além de resíduos industriais acumulados ao longo de décadas de operação. O trabalho exigiu tratamento especializado para materiais como amianto e resíduos classificados como NORM, sigla utilizada para materiais naturalmente radioativos encontrados em algumas operações petrolíferas.
Ao final do processo, o governo britânico registrou que 97% do peso da estrutura foi reutilizado ou reciclado, enquanto apenas uma pequena parcela precisou ser destinada a descarte definitivo.
O fim de vida das plataformas está criando uma nova indústria bilionária
O caso da Brent Delta faz parte de uma transformação muito maior que ocorre na indústria global de petróleo e gás. Milhares de plataformas construídas entre as décadas de 1970 e 1990 estão chegando ao fim da vida útil. Segundo o Government Accountability Office dos Estados Unidos, apenas no Golfo do México existem milhares de poços e centenas de estruturas aguardando etapas de descomissionamento. Esse processo inclui fechamento de poços, remoção de equipamentos e recuperação ambiental das áreas afetadas.
O setor passou a movimentar empresas especializadas em engenharia, logística pesada, reciclagem industrial e gestão ambiental. Navios gigantes, estaleiros adaptados e equipamentos de corte de alta capacidade passaram a integrar uma cadeia econômica que praticamente não existia em grande escala algumas décadas atrás. Para muitas empresas, o descomissionamento já representa um mercado tão importante quanto a própria construção de plataformas.
O que acontece com as bases que permanecem no fundo do mar
Embora a parte superior da Brent Delta tenha sido completamente removida, parte da estrutura original continua no local. Segundo o relatório oficial do governo britânico, a base de concreto que sustentava a plataforma permaneceu no fundo do mar, enquanto as pernas da estrutura ficaram projetadas acima da superfície após a remoção do topo. A área continua monitorada e cercada por uma zona de segurança marítima.

Essa decisão faz parte de um debate que ocorre em diversos países produtores de petróleo. Em alguns casos, remover totalmente uma estrutura pode gerar impactos e riscos maiores do que manter determinadas partes estabilizadas no leito marinho. Cada projeto passa por avaliações técnicas, econômicas e ambientais específicas antes da aprovação regulatória.
Uma indústria invisível que está desmontando os gigantes da era do petróleo
Durante décadas, plataformas como a Brent Delta simbolizaram a expansão da produção offshore no Mar do Norte. Hoje, elas representam outra fase da indústria energética: o enorme desafio de desmontar com segurança estruturas que ajudaram a abastecer o mundo durante gerações.
A retirada de uma instalação de 24.200 toneladas em apenas 10 segundos chamou atenção pela engenharia envolvida. Mas talvez o aspecto mais impressionante seja o que veio depois: quase dois anos de desmontagem, separação de materiais e reciclagem para transformar um gigante do petróleo em matéria-prima para uma nova etapa da economia industrial.
E você, acredita que o mundo está preparado para desmontar as milhares de plataformas, turbinas, navios e outras megainfraestruturas que chegarão ao fim da vida útil nas próximas décadas?

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