Submarino autônomo Ghost Shark pode operar a 6.000 metros, ficar dias submerso e inaugurar uma nova geração de veículos submarinos sem tripulação.
Em 2024, a Anduril Australia, em parceria com o Defence Science and Technology Group e a Royal Australian Navy, avançou em um dos projetos mais incomuns da nova geração naval: o Ghost Shark, um veículo subaquático autônomo de grande porte classificado como XL-AUV, desenvolvido para operar sem tripulação em missões submarinas de longo alcance. Segundo o Advanced Strategic Capabilities Accelerator, em página oficial do programa Ghost Shark, o primeiro protótipo foi entregue em abril de 2024, dentro de um projeto contratado para produzir três protótipos de combate; já em 31 de outubro de 2025, a Reuters informou que a Anduril abriu uma fábrica de 7.400 m² em Sydney para produzir os drones submarinos após um contrato de A$ 1,7 bilhão com a Marinha da Austrália.
O que torna essa plataforma fora de curva não é apenas o porte, mas a mudança estrutural que ela representa para a ocupação do ambiente submarino: em vez de depender exclusivamente de grandes submarinos tripulados, a Austrália passou a investir em uma frota de sistemas autônomos capazes de reforçar vigilância, presença naval e capacidade industrial própria.
Segundo a Reuters, a produção em Sydney deve escalar em 2026, com mais de 40 empresas locais envolvidas na cadeia de fornecimento, transformando o Ghost Shark em uma das apostas mais visíveis da Austrália para a nova fase da guerra submarina autônoma
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Capacidade de mergulho profundo coloca o veículo em regiões inacessíveis para humanos
Um dos dados mais relevantes do projeto está na profundidade operacional. O Ghost Shark foi concebido para operar em até 6.000 metros abaixo da superfície, um nível que ultrapassa amplamente a profundidade de operação da maioria dos submarinos tripulados convencionais.
Esse tipo de capacidade permite acessar regiões do oceano profundo que permanecem praticamente inexploradas, incluindo áreas onde a pressão é extremamente elevada e onde a presença humana direta se torna inviável.
Ao alcançar esse nível de profundidade, o veículo passa a operar em uma camada do oceano onde poucos sistemas conseguem permanecer por longos períodos.
Autonomia prolongada permite permanência submersa por dias sem retorno à superfície
Outro aspecto central do projeto é a autonomia. O Ghost Shark foi projetado para permanecer submerso por até 10 dias contínuos, sem necessidade de emergir para suporte humano ou reabastecimento imediato.
Essa característica representa uma mudança significativa em relação a veículos subaquáticos tradicionais, que geralmente dependem de suporte constante de navios ou bases.
A ausência de tripulação elimina limitações relacionadas a alimentação, oxigênio e descanso, permitindo que o veículo permaneça ativo por períodos prolongados em missão.
Essa permanência contínua transforma o submarino em uma presença persistente no ambiente oceânico, algo difícil de alcançar com plataformas convencionais.
Estrutura inundada reduz peso e aumenta eficiência energética
Diferente de submarinos tradicionais, o Ghost Shark adota uma arquitetura conhecida como “inundada”, na qual não existe um casco de pressão rígido que isola completamente o interior do ambiente externo.
Essa escolha de engenharia reduz significativamente o peso da estrutura e aumenta a eficiência energética do sistema, permitindo maior alcance e autonomia.
Além disso, a ausência de um compartimento pressurizado tradicional simplifica a construção e amplia a flexibilidade de design. Esse conceito aproxima o veículo mais de um sistema robótico adaptável do que de um submarino convencional.
Plataforma pode lançar drones menores e expandir área de operação
O Ghost Shark não foi projetado apenas como um veículo isolado, mas como uma plataforma capaz de atuar em rede.
Uma das características mais relevantes do projeto é a possibilidade de transportar e lançar veículos subaquáticos menores, ampliando sua capacidade de cobertura sem precisar se deslocar constantemente.
Isso significa que uma única unidade pode monitorar áreas muito maiores, operando como um ponto central de coordenação subaquática.
Esse modelo de operação cria um sistema distribuído no fundo do mar, em vez de depender de uma única plataforma para toda a missão.
Inteligência artificial assume navegação e tomada de decisão em tempo real
O funcionamento do Ghost Shark depende de um sistema de inteligência artificial desenvolvido pela própria Anduril, responsável por integrar sensores, navegação e execução de tarefas.
Esse sistema permite que o veículo interprete o ambiente ao redor, ajuste rotas e execute operações sem necessidade de controle humano constante.
A capacidade de adaptação em tempo real é essencial em ambientes subaquáticos, onde comunicação com a superfície pode ser limitada ou inexistente.
Na prática, o submarino deixa de ser apenas um equipamento controlado remotamente e passa a operar como um sistema autônomo com capacidade de decisão.
Produção em escala indica mudança no modelo industrial naval
O projeto não se limita a um protótipo experimental. O governo australiano anunciou investimentos de aproximadamente 1,7 bilhão de dólares australianos para o desenvolvimento e produção do sistema.
A previsão envolve a construção de dezenas de unidades, com participação de mais de 40 empresas australianas na cadeia de suprimentos.
Esse modelo industrial contrasta com o desenvolvimento tradicional de submarinos, que geralmente envolve poucas unidades, alto custo e longos ciclos de produção.
A proposta aponta para uma mudança: substituir poucas plataformas extremamente caras por frotas maiores de veículos autônomos mais simples e distribuídos.
Operação discreta e contínua altera dinâmica de presença no oceano
A combinação entre autonomia, profundidade e ausência de tripulação permite que o Ghost Shark opere de forma extremamente discreta.
Sem necessidade de emergir com frequência e com menor assinatura operacional, o veículo pode permanecer ativo em áreas estratégicas sem ser facilmente detectado.

Essa capacidade de permanência contínua muda a lógica da presença marítima, que tradicionalmente depende de navios e submarinos com ciclos de operação limitados.
O oceano deixa de ser um espaço monitorado de forma intermitente e passa a ser acompanhado de forma constante por sistemas autônomos.
Tecnologia amplia fronteiras da exploração e monitoramento do fundo do mar
Embora o projeto esteja inserido no contexto naval, suas implicações vão além disso. Veículos com esse nível de autonomia e profundidade podem ser utilizados para:
- Mapeamento do fundo oceânico
- Monitoramento ambiental
- Estudo de ecossistemas profundos
- Coleta de dados científicos em regiões inacessíveis
Essas aplicações ampliam significativamente o potencial de exploração dos oceanos. O avanço tecnológico transforma o fundo do mar em um ambiente cada vez mais acessível para investigação contínua.
Diante desse avanço, o fundo do oceano pode deixar de ser um território desconhecido?
Com plataformas capazes de operar a milhares de metros de profundidade, permanecer submersas por dias e tomar decisões de forma autônoma, o Ghost Shark representa uma mudança silenciosa na relação entre tecnologia e oceano.
O que antes era limitado por custo, risco humano e dificuldade logística começa a ser superado por sistemas robóticos persistentes.
A questão que surge é direta: se veículos autônomos conseguem permanecer no fundo do mar por longos períodos, até que ponto o oceano profundo deixará de ser um espaço desconhecido e passará a ser monitorado de forma contínua nas próximas décadas?

