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Terreno abandonado perto da Marginal Tietê começou a mudar quando voluntários plantaram mil mudas de mais de 100 espécies para recriar um pedaço da Mata Atlântica em plena São Paulo

Escrito por Geovane Souza
Publicado em 11/06/2026 às 19:57
Atualizado em 11/06/2026 às 19:59
Assista o vídeoProjeto Floresta de Bolso realiza 18º plantio em São Paulo com mil mudas de mais de 100 espécies nativas da Mata Atlântica
Projeto Floresta de Bolso realiza 18º plantio em São Paulo com mil mudas de mais de 100 espécies nativas da Mata Atlântica (Foto: Projeto Floresta de Bolso)
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Projeto idealizado por Ricardo Cardim ocupou 1.200 metros quadrados perto da Ponte do Tatuapé e aposta em árvores nativas para criar biodiversidade, sombra e maior resistência ao clima urbano

Um terreno antes abandonado próximo à Ponte do Tatuapé, na zona leste de São Paulo, começou a ser transformado em uma pequena floresta formada exclusivamente por espécies nativas. O espaço recebeu mil mudas de mais de 100 espécies da Mata Atlântica, plantadas de maneira adensada em uma área de aproximadamente 1.200 metros quadrados.

Realizado em 30 de maio de 2026, o mutirão marcou a implantação da 18ª Floresta de Bolso idealizada pelo botânico e paisagista Ricardo Cardim. A iniciativa busca recuperar, em pequenos espaços urbanos, parte da vegetação que existia no território paulistano antes do avanço das construções, avenidas e espécies ornamentais trazidas de outras regiões.

Segundo reportagem publicada pelo Conexão Planeta em 8 de junho de 2026, o plantio contou com financiamento do Consulado Britânico, participação de voluntários e colaboração de funcionários da Prefeitura de São Paulo. Esta foi a primeira Floresta de Bolso pública implantada desde 2019 e também a primeira em que servidores municipais participaram diretamente da logística das mudas.

O novo bosque foi instalado em um ponto cercado por tráfego intenso, próximo à Marginal Tietê. A escolha reforça uma das propostas centrais do projeto, que é recuperar áreas degradadas ou subutilizadas e transformá-las em núcleos capazes de favorecer a biodiversidade dentro da maior cidade do país.

Mil mudas transformam terreno de 1.200 metros quadrados no Tatuapé

As mudas plantadas variam de aproximadamente 40 centímetros a três metros de altura. A seleção levou em consideração fatores como a quantidade de luz recebida pelo terreno, a umidade, as características do solo, o espaço disponível e a capacidade de cada planta de interagir com as demais.

Entre as espécies escolhidas estão cambuci, araçá, gabiroba, grumixama, ingá, embaúba, cereja-do-rio-grande, sete-capotes, pau-pólvora, fumo-bravo e laranja-de-macaco. Muitas produzem frutos que podem servir de alimento para aves, insetos e outros animais que circulam pelo ambiente urbano.

A diversidade é uma diferença importante em relação aos plantios tradicionais, nos quais poucas espécies são repetidas ao longo de ruas e praças. Na Floresta de Bolso, árvores, arbustos e plantas de diferentes portes são combinados para formar vários níveis de vegetação, aproximando o espaço da estrutura encontrada em uma floresta jovem.

Plantio adensado tenta reproduzir a dinâmica da Mata Atlântica

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O método não consiste apenas em colocar várias árvores próximas umas das outras. Antes do plantio, o terreno precisa ser estudado e preparado para que as raízes encontrem condições adequadas de desenvolvimento, especialmente em solos urbanos compactados, rasos ou misturados com pedras e resíduos de antigas construções.

As mudas são colocadas em alta densidade para estimular uma dinâmica semelhante à observada em ambientes naturais. Nesse sistema, as plantas competem por luz e espaço, enquanto suas raízes ajudam a estruturar o solo e a matéria orgânica acumulada começa a criar condições favoráveis para o conjunto da vegetação.

A proposta é que, depois da fase inicial de adaptação, a floresta consiga crescer com menor necessidade de irrigação, podas e intervenções constantes. Isso não elimina a necessidade de acompanhamento, sobretudo durante secas prolongadas, ondas de calor, vandalismo ou descarte irregular de lixo.

Conforme explica Ricardo Cardim ao divulgar o projeto, a combinação de espécies precisa ser planejada para que o bosque funcione como uma espécie de núcleo distribuidor de biodiversidade. Frutos e sementes podem ser transportados por pássaros, enquanto flores e abrigos atraem polinizadores e outros animais importantes para o equilíbrio ambiental.

Ideia surgiu em 1994 e ganhou seu primeiro plantio público em 2016

A origem do projeto remonta a 1994, quando Cardim observou a regeneração natural de pequenos fragmentos florestais em uma propriedade da família na Serra da Mantiqueira. Mesmo cercadas por áreas alteradas, as plantas cresciam próximas, competiam entre si e recompunham rapidamente a vegetação.

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A experiência serviu como ponto de partida para a criação de um método adaptado às cidades. A primeira Floresta de Bolso em propriedade particular foi implantada em 2013, na zona sul paulistana, para a Casa da Basf.

O projeto chegou aos espaços públicos em 31 de março de 2016, quando cerca de 200 pessoas participaram de um mutirão na Vila Olímpia. Poucas semanas depois, outro plantio reuniu voluntários na Praça Soichiro Honda, nas proximidades do Parque Ibirapuera.

De acordo com o portfólio do Cardim Paisagismo, uma das experiências mais conhecidas foi implantada no Largo da Batata, em Pinheiros. Aproximadamente 400 mudas de 80 espécies nativas foram plantadas depois da retirada de resíduos, preparação do solo e incorporação de matéria orgânica, formando em poucos anos uma área sombreada e com diferentes camadas de vegetação.

As Florestas de Bolso também chegaram a locais como Parque Cândido Portinari, Parque da Juventude, Parque do Belém, Marginal Pinheiros, Ponte Cidade Jardim, Vila Prudente, margem do Rio Pinheiros e região do Tamanduateí. Algumas árvores plantadas em projetos anteriores já alcançaram cerca de dez metros de altura.

Pequenas florestas podem reduzir impactos do calor urbano

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O plantio de árvores não resolve sozinho os problemas climáticos de uma metrópole, mas pode integrar um conjunto de medidas de adaptação. Áreas vegetadas fornecem sombra, ajudam na infiltração da água da chuva, oferecem abrigo para animais e diminuem a quantidade de superfícies que acumulam calor durante o dia.

O Plano Municipal de Arborização Urbana de São Paulo aponta que a combinação entre asfaltamento intenso e pouca vegetação está associada a diferenças expressivas de temperatura dentro da cidade. Estudos reunidos pelo documento encontraram regiões com temperaturas próximas de 19 °C e outras chegando a 28 °C, em um gradiente relacionado à ocupação do solo e à presença de árvores.

Bosques adensados também podem reter parte da poeira suspensa, melhorar a umidade ao redor da vegetação e reduzir a velocidade com que a água escoa sobre o terreno. Em áreas próximas a avenidas, esses benefícios tornam-se especialmente relevantes, embora o resultado dependa do tamanho do espaço, da saúde das plantas e da manutenção oferecida.

Cobertura vegetal elevada não está distribuída igualmente pela cidade

A Prefeitura de São Paulo informou em 2023 que 54,13% do território municipal possuía algum tipo de cobertura vegetal. O indicador inclui grandes áreas verdes localizadas principalmente nas regiões mais afastadas e não significa que todas as ruas, bairros e comunidades tenham a mesma disponibilidade de árvores, parques ou sombra.

Essa desigualdade ajuda a explicar por que pequenos projetos ainda são importantes em regiões muito impermeabilizadas. Uma floresta de 1.200 metros quadrados representa uma parcela pequena diante da extensão da capital, mas pode funcionar como ponto de conexão para aves e sementes, além de oferecer benefícios diretos ao seu entorno.

A discussão também ultrapassa os limites da cidade. Dados divulgados em maio de 2026 pela Fundação SOS Mata Atlântica indicam que restam cerca de 24% da cobertura original do bioma, dos quais apenas 12,4% correspondem a florestas maduras.

O Ministério do Meio Ambiente estima que a Mata Atlântica reúna mais de 20 mil espécies de árvores e arbustos, sendo milhares encontradas apenas nesse bioma. Recuperar espécies nativas nas cidades, portanto, também ajuda a aproximar a população de uma biodiversidade que desapareceu de boa parte da paisagem urbana.

Autorizações, financiamento e manutenção limitam novos plantios

Apesar da chegada ao 18º plantio, a continuidade do projeto depende da liberação de terrenos, da obtenção de recursos e da formação de parcerias. Cardim afirma que passou cerca de quatro anos, sem contar o período mais crítico da pandemia, tentando conseguir autorização para uma nova implantação pública.

O paisagista estima que cada Floresta de Bolso possa exigir cerca de R$ 100 mil, valor destinado à preparação do solo, máquinas, transporte, mudas, insumos e profissionais responsáveis pela logística. O trabalho de concepção desenvolvido por ele é apresentado como filantrópico, mas a implantação física exige estrutura que dificilmente pode ser mantida apenas por voluntários.

No caso da floresta próxima à Ponte do Tatuapé, a Prefeitura de São Paulo teria assumido o compromisso de acompanhar e cuidar do espaço. A sobrevivência das mudas nos primeiros meses será fundamental para que o plantio avance até a formação de uma cobertura fechada e mais resistente.

O projeto mostra que terrenos pequenos, canteiros e áreas degradadas podem receber vegetação nativa em vez de permanecerem vazios ou cobertos apenas por gramados ornamentais. O desafio agora será garantir manutenção adequada e transformar iniciativas isoladas em uma política contínua de recuperação ecológica urbana.

A cidade deveria destinar mais terrenos e recursos públicos para florestas nativas ou priorizar obras tradicionais de infraestrutura e paisagismo? Deixe sua opinião nos comentários e diga se os gramados e espaços vazios de São Paulo deveriam dar lugar a pequenos bosques de Mata Atlântica.

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Geovane Souza

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