Uma tecnologia testada em estrada pública reacende o debate sobre recarga elétrica em movimento, ao integrar pavimento e veículos pesados em um sistema experimental que transfere energia sem contato físico enquanto o caminhão trafega em velocidade de rodovia.
Por anos, a ideia de recarregar veículos enquanto eles se deslocam foi discutida em ambientes acadêmicos e projetos experimentais.
Ela apareceu em protótipos, estudos técnicos e programas-piloto de curta escala.
Em geral, esses testes ocorreram fora de rodovias de tráfego intenso e sem aplicação em veículos pesados.
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Segundo pesquisadores da área de mobilidade elétrica, o principal desafio sempre foi viabilizar a transferência de energia através do pavimento, com eficiência e segurança, sem cabos aparentes, e sincronizada com veículos em alta velocidade.
Segundo o portal Interesting Engineering, pesquisadores da Purdue University testaram essa possibilidade em uma estrada pública nos Estados Unidos e divulgaram resultados que, segundo a instituição, ampliam o debate sobre infraestrutura de recarga elétrica.
Em um trecho experimental de um quarto de milha nas rodovias U.S. Highway 52 e U.S. Highway 231, em West Lafayette, no estado de Indiana, um caminhão elétrico recebeu energia sem fio enquanto trafegava a 65 milhas por hora, o equivalente a cerca de 105 km/h.
De acordo com a universidade e com o Departamento de Transportes de Indiana, o sistema transferiu 190 quilowatts para o veículo em movimento durante testes realizados no outono de 2025, incluindo uma etapa em outubro.
Sistema de recarga sem fio integrado ao pavimento
O experimento ocorreu em um segmento construído especificamente para testar um sistema descrito como patente pendente pela Purdue University, instalado abaixo do pavimento de concreto.
Segundo os pesquisadores, o sistema utiliza bobinas transmissoras incorporadas à estrutura da estrada, capazes de gerar um campo magnético controlado.
O veículo utilizado nos testes foi equipado com bobinas receptoras montadas na parte inferior do chassi.
Conforme a descrição técnica apresentada pela universidade, quando o caminhão passa sobre a faixa equipada, a energia é transferida por meio do campo magnético, atravessa a camada de concreto e é direcionada ao sistema elétrico do veículo em tempo real, sem contato físico direto.
A Purdue informa que atingir níveis próximos de 200 quilowatts em velocidade de rodovia representa um patamar ainda pouco explorado em testes públicos nos Estados Unidos para recarga dinâmica de veículos pesados.
A universidade destaca que, no trecho de West Lafayette, o sistema entregou 190 quilowatts a um caminhão trafegando a 65 milhas por hora, ressaltando o valor de potência alcançado durante a passagem do veículo.
Para contextualizar a escala da energia envolvida, pesquisadores compararam o volume transferido ao consumo médio residencial.
“Para colocar isso em perspectiva, 200 quilowatts estão na escala do consumo de cerca de cem residências”, afirmou Steve Pekarek, professor da Purdue University.

Por que os testes começaram com caminhões pesados
Segundo os responsáveis pelo projeto, a escolha de um caminhão de grande porte está relacionada às exigências técnicas do sistema.
Veículos pesados demandam níveis elevados de potência, e a equipe avalia que um sistema capaz de atender esse perfil também pode operar com veículos de menor consumo.
Na avaliação apresentada pelos pesquisadores, esse desenho amplia o espectro de aplicação da tecnologia, já que a mesma infraestrutura poderia ser utilizada por diferentes categorias de veículos.
“Este é um sistema projetado para funcionar desde a classe mais pesada de caminhões até veículos de passeio”, afirmou Aaron Brovont, pesquisador envolvido no desenvolvimento do projeto, ao explicar os critérios adotados no dimensionamento das bobinas e do sistema receptor.
A Purdue também associa o estudo a discussões recorrentes sobre custo e adoção de veículos elétricos.
Segundo a universidade, dois pontos frequentemente citados em pesquisas de opinião são a autonomia e o custo dos veículos.
“Duas das maiores barreiras para a adoção de veículos elétricos, ao menos do ponto de vista do público, são a ansiedade de autonomia e o custo”, afirmou John Haddock, professor da Lyles School of Civil and Construction Engineering.
De acordo com Haddock, parte significativa desse custo está relacionada ao tamanho dos pacotes de baterias, necessários para garantir autonomia em longas distâncias.
A equipe do projeto aponta que, em um cenário de recarga durante o deslocamento, a necessidade de grandes baterias pode ser reduzida, tema que ainda está em análise.
No transporte de cargas, os pesquisadores também observam que o peso das baterias impacta diretamente a capacidade útil do veículo, uma vez que massa e volume competem com a carga transportada.
A universidade menciona dados públicos do setor de logística para contextualizar a relevância dos caminhões no transporte rodoviário e na economia dos Estados Unidos.
Pavimento de concreto como parte do sistema elétrico
Outro aspecto destacado pela equipe é o material do pavimento.
Segundo a Purdue University, o sistema foi projetado para operar dentro de pavimentos de concreto, comuns em rodovias com tráfego intenso no país.
O Departamento de Transportes de Indiana informa que as bobinas transmissoras foram instaladas sob o pavimento, formando uma faixa eletrificada sem componentes visíveis na superfície da estrada.
O caminhão circulou com o conjunto receptor fixado na parte inferior, recebendo energia durante a passagem pelo trecho preparado para o teste.
Embora a recarga sem fio já seja utilizada em aplicações de baixa potência, a universidade ressalta que o ambiente rodoviário impõe desafios adicionais, em função da distância, da velocidade e da potência envolvidas.
“Transferir energia por meio de um campo magnético a essas distâncias relativamente grandes é um desafio”, afirmou Dionysios Aliprantis, professor de engenharia elétrica e de computação da Purdue University.
Segundo ele, a complexidade aumenta quando a transferência ocorre para um veículo pesado em movimento, operando em níveis de potência milhares de vezes superiores aos utilizados em sistemas de recarga de eletrônicos de consumo.
Caminhão da Cummins e testes em estrada pública
O veículo utilizado foi um semitrator elétrico de classe 8 fornecido pela Cummins, adaptado para integrar o sistema de transferência dinâmica desenvolvido pela Purdue University.
A universidade informa que os testes em estrada ocorreram no outono de 2025.
O Departamento de Transportes de Indiana registra que uma condução realizada em outubro fez parte da demonstração pública do trecho, mantendo a velocidade de 65 milhas por hora.
A Cummins, por meio de seu engenheiro-chefe de tecnologia, John Kresse, avaliou o desempenho do ensaio em comunicado institucional.
“Os testes em estrada ocorreram de forma excepcional, graças à forte colaboração entre as equipes”, afirmou Kresse.
Ele acrescentou que a combinação de alta potência e estrutura de custos promissora torna a tecnologia uma solução prática para o futuro do transporte comercial rodoviário.
Segundo a Purdue University, o projeto envolveu colaboração com empresas de engenharia e construção, como AECOM, White Construction e PC Krause and Associates, além de órgãos públicos estaduais.
O Departamento de Transportes de Indiana descreve o segmento como o primeiro trecho de rodovia no país a demonstrar recarga sem fio de um caminhão elétrico pesado em movimento, ressaltando que o sistema permanece em fase experimental.
Projeto iniciado em 2018 e apoio da Fundação Nacional de Ciência
A iniciativa integra um esforço de pesquisa iniciado em 2018 pela Purdue University em parceria com o Departamento de Transportes de Indiana.
O projeto conta com apoio do Joint Transportation Research Program.
A universidade também relaciona o trabalho ao ASPIRE, um centro de pesquisa em engenharia da Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos, voltado à infraestrutura de transporte eletrificada.
Segundo o Departamento de Transportes de Indiana, as próximas etapas envolvem a ampliação dos testes, a coleta de dados adicionais e a contribuição para o desenvolvimento de padrões técnicos, sem previsão de aplicação comercial imediata.

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