Tanque leve dos EUA é testado acima de 4.000 m com motor turbo-diesel, mísseis guiados e suspensão reforçada para operações militares em altitude extrema.
A cena parece saída de um exercício de ficção militar moderna: um veículo blindado leve escala estradas estreitas em alta montanha, subindo até patamares onde o ar é rarefeito, o clima muda sem aviso e o terreno colapsa sob cargas pesadas. Mas o cenário é real, e o protagonista tem nome e fabricante: o Mobile Protected Firepower (MPF) ou M10 Booker, o novo blindado leve do Exército dos Estados Unidos desenvolvido para preencher um vazio histórico — poder de fogo direto em regiões montanhosas, remotas e urbanas onde tanques pesados simplesmente não conseguem operar.
A plataforma está em testes para um tipo de guerra muitas vezes negligenciada: o combate em altitude, uma realidade presente em cenários estratégicos como Himalaia, Andes, Cáucaso e outras cadeias montanhosas. É nesse contexto que o MPF vem sendo estudado como alternativa para missões aerotransportadas, operações rápidas e apoio de fogo em terrenos restritos, complementando as brigadas de infantaria que hoje operam com pouca mobilidade pesada em ambientes extremos.
Por que o M10 Booker está sendo testado em altitude?
O motivo é simples: a geopolítica está migrando para o alto. Disputas envolvendo fronteiras montanhosas têm chamado a atenção de analistas, e Estados Unidos, China e Índia estão entre os países investindo em doutrinas para combate acima dos 3.000–4.000 metros de altitude.
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O ar rarefeito nesse tipo de ambiente reduz a eficiência dos motores, altera a balística, afeta comunicações e exige veículos com suspensão, arrefecimento e tração específicos — algo que tanques pesados como o M1 Abrams, com mais de 60 toneladas, não conseguem atender em todas as situações.
O M10 Booker tem uma vantagem-chave: peso significativamente menor, permitindo transporte aéreo, travessia de pontes frágeis, manobra em encostas e logística simplificada.
Plataforma, armamento e propulsão
Embora os detalhes finais ainda estejam em ajustes antes da entrada plena em serviço, as características principais incluem:
- Peso aproximado: ~38 toneladas (varia por configuração);
- Armamento principal: canhão de 105 mm com estabilização;
- Armamento secundário: metralhadoras coaxiais;
- Motor: turbo-diesel de alta potência com ajustes para operar em altitude;
- Mísseis guiados: compatibilidade para munições inteligentes e disparos precisos;
- Blindagem modular: reforços ajustáveis conforme o teatro de operações;
- Suspensão reforçada: adaptação para terrenos irregulares e declives severos;
- Capacidade aerotransportável: integração com doutrina de mobilidade rápida.
Essa composição permite ao MPF atuar como uma espécie de “artilharia móvel blindada leve”, um meio-termo entre um veículo de combate de infantaria e um tanque de batalha principal.
O que os EUA querem com isso?
A doutrina americana aponta para três objetivos claros:
- Dar fogo direto às brigadas de infantaria
Permite destruir bunkers, fortificações e blindados leves. - Operar onde o Abrams não opera
Montanhas, centros urbanos históricos, pontes fracas e zonas remotas. - Responder às mudanças geopolíticas
Disputas de altitude, como Índia x China no Himalaia, mostraram a relevância dessa dimensão tática.
Segundo analistas do Congressional Research Service, o MPF é uma resposta direta ao chamado “gap de mobilidade” que existe há décadas no Exército dos EUA.
Combate em altitude: muito além de levar um tanque morro acima
Os testes não envolvem apenas “subir montanhas”, mas avaliar:
- Desempenho térmico do motor em ar rarefeito
- Capacidade de recuo e absorção em aclives
- Estabilidade de mira em ângulos extremos
- Comportamento balístico com densidade de ar reduzida
- Resposta do chassi a vibrações e cargas dinâmicas
- Comunicação e sensores em geografia vertical
Em exercícios recentes, tanques leves e drones foram testados em conjunto, simulando o uso de designação de alvos por UAV em cumes, algo antes pouco explorado pelo Exército americano.
O MPF não é um “mini Abrams” — e isso é proposital
Ele não é projetado para enfrentar tanques pesados de frente. Sua função é dar apoio decisivo à infantaria, e para isso ele precisa ser: mais rápido de implantar, mais leve, menos exigente em logística e capaz de atravessar pontes que um Abrams destruiria.
Esse nicho faz sentido especialmente em um mundo onde o combate móvel e vertical (combinando drones, sensores e artilharia) está ganhando protagonismo.
Isso muda o futuro da guerra?
Se os testes forem bem-sucedidos, abre-se espaço para uma nova categoria dentro das forças armadas: tanques leves especializados em geografia difícil, algo visto historicamente em conflitos como:
• Segunda Guerra nos Alpes (Itália x Alemanha)
• Guerra Sino-Indiana em Ladakh (1962)
• Conflitos no Cáucaso
Agora, porém, com sensores, munições inteligentes e veículos aerotransportáveis, o conceito ganha uma dimensão inédita.

