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Um submarino soviético afundou com reator nuclear e dois torpedos atômicos há 37 anos no Mar da Noruega — agora cientistas detectaram radiação 800.000 vezes acima do normal vazando do casco

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 29/04/2026 às 19:30
Atualizado em 29/04/2026 às 20:07
Submarino soviético K-278 Komsomolets no fundo do Mar da Noruega a 1.680 metros de profundidade
O K-278 Komsomolets afundou em 1989 com um reator nuclear e dois torpedos nucleares — estudo de 2026 detectou radiação 800.000 vezes acima do nível de fundo
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Pesquisadores noruegueses desceram a quase 1.700 metros no Mar da Noruega com um robô submarino e filmaram plumas de material radioativo saindo do casco de um submarino soviético que carrega reator nuclear e dois torpedos atômicos desde 1989

Publicado em 2026 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o estudo liderado por Justin P. Gwynn revelou que o submarino soviético K-278 Komsomolets está vazando material radioativo de forma intermitente no fundo do Mar da Noruega.

O K-278 afundou em 7 de abril de 1989 após um incêndio a bordo que matou 42 dos 69 tripulantes.

Desde então, ele repousa a 1.680 metros de profundidade com um reator nuclear e dois torpedos nucleares.

São 37 anos no fundo do oceano — e o reator está se degradando.

ROV Aegir 6000 iluminando o casco do submarino Komsomolets no fundo do mar
ROV Aegir 6000 usado por pesquisadores noruegueses para inspecionar o Komsomolets em quatro mergulhos a 1.680 metros de profundidade

Radiação 800.000 vezes acima do normal foi detectada perto do casco

Os pesquisadores usaram o ROV Ægir 6000, um robô submarino operado remotamente, para realizar quatro mergulhos separados ao redor do Komsomolets.

Coletaram amostras de água, sedimentos e organismos vivos da região.

Os números são alarmantes.

Perto de uma grade metálica no casco do submarino, a concentração de césio-137 chegou a 800.000 vezes o nível de fundo típico do Mar da Noruega.

Além disso, o estrôncio-90 foi detectado a 400.000 vezes acima do normal.

E o plutônio — um dos materiais radioativos mais perigosos conhecidos — apareceu em concentrações 66 vezes maiores que as médias históricas registradas entre 1993 e 2022.

As câmeras do ROV filmaram plumas visíveis de material radioativo saindo do submarino durante os chamados “eventos de liberação” intermitente.

Contudo, a boa notícia é que a contaminação cai drasticamente a poucos metros de distância do casco.

Como o Komsomolets afundou: o incêndio de 1989 que a União Soviética tentou minimizar

O K-278 Komsomolets era considerado um dos submarinos mais avançados da Marinha soviética.

Construído com casco de titânio — material raríssimo em submarinos da época — ele podia mergulhar a profundidades que nenhum outro submarino de ataque no mundo alcançava.

Em 7 de abril de 1989, um incêndio começou no compartimento de popa durante uma patrulha no Mar da Noruega.

As chamas se espalharam rapidamente pelos compartimentos.

O submarino emergiu, mas não conseguiu ser salvo.

Dos 69 tripulantes a bordo, 42 morreram — muitos por hipotermia nas águas geladas do Ártico enquanto esperavam resgate.

O K-278 afundou com seu reator nuclear ainda ativo e dois torpedos equipados com ogivas nucleares.

A União Soviética já havia demonstrado ambição extrema ao perfurar 12.262 metros na crosta terrestre em Kola — e o Komsomolets era outro exemplo dessa filosofia de engenharia levada ao limite.

Fundo do Mar da Noruega onde repousa o submarino soviético Komsomolets
A 1.680 metros de profundidade no Mar da Noruega, o Komsomolets repousa desde 1989 com carga nuclear a bordo

Os torpedos nucleares estão intactos — mas o reator está se degradando

Uma das maiores preocupações dos cientistas era o estado dos dois torpedos nucleares a bordo.

Porém, o estudo trouxe um alívio parcial.

As ogivas nucleares foram encontradas intactas, sem liberação detectável de material radioativo.

Dessa forma, o risco de contaminação por plutônio dos torpedos permanece controlado — por enquanto.

Além disso, o trabalho de vedação emergencial realizado em 1994 por equipes russas e norueguesas ainda está funcional.

Entretanto, o reator é outra história.

As liberações intermitentes de césio-137 e estrôncio-90 indicam que o confinamento do reator está falhando de forma gradual.

Por outro lado, o estudo concluiu que “as liberações de radionuclídeos do reator do Komsomolets até o momento não tiveram impacto no ambiente marinho próximo ou mais amplo.”

Programas de monitoramento noruegueses não detectaram concentrações incomuns no Mar da Noruega ou no Mar de Barents.

O problema maior: há dezenas de reatores nucleares no fundo dos oceanos

O Komsomolets não é o único submarino nuclear no fundo do mar.

A Marinha soviética perdeu pelo menos quatro submarinos nucleares entre as décadas de 1960 e 1980.

A corrida naval moderna por submarinos autônomos e drones navais gera uma pergunta inevitável: o que acontecerá com os reatores desses novos veículos se afundarem?

Nos Estados Unidos, 123 reatores de submarinos aposentados estão armazenados em caixões de concreto no deserto de Hanford, no estado de Washington.

Porém, os reatores soviéticos no fundo do oceano não tiveram esse tratamento.

Estão expostos à pressão, à corrosão e ao tempo — sem que ninguém consiga intervir a 1.680 metros de profundidade.

  • K-278 Komsomolets: 1.680m, Mar da Noruega, 1 reator + 2 torpedos nucleares
  • K-27: despejado intencionalmente no Mar de Kara em 1981, com reatores a bordo
  • K-159: afundou em 2003 sendo rebocado para descomissionamento, 800 kg de combustível nuclear
  • K-219: afundou em 1986 no Atlântico com 16 mísseis nucleares a bordo

A questão é que nenhum desses reatores vai durar para sempre no fundo do mar.

Cientistas noruegueses monitorando imagens do ROV no navio de pesquisa
Pesquisadores analisam imagens do ROV que revelaram vazamentos intermitentes de material radioativo do reator do Komsomolets

O monitoramento continua — e o risco aumenta com o tempo

A Noruega mantém programas contínuos de monitoramento ambiental no Mar da Noruega e no Mar de Barents.

Até agora, nenhuma contaminação significativa foi detectada fora da zona imediata do submarino.

Mas o tempo joga contra.

O casco de titânio do Komsomolets resiste melhor à corrosão do que aço convencional — mas não é eterno.

A pressão a 1.680 metros é brutal: mais de 170 atmosferas comprimindo a estrutura ininterruptamente.

E os materiais de vedação instalados em 1994 — há mais de 30 anos — têm vida útil limitada.

Se o confinamento do reator falhar de forma mais ampla, as liberações que hoje são “intermitentes” podem se tornar contínuas.

Ainda assim, há uma ressalva: a diluição oceânica a essa profundidade é enorme, e os pesquisadores reforçam que o risco atual para a cadeia alimentar humana permanece insignificante.

O estudo completo está disponível na edição de março de 2026 da PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences), com dados completos sobre concentrações de Cs-137 e Pu-239/240 medidas in situ. O caso do Komsomolets é acompanhado pelo análise especializada da 19FortyFive, que confirma que as leituras de césio chegam a 800.000 vezes acima do nível normal nas imediações do casco — décadas após o afundamento.

No entanto, “insignificante” não é o mesmo que “zero” — e o Komsomolets não é o único reator nuclear esquecido no fundo dos oceanos do mundo.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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