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Rota 66 nasceu quando viajar de carro era quase uma aventura perigosa, virou símbolo da liberdade americana e ainda atrai turistas por seus cafés, desertos e histórias escondidas

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Escrito por Fabio Lucas Carvalho Publicado em 14/05/2026 às 17:35 Atualizado em 14/05/2026 às 21:52
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De estrada precária a símbolo mundial das viagens de carro, a Rota 66 atravessou crises, guerra e mudanças nas rodovias americanas, mas ainda preserva cafés, postos históricos, desertos e histórias familiares que mantêm viva sua fama

A Rota 66, hoje lembrada como símbolo da cultura rodoviária americana, nasceu quando viajar de carro ainda exigia enfrentar caminhos precários, pouca sinalização e trechos difíceis, muito antes de rodovias modernas transformarem o deslocamento em uma operação quase de serviço secreto.

No início do século XX, os automóveis ainda dividiam espaço com um país estruturado para viagens ferroviárias. As ferrovias eram o transporte de longa distância mais confiável, enquanto muitas vias chamadas rodovias não passavam de caminhos sem pavimento.

Essas estradas seguiam antigas trilhas de caça ou marcas deixadas por carroças. Tinham curvas perigosas, sinalização ruim e pontos sujeitos a quedas de água, condições que podiam servir a cavalos, mas causavam problemas aos carros modernos.

A virada começou em 1916, quando o governo federal aprovou a Lei Federal de Auxílio Rodoviário. A medida ofereceu recursos aos estados para desenvolver grandes rodovias, abrindo caminho para um sistema mais organizado.

Em 1921, o Congresso determinou que os fundos federais fossem usados para conectar essas estradas em uma rede interestadual. A iniciativa foi bem recebida por Cyrus Avery, empresário de Oklahoma e figura influente no setor rodoviário.

Avery defendia que os americanos seriam melhor atendidos se o emaranhado de estradas do Centro-Oeste até a costa fosse melhorado e conectado. Em 11 de novembro de 1926, a Rota 66 tornou-se oficialmente uma rodovia federal.

De estrada incompleta a serviço secreto da viagem americana

A nova rota, porém, estava longe de pronta. Das 2.448 milhas previstas entre Chicago e Santa Monica, apenas cerca de 800 milhas eram asfaltadas. O restante tinha terra, cascalho, tijolos ou até tábuas de madeira.

Para acelerar a conclusão e divulgar a rodovia, Avery organizou enviados dos oito estados atravessados pela Rota 66. A promoção incluiu anúncios, mapas e uma corrida a pé de 1928, de Los Angeles a Nova York.

A prova ficou conhecida como “Derby de Bunion” e durou 84 dias. Dos 199 participantes, 144 terminaram prejudicados, enquanto apenas 55 completaram o percurso até o fim.

O vencedor foi Andy Payne, integrante da Nação Cherokee em Oklahoma. Ele recebeu US$ 25 mil, valor estimado em cerca de US$ 500 mil hoje, e usou o prêmio para pagar a fazenda da família e comprar um carro.

Enquanto isso, equipes trabalhavam ao longo da estrada que Avery promovia como “Main Street of America”. Toda a extensão da Rota 66 foi finalmente pavimentada em 1938, consolidando sua importância no mapa americano.

Na década de 1930, a Depressão empurrou refugiados do Dust Bowl para o oeste pela Rota 66. Eles fugiam dos campos vazios do Centro-Oeste em busca de trabalho agrícola na Califórnia.

Em 1939, John Steinbeck chamou a rodovia de “estrada mãe” no romance “As Vinhas da Ira”. A expressão evocava o refúgio procurado pelos “Okies” e o papel da rota no crescimento das cidades da Costa Oeste.

Guerra, famílias e o auge da Rota 66

Quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial, a Rota 66 passou a funcionar como artéria para transportes militares entre fortes e portos. Depois do conflito, entrou em seus anos mais conhecidos.

Famílias viajavam em grandes Plymouths para conhecer o país recém-triunfante. Os turistas observavam Chicago, os saguaros do Arizona e as ondas do Pacífico, enquanto a estrada virava destino de férias.

A América era vista como bonita, as pessoas tinham dinheiro e férias, e a Rota 66 parecia o lugar certo para gastar tempo. O antigo serviço secreto das viagens difíceis dava lugar à experiência popular.

O sucesso também trouxe pressão. Em meados da década de 1950, a Rota 66 já não conseguia suportar todo o trânsito. Aos poucos, foi alargada ou contornada por novas rodovias de várias faixas.

Em 1985, a antiga rota perdeu oficialmente seu status de rodovia federal. Seus trechos voltaram a ser estradas secundárias e municipais, controladas pelos estados, enquanto muitos estabelecimentos familiares começaram a desaparecer.

Com as novas interestaduais, o mundo moderno passou ao largo de cafés, motéis e postos antigos. Partes da rota original foram engolidas pela areia ou reconstruídas conforme as cidades se expandiam.

Preservação mantém viva a estrada histórica

Mesmo rebaixada, a Rota 66 segue atraindo viajantes do mundo todo. Seu cenário e a cultura americana do século XX ainda motivam percursos por centenas de quilômetros da estrada antiga.

Oklahoma, Novo México e Arizona preservam trechos importantes. Neles, ainda é possível dirigir pela velha estrada, parar em um café pitoresco e tomar café com uma fatia de torta.

Em Luther, Oklahoma, a terceira geração da família Threatt trabalha para preservar uma parada histórica. Allen Threatt Sr. abriu o Posto de abastecimento Threatt em 1915 para atender viajantes negros.

Durante os dias de Jim Crow, o posto era o único negócio de propriedade de negros entre duas “cidades ao pôr do sol”, onde viajantes negros não eram bem-vindos. Tornou-se refúgio, comunidade e ponto de encontro.

No deserto de Mojave, Alberto Okura comprou Amboy, antiga cidade ferroviária sem habitantes, em 2005. Ele iniciou a restauração de bombas antigas e de um motel de meados do século.

Após sua morte, em 2023, o filho Kyle Okura continuou o projeto. No mapa, a Rota 66 parece uma linha diagonal até Santa Mônica, mas sua história permanece viva em cada zelador.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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