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Roraima vira nova rota clandestina do ouro ilegal rumo ao mercado global

Escrito por Sara Aquino
Publicado em 30/01/2026 às 13:55
Atualizado em 30/01/2026 às 13:56
Roraima virou ponto-chave do contrabando de ouro, com cargas ilegais seguindo para países vizinhos por rotas clandestinas.
Foto: IA
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Roraima virou ponto-chave do contrabando de ouro, com cargas ilegais seguindo para países vizinhos por rotas clandestinas.

O avanço do ouro ilegal no Brasil ganhou um novo desenho em dezembro de 2025, quando autoridades federais identificaram uma mudança estratégica no contrabando do metal. 

A partir desse momento, Roraima passou a atuar como ponto-chave de saída do ouro para o exterior. 

Essa constatação surgiu após apreensões expressivas realizadas pela Polícia Federal (PF) e pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), tanto em Boa Vista quanto nas rodovias do Estado. 

Até então, o ouro extraído ilegalmente seguia para outros centros do país. 

Agora, no entanto, as organizações criminosas passaram a direcionar o metal diretamente para rotas internacionais. 

Esse movimento ocorre, sobretudo, devido à valorização histórica do ouro no mercado global e, ao mesmo tempo, à repressão mais intensa ao garimpo ilegal em território brasileiro. 

A apreensão que expôs a nova rota clandestina 

O episódio mais emblemático ocorreu em 2 de dezembro de 2025. 

Na ocasião, durante uma operação de monitoramento aéreo, agentes federais identificaram uma aeronave que alterou de forma abrupta seu plano de voo e pousou no Aeroporto Internacional de Boa Vista. 

Em seguida, as equipes realizaram a abordagem e encontraram 51 quilos de ouro ilegal, sem nota fiscal ou qualquer comprovação de origem. 

Segundo a PF, naquele momento, a carga alcançava cerca de R$ 36 milhões. 

Ainda assim, esse valor pode ser ainda maior, considerando a escalada recente do preço do ouro no mercado internacional. 

Durante o depoimento, os ocupantes da aeronave afirmaram que o material havia sido embarcado em Itaituba, no Pará, um dos principais entrepostos do garimpo ilegal na Amazônia. 

Além disso, eles confirmaram que voos semelhantes já haviam ocorrido anteriormente com destino a Roraima. 

Roraima assume papel central no contrabando de ouro 

Com essa apreensão, investigadores reforçaram uma percepção que já vinha se consolidando.

Roraima passou a funcionar como um verdadeiro corredor logístico para a exportação clandestina de ouro. 

Durante décadas, o metal extraído ilegalmente, especialmente da Terra Indígena Yanomami, seguia para outros Estados. 

Nesses locais, esquemas de “esquentamento” documental tentavam dar aparência legal ao produto antes da exportação. 

Agora, porém, esse fluxo se inverteu. 

“Identificamos uma mudança clara na rota do ouro. 

Atualmente, o metal extraído em outras regiões do país segue para Roraima, que funciona como ponto de passagem para outros países”, afirmou o delegado da PF Caio Luchini. 

Os números confirmam essa tendência. Dados da PRF mostram que, entre 2024 e 2025, o volume de ouro apreendido nas estradas de Roraima cresceu 368%. 

Assim, o total saltou de 22,3 quilos para 104,5 quilos. 

Além disso, esse número não inclui grandes apreensões realizadas pela PF no fim de 2025, o que indica que o volume real pode ser significativamente maior. 

Fronteiras estratégicas e fiscalização desigual 

Diante desse cenário, a principal hipótese das autoridades aponta para o uso de rotas que atravessam a Venezuela e a Guiana. 

Essa escolha ocorre, sobretudo, pela proximidade geográfica, pela fiscalização menos rigorosa e pela existência de uma infraestrutura clandestina montada durante o auge do garimpo ilegal na Terra Yanomami. 

Nesse contexto, pistas de pouso improvisadas, redes de abastecimento e pilotos experientes formam a base logística do esquema. 

Além disso, a situação nos países vizinhos favorece o escoamento do ouro.

Na Guiana, o garimpo é legalizado, o que dificulta a diferenciação entre ouro legal e contrabandeado. 

Já na Venezuela, relatórios indicam que a maior parte da produção ocorre de forma ilegal. 

Tradição garimpeira e histórico do ouro ilegal 

Roraima mantém uma relação histórica com a mineração artesanal. 

Inclusive, o Monumento do Garimpeiro, em Boa Vista, simboliza décadas de migração em busca de ouro. 

Entretanto, investigações da PF e do Ministério Público Federal revelaram que parte significativa do ouro ilegal abasteceu mercados da Europa, da Ásia e dos Estados Unidos. 

Durante anos, esquemas fraudaram documentos para “legalizar” o metal. 

Na prática, organizações criminosas vinculavam o ouro a permissões de lavra inexistentes ou localizadas a centenas de quilômetros de distância.

“Identificamos o envio do ouro para Estados como São Paulo, Pará e Rondônia. Nesses locais, ocorria o esquentamento documental”, relembra Luchini. 

Por que a rota mudou agora? 

Segundo a PF, três fatores principais explicam essa mudançaEm primeiro lugar, a intensificação das operações contra o garimpo ilegal após a crise humanitária Yanomami, em 2023, reduziu drasticamente a extração na região. 

Em segundo, a exigência da nota fiscal eletrônica para transações com ouro dificultou fraudes. Por fim, o Supremo Tribunal Federal extinguiu a presunção de boa-fé na compra do metal. 

“Com essas medidas, ficou muito mais difícil lavar ouro no Brasil”, explica Larissa Rodrigues, do Instituto Escolhas. 

Como consequência direta, as exportações oficiais caíram 31% entre 2022 e 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). 

Valorização do ouro e risco de nova escalada 

Paralelamente a isso, a valorização do ouro elevou ainda mais o risco de expansão do contrabando.

O metal superou a marca de US$ 5 mil por onça, impulsionado por cenários de instabilidade global. 

Nessas circunstâncias, investidores tratam o ouro como ativo de segurança, o que amplia a demanda. 

“Sempre que o preço sobe, cresce também o estímulo à extração ilegal”, alerta Rodrigues. 

Por esse motivo, especialistas avaliam que a pressão sobre regiões de fronteira, como Roraima, tende a aumentar. 

Enquanto isso, as forças de segurança buscam se antecipar às adaptações do crime organizado.

“O território é enorme e o efetivo é limitado. Ainda assim, usamos inteligência e análise de risco para agir”, afirma a PRF. Dessa forma, a disputa entre fiscalização e crime organizado segue moldando, ano após ano, os novos caminhos do ouro ilegal no Brasil. 

Veja mais em: Ouro: a nova rota de contrabando no Brasil que abastece o mercado internacional – BBC News Brasil

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Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

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