Com probabilidade superior a 80% de um El Niño moderado a forte, Minas Gerais monitora riscos para chuvas, safra 2026/27, energia, indústria e comércio no segundo semestre
A possível intensificação do El Niño no segundo semestre acendeu alerta em Minas Gerais por causa do risco de atraso das chuvas, aumento das temperaturas e impactos na safra 2026/27, na energia e na indústria. Nota técnica do Cemaden aponta mais de 80% de probabilidade de um evento moderado a forte.
El Niño pode atrasar chuvas e elevar risco para a safra 2026/27
Produtores rurais, indústrias e técnicos de Minas Gerais já acompanham com atenção a possibilidade de intensificação do El Niño no segundo semestre.
Ainda há incerteza sobre a força do fenômeno, mas especialistas e representantes do setor produtivo avaliam que o risco climático aumentou.
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A nota técnica divulgada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, Cemaden, indica mais de 80% de probabilidade de ocorrência de um El Niño de intensidade moderada a forte no segundo semestre deste ano. O cenário está associado ao aquecimento do mar em torno de 1,5ºC.
Caso se confirme, o fenômeno pode afetar diretamente o desenvolvimento da safra 2026/27 em Minas Gerais. A preocupação envolve tanto o campo quanto setores industriais ligados ao uso de energia, logística e funcionamento das cadeias produtivas.
O professor de Agrometeorologia da Universidade Federal de Lavras, Felipe Schwerz, afirma que os modelos climáticos já mostram aquecimento do oceano suficiente para caracterizar o fenômeno. As projeções indicam tendência de intensidade moderada a forte entre setembro e outubro.
Apesar disso, Schwerz pondera que ainda não é possível cravar um cenário extremo. O principal alerta para Minas envolve a combinação de temperaturas mais altas, chuvas reduzidas e irregulares, além de possível atraso no início do período chuvoso.
Irregularidade das chuvas preocupa milho, soja, feijão e café
No campo, o El Niño pode exigir planejamento mais cauteloso. Schwerz explica que o fenômeno tende a enfraquecer a Zona de Convergência do Atlântico Sul, responsável por grande parte das chuvas no Sudeste, o que eleva o risco de veranicos prolongados.
Esse quadro pode levar produtores a rever o calendário de plantio, escolher cultivares mais resistentes e reduzir investimentos considerados mais arriscados. Para o professor, este é um ano de maior risco climático, com necessidade de investimentos moderados.
A avaliação é compartilhada pelo gerente de Agronegócio do Sistema Faemg Senar, Rafael Rocha. Segundo ele, o fenômeno já é tratado como praticamente certo, e o impacto na safra 2026/2027 dependerá da proporção que o El Niño atingir.
Rocha afirma que a irregularidade das chuvas deve atrasar o plantio, reduzir a janela da safrinha e comprometer culturas como milho, soja e feijão. O café também preocupa, principalmente em fases sensíveis como florada e enchimento de grãos.
O alerta chega em um momento já considerado desafiador para o setor. De acordo com Rocha, produtores enfrentam custos elevados de produção, alta no preço dos fertilizantes, crédito mais restrito e queda nos preços das commodities.
Calor pode pressionar energia e afetar produção industrial
Os efeitos do El Niño em Minas Gerais não ficam restritos ao agronegócio. Na indústria, o principal ponto de atenção está no setor de energia, especialmente pelo aumento da temperatura e seus reflexos no consumo.
O consultor da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, Fiemg, Sergio Pataca, explica que o fenômeno altera o regime hídrico em todo o país. Ele pode até favorecer os reservatórios do Sul, que operam em níveis baixos.
Ao mesmo tempo, o aumento do calor tende a elevar o consumo de energia no Sudeste. Segundo Pataca, esse desequilíbrio pode pressionar o sistema elétrico, mesmo em um cenário de melhora nos reservatórios.
Eventos extremos, como chuvas intensas ou secas prolongadas, também podem provocar impactos diretos na produção industrial de Minas Gerais. O consultor cita paralisações já vistas em episódios recentes em Ubá e Juiz de Fora, na Zona da Mata.
Comércio, logística e seguro rural entram no radar
O comércio também pode sentir os efeitos do fenômeno. O aumento do calor tende a impulsionar a procura por ventiladores e ar-condicionados, enquanto eventos climáticos extremos podem afetar abastecimento, logística, consumo e disponibilidade de produtos e mão de obra.
Pataca afirma que já há aumento do consumo de energia por causa da elevação das temperaturas. Ele também destaca a atenção à cadeia produtiva de forma ampla, não apenas ao sistema elétrico.
Diante do risco climático, mecanismos de proteção voltaram ao debate. Durante o Congresso da Associação Brasileira dos Produtores de Milho, realizado em Brasília na semana passada, a senadora e ex-ministra da Agricultura e Pecuária, Tereza Cristina, defendeu a ampliação do seguro rural.
Para ela, o modelo atual é insuficiente diante da frequência crescente de eventos climáticos extremos. A proposta é avançar para um seguro mais abrangente, que inclua perdas climáticas, variações de preço e renda.
A ex-ministra também defendeu um fundo garantidor para dar mais segurança ao crédito rural e reduzir a dependência de socorro governamental em momentos de crise. Segundo ela, o mecanismo já existe em outras modalidades e precisa avançar na agricultura.
Esta matéria foi elaborada com base em informações do Cemaden, Universidade Federal de Lavras, Sistema Faemg Senar, Fiemg e declarações da senadora Tereza Cristina, com dados, números e declarações preservados conforme o material consultado.

