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Sem CNH categoria A, sem idade mínima de 21 anos e sem dois anos de habilitação: nova Medida Provisória do governo deixa qualquer brasileiro com 18 anos virar motofretista ou mototaxista só com Autorização pra Conduzir Ciclomotor em moto de 50 cilindradas

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 22/05/2026 às 20:53
Atualizado em 22/05/2026 às 20:56
Motofretista brasileiro pilotando moto popular de baixa cilindrada com bag preta de entrega nas costas em rua urbana com calçada faixa de pedestre e prédios ao fundo
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O governo federal editou em maio a Medida Provisória nº 1.360/2026 e mudou de uma vez as exigências para trabalhar como motofretista e mototaxista no Brasil. Quem tem apenas a Autorização para Conduzir Ciclomotor pode atuar legalmente nos dois setores, em moto de até 50 cilindradas. A regra já está em vigor.

Antes da MP, a legislação era bem mais dura. O trabalhador precisava de CNH categoria A, tinha que ter no mínimo 21 anos de idade e somar pelo menos dois anos de habilitação. Sem qualquer um desses três requisitos, o motofrete e o mototáxi ficavam fora de alcance.

O texto saiu da Senatran, vinculada ao Ministério dos Transportes, e altera diretamente o Código de Trânsito Brasileiro e a Lei 12.009 de 2009. Especificamente, a MP revoga o artigo 139-A do CTB e o segundo artigo da Lei do Motofrete.

A Lei 12.009 nasceu há mais de quinze anos para organizar o setor. Ela criou exigências mínimas de segurança, idade e curso especializado para motofretistas e mototaxistas. Era o pacote que vinha sendo refinado por resoluções do Contran desde então.

O que muda na prática é o universo de quem pode trabalhar sobre duas rodas. Antes só motociclista com a categoria A da CNH entrava no jogo. Agora qualquer brasileiro a partir de 18 anos com a Autorização para Conduzir Ciclomotor está liberado para transporte remunerado de pessoa e mercadoria.

O cenário não é pequeno. O setor de motofrete e de entrega por aplicativo reúne hoje centenas de milhares de trabalhadores autônomos no Brasil, segundo dados de sindicatos e associações da categoria. É um dos principais portos de entrada do mercado de trabalho informal nas grandes capitais.

O detalhe técnico importa: o veículo precisa ser ciclomotor, classe de motocicleta de baixa cilindrada que vai até 50 cm³. É o que define modelos populares como a Honda Pop e a Honda Biz mais antiga. Moto maior continua exigindo CNH categoria A.

Olhando o calendário, dá pra ver a contradição. A MP foi publicada em pleno Maio Amarelo, mês de campanhas oficiais de segurança no trânsito. Flexibilizar acesso a profissões sobre moto justo nesse mês foi o que mais incomodou especialistas em segurança viária.

Como a MP afeta motofretistas e mototaxistas no Brasil

Fila de motofretistas brasileiros estacionados em calçada urbana com motos de baixa cilindrada e bag preta nas costas, cenário urbano comum com prédio e fachada de loja ao fundo
Fila de motofretistas em ponto urbano brasileiro. Foto editorial. O setor reúne hoje centenas de milhares de trabalhadores autônomos em todo o país.

O coronel da reserva da Polícia Militar de Santa Catarina Ricardo Silva, especialista em segurança viária, foi um dos primeiros a comentar a MP. Em entrevista à CNN Brasil, ele alertou para os possíveis efeitos de uma mudança feita sem estudos técnicos prévios.

“Essa permissão terá reflexos na segurança viária, na saúde pública, na fiscalização e também nos índices de mortalidade e lesões”, disse Silva à CNN Brasil. O coronel mencionou também impactos no SUS e no sistema previdenciário, já que motoboys lideram estatísticas de acidente grave.

Quem vê motoboy todo dia na rua do trabalho entende a tensão por trás dessa frase. Acidente grave, fratura, afastamento, perícia, previdência: é uma cadeia de impacto público quando o setor explode em volume sem amadurecer formação.

O argumento contrário também tem força. Pra muito jovem brasileiro de cidade média ou periferia, o ciclomotor é o veículo mais barato disponível. Comprar moto maior é um investimento que sequer cabe no orçamento. Sem ACC válida pra motofrete, esse perfil ficava trancado fora do mercado formal de duas rodas.

A flexibilização faz parte de um pano de fundo maior, que é a digitalização do transporte remunerado no país. Quase tudo que motofretista e mototaxista fazem hoje passa por aplicativo, com plataformas pedindo cadastro rápido, perfil ativo e fluxo constante de entregas. O acesso à profissão virou questão de funil de cadastro, não só de regulamentação clássica.

A MP do motofrete está dentro de um pacote bem maior do governo. Junto dela vem um programa federal de R$ 30 bilhões para financiar carros novos para taxistas e motoristas de aplicativos, com tomada de crédito facilitada. A leitura oficial é de modernização da frota de transporte individual remunerado.

O setor de duas rodas, especificamente, vive um momento de crescimento de demanda. A CNH no Brasil bateu recorde de mais de 300% no primeiro quadrimestre de 2026 com 4,8 milhões de pessoas pedindo a primeira habilitação. Parte desse movimento é gente entrando justamente no transporte remunerado.

Mesmo com a flexibilização, algumas exigências continuam. A Resolução do Contran nº 930 de 2022 mantém o curso especializado de 30 horas para motofretista e mototaxista, com módulos teóricos e práticos. A Resolução 1.020 de 2025 permitiu que parte desse curso fosse oferecida em EAD, o que já barateou e descentralizou a formação.

O destrave imediato, no entanto, tem um asterisco constitucional. Como toda medida provisória, a 1.360/2026 precisa ser apreciada pelo Congresso Nacional dentro do prazo legal pra se tornar lei permanente. Se cair, volta a regra antiga. Se passar com emendas, ainda pode ser modificada na hora da conversão.

Para o jovem brasileiro de 18 anos sem dinheiro pra moto grande, a porta de entrada do trabalho informal sobre duas rodas se abriu. Para o Estado e pra fiscalização, vem o desafio de adaptar curso, registro e controle pra um universo mais amplo de profissionais.

Confesso que olho pra essa mudança com sentimentos misturados. De um lado, mais brasileiros podendo trabalhar sobre uma moto barata. De outro, a fila de hospital pública já cheia de motoboy machucado e nenhum estudo de impacto técnico publicado. Você acha que essa MP é avanço ou retrocesso pra quem trabalha sobre duas rodas? Comenta aí embaixo o que pensa.

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Roberto Costa
Roberto Costa
26/05/2026 09:47

Esses “técnicos” deveriam se debruçar em um estudo minucioso a respeito da circulação de motocicletas em áreas urbanas e rodovias. É uma zona, onde ninguém respeita nada.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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