Omega 1 da Astron promete 600 cv, 1.355 Nm e alta eficiência com hidrogênio, mas ainda depende de validação real e aplicação comercial.
A Astron Aerospace colocou o Omega 1 no radar do setor automotivo ao defender um conceito de motor que mistura elementos de motor rotativo, motor a combustão e arquitetura inspirada em turbinas. Em material citado pela australiana WhichCar, a empresa afirmou que a proposta poderia alcançar 447 kW, cerca de 600 cv, além de 1.355 Nm e 80% de eficiência térmica em modelagem computacional.
O ponto central, porém, está no estágio da tecnologia. A própria WhichCar informou que, naquele momento, o trabalho da Astron ainda estava concentrado em projeto e desenvolvimento, enquanto o site oficial da empresa hoje destaca a H2 Starfire como sua tecnologia de hidrogênio mais nova, com foco em apresentação técnica e parcerias, não em produção automotiva em massa.
Como o motor Omega 1 reorganiza admissão, compressão, combustão e escape em uma arquitetura rotativa diferente
A base técnica do Omega 1 é a separação física das etapas do ciclo de combustão. A patente da Astron descreve um conjunto com assembly de compressão e assembly de combustão conectados entre si, no qual o rotor de compressão atua do início da admissão ao fim da compressão, enquanto o rotor de potência segue do início da combustão ao fim do escape.
-
Chevrolet de 1983 roda mais de 100.000 km sem gasolina, usa lascas de madeira para alimentar motor V8 de 5,7 litros e ainda alcança 125 km/h em teste feito numa pista fechada de aeroporto
-
Oficina transforma triciclo gigante de pneus de trator em veículo de tração nas 3 rodas ao instalar um motor elétrico de 36 mil watts na roda da frente e cria um híbrido que escala ladeira
-
Carro elétrico mais barato do Brasil tem vendas suspensas antes das primeiras entregas: E-Motors interrompeu a comercialização do Emova Easy, que custaria R$ 69.990, após o aumento do imposto de importação e a alta no custo do frete
-
Adeus Qashqai, Nissan engaveta um de seus SUVs mais importantes, revê plano da fábrica em meio a cortes de custos, pressão chinesa e revisão da linha de produtos
Na prática, isso se aproxima da explicação publicada pela WhichCar, segundo a qual o motor divide as quatro fases do ciclo em duas câmaras distintas e independentes, em vez de concentrar tudo no mesmo espaço como faz um motor convencional.
O texto da WhichCar também afirma que o desenho usa tolerâncias extremamente apertadas, abaixo de 0,1 mm, para dispensar as vedações típicas que marcaram motores rotativos do passado.
Essa reorganização é parte do argumento de eficiência do projeto. Ao separar admissão e compressão da combustão e do escape, a Astron tenta reduzir perdas e melhorar a forma como a carga é preparada antes da ignição, sem recorrer à arquitetura tradicional de pistões e virabrequim.
Números de potência, torque e eficiência do Omega 1
As cifras que tornaram o Omega 1 surpreendente vieram das estimativas divulgadas pela própria empresa.
Segundo a WhichCar, um único módulo de cerca de 16 kg foi descrito como capaz de entregar 119 kW, 230 Nm, marcha lenta de 1.000 rpm e limite de 25.000 rpm, enquanto a configuração mais ambiciosa aparecia com 447 kW, 1.355 Nm e 80% de eficiência térmica em simulação.

A WhichCar também ressalta que a Astron ainda precisava transformar esses planos em algo real e enfrentar problemas importantes de engenharia, especialmente as tolerâncias extremamente finas do conjunto e a necessidade de materiais mais sofisticados para suportar variações térmicas sem comprometer funcionamento e durabilidade.
Isso coloca o Omega 1 em uma zona comum a muitas tecnologias emergentes da mobilidade: a de um projeto com números chamativos, mas que ainda precisa atravessar a etapa decisiva de validação fora do computador, sob carga, temperatura, desgaste e custo industrial.
Hidrogênio, baixo peso e emissões próximas de zero formam o núcleo da aposta tecnológica da Astron
A Astron sempre apresentou o conceito como um motor de múltiplos combustíveis, com o hidrogênio no centro da estratégia.
A WhichCar relatou que a empresa tratava o hidrogênio como combustível ideal para o Omega 1, com emissões “close to zero”, enquanto a atual H2 Starfire é descrita pela própria Astron como uma alternativa de alta eficiência, com emissão de vapor d’água e zero NOx segundo a comunicação técnica publicada no site.
No material mais recente da empresa, a H2 Starfire aparece com 60% de eficiência térmica, cerca de 400 hp, peso de 54 kg, até 25.000 rpm e apenas 82 peças, o que mostra que a comunicação da Astron continua concentrada em motores rotativos compactos, leves e orientados ao hidrogênio.
Esse movimento não prova que o Omega 1 tenha chegado ao mercado, mas indica que a empresa manteve a mesma direção tecnológica: motores rotativos de alta rotação, baixo peso, poucas peças e discurso ambiental centrado no hidrogênio.
Patentes internacionais e foco atual na H2 Starfire mostram que a tecnologia segue em desenvolvimento e não em escala comercial
A proteção intelectual do conceito é real. O Google Patents lista a família de patentes da Astron para “Rotary engine, parts thereof, and methods”, com publicações e concessões nos Estados Unidos entre 2020 e 2024, além de extensões internacionais em diferentes jurisdições.
Ao mesmo tempo, o material público disponível não mostra o Omega 1 como motor automotivo pronto para venda em escala.
A WhichCar descreveu o projeto como algo ainda em fase de concretização, e o site oficial da Astron hoje enfatiza demonstrações, vídeos, PDFs técnicos e busca por parceiros OEM em torno da H2 Starfire.
O resultado é um caso que continua relevante para a indústria por um motivo simples: ele concentra, em um único projeto, as três grandes promessas que ainda seduzem o setor de combustão avançada, alta eficiência, baixo peso e compatibilidade com hidrogênio, mas sem ainda entregar comprovação pública de produção comercial ou adoção em larga escala.

