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Resíduo pode começar a viajar por gasodutos como combustível renovável em projeto que quer ligar plantas de biogás da Turquia ao mercado europeu

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 05/10/2026 às 09:25 Atualizado em 05/10/2026 às 09:40
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Biotrend e Uniper estudam transformar resíduos em 1,4 TWh de biometano
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Biotrend e Uniper estudam transformar resíduos em 1,4 TWh de biometano por ano e enviar o gás renovável da Turquia para a União Europeia.

O gás poderá nascer em pilhas de resíduos, entrar em uma tubulação na Turquia e reaparecer centenas de quilômetros depois dentro do mercado europeu. Segundo a Uniper, que anunciou o acordo em 30 de setembro de 2026, a alemã e a turca Biotrend Enerji começaram a estudar a conversão de instalações que hoje transformam resíduos em biogás e eletricidade para produzir biometano com potencial estimado de 1,4 terawatt-hora por ano.

Hakan Göral, CEO do Grupo Doğanlar, controlador da Biotrend, e Michael Lewis, CEO da Uniper, colocaram no centro da negociação uma vantagem incomum: se o projeto avançar, parte do combustível não precisará de uma nova rede exclusiva. Depois de purificado, o gás renovável poderá entrar no sistema de gás natural da Turquia, seguir na direção da Grécia ou Bulgária e cruzar a fronteira da União Europeia usando infraestrutura já existente.

O plano começa onde hoje já existe uma indústria de resíduos

A Biotrend não pretende iniciar essa operação construindo toda a cadeia do zero. A companhia já possui 17 instalações distribuídas por nove províncias turcas. Parte delas trabalha com gestão de resíduos e geração de energia.

Até junho de 2026, a empresa informava 835 empregados e presença em seis regiões da Turquia. O portfólio inclui oito complexos integrados de gestão de resíduos e geração de energia, seis unidades de geração e outras instalações associadas.

Hoje, boa parte desse material orgânico é aproveitada para produzir biogás e, posteriormente, eletricidade.

A nova ideia é mudar o destino de parte desse gás antes que ele chegue aos geradores.

O biogás terá de passar por uma limpeza antes de entrar nos gasodutos

O gás produzido pela decomposição de resíduos não sai pronto para substituir o gás natural. Ele contém metano, mas também carrega dióxido de carbono, umidade, sulfeto de hidrogênio e outras substâncias.

Para virar biometano, passa por um processo de purificação.

Depois desse tratamento, a concentração de metano aumenta e o combustível pode atingir características próximas às do gás natural fóssil.

É justamente isso que permite pensar em uma operação diferente daquela usada para eletricidade.

Em vez de consumir o biogás ao lado do aterro ou da planta de resíduos, a empresa poderá transformá-lo em um combustível capaz de entrar na rede de gasodutos.

O portfólio existente pode alcançar 1,4 TWh por ano

A estimativa apresentada pelas empresas aponta um potencial de aproximadamente 1,4 TWh de biometano por ano dentro do portfólio atual da Biotrend.

Um terawatt-hora equivale a um bilhão de quilowatts-hora de energia. Portanto, a escala avaliada chega a aproximadamente 1,4 bilhão de kWh por ano em conteúdo energético.

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Não significa que esse volume já esteja sendo produzido como biometano.

As companhias ainda precisam analisar quais plantas podem ser convertidas, quanto custará a adaptação e qual volume conseguirá atender aos padrões exigidos pelos compradores europeus.

O memorando assinado não é uma decisão final de investimento nem um contrato definitivo de compra.

O combustível poderá sair pela Grécia ou pela Bulgária

Depois da produção vem a parte que transforma o projeto em uma pauta internacional. A ideia estudada é injetar o biometano na rede turca de gás natural.

A partir daí, o combustível poderia percorrer o sistema na direção da Grécia ou da Bulgária. Ao cruzar uma dessas fronteiras, entraria no mercado energético da União Europeia.

O combustível poderá sair pela Grécia ou pela Bulgária
O combustível poderá sair pela Grécia ou pela Bulgária

Não seria necessário transportar o produto inteiro em caminhões ou construir uma nova rota dedicada desde cada unidade da Biotrend até o comprador final.

A infraestrutura de gás já instalada faria grande parte desse trabalho.

A própria Uniper ressalta, porém, que essa rota depende de regulação na Turquia e de sistemas de certificação aceitos pela Europa.

Uma rede construída para gás fóssil começa a ganhar outro combustível

Esse detalhe explica por que o biometano está atraindo empresas tradicionais do setor de gás. Uma molécula de gás renovável não precisa necessariamente de uma tubulação renovável.

Se cumprir os padrões técnicos, ela pode usar parte da infraestrutura que durante décadas foi construída para transportar gás fóssil.

Gasodutos, estações e redes de distribuição ganham, assim, uma segunda função.

A Comissão Europeia considera justamente essa compatibilidade uma das vantagens do biometano. O combustível pode ser armazenado, distribuído pela infraestrutura existente e consumido em vários equipamentos que atualmente usam gás natural.

Isso reduz uma das grandes barreiras enfrentadas por outras tecnologias: construir uma cadeia completamente nova entre produtor e consumidor.

A Turquia pode ter até 50 TWh de potencial ainda pouco explorado

Os 1,4 TWh avaliados no portfólio da Biotrend representam apenas uma parte do mercado que as empresas enxergam.

A Uniper calcula que a Turquia pode ter até 50 TWh por ano de potencial de biometano ainda não aproveitado.

É uma estimativa, não produção instalada.

Ela considera recursos orgânicos que poderiam ser transformados em gás renovável caso novas plantas e sistemas de coleta sejam desenvolvidos.

A Turquia possui grande produção agrícola, cidades populosas e volumes importantes de resíduos urbanos e industriais.

Cada uma dessas cadeias gera materiais orgânicos que podem alimentar biodigestores ou sistemas de recuperação de gás. O desperdício começa a ser tratado como matéria-prima energética.

A Europa quer produzir 35 bilhões de metros cúbicos por ano

Do outro lado da fronteira existe um comprador em busca de muito mais gás renovável.

O plano REPowerEU estabeleceu a meta de chegar a 35 bilhões de metros cúbicos anuais de biometano até 2030.

A estratégia ganhou força depois que a União Europeia decidiu reduzir sua dependência de combustíveis fósseis russos.

Hoje, a escala ainda está distante desse objetivo.

Dados reunidos pela Comissão Europeia indicam produção de biometano de aproximadamente 4,9 bilhões de metros cúbicos em 2023, com capacidade instalada de 6,4 bilhões de metros cúbicos no início de 2024.

A Comissão estima que alcançar a meta exigirá cerca de 37 bilhões de euros em investimentos. É nesse mercado em expansão que o combustível turco tentará entrar.

A Alemanha aparece no fim da rota

A Uniper tem sede em Düsseldorf e atua em grandes mercados europeus de energia. A empresa vê a parceria como uma possibilidade de adicionar uma nova fonte de gás renovável ao seu portfólio.

Michael Lewis afirmou que o fornecimento de biometano turco poderia ajudar no avanço das metas alemãs de redução de emissões.

Mas o gás não precisa necessariamente sair de uma determinada planta turca e percorrer fisicamente cada metro da rede até um consumidor específico na Alemanha.

Em mercados integrados, a infraestrutura e os sistemas de certificação permitem organizar a comercialização do volume e de seus atributos renováveis dentro da rede.

É justamente por isso que regras e certificados são tão importantes quanto o gasoduto. Sem um sistema reconhecido pela União Europeia, não basta simplesmente colocar o combustível na tubulação.

A Uniper já está montando outras rotas de biometano na Europa

A empresa alemã não começa essa estratégia com o acordo turco. A Uniper já garantiu fornecimento futuro de três instalações de biometano na Espanha.

Também trabalha com uma cadeia que transforma biometano em bio-GNL e utiliza infraestrutura ligada ao terminal Gate, em Rotterdam.

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Bio-GNL é o biometano resfriado até se tornar líquido.

Essa transformação facilita o transporte e abre mercado para atividades como navegação e transporte pesado. A parceria com a Biotrend adicionaria outra origem geográfica ao portfólio.

Em vez de depender apenas de produção dentro da União Europeia, a empresa testa a possibilidade de puxar combustível renovável de um país conectado fisicamente às redes do bloco.

A Bulgária pode virar uma das portas de entrada

A rota pela Bulgária tem uma lógica física. Os sistemas de gás turco e búlgaro já possuem conexões, e novos projetos de interligação são discutidos para aumentar a capacidade entre os dois países.

A Bulgartransgaz descreve uma proposta de interconexão Turquia-Bulgária com cerca de 76 quilômetros apenas no território búlgaro e capacidade planejada de aproximadamente 3 bilhões de metros cúbicos por ano.

Esse projeto específico não foi criado para o biometano da Biotrend.

Mas mostra a presença de uma infraestrutura regional montada para transportar gás entre a Turquia e o mercado europeu.

Se as regras permitirem, moléculas renováveis podem aproveitar corredores originalmente pensados para diversificar o fornecimento de gás convencional.

O resíduo que ficava perto da cidade pode terminar dentro de uma fábrica europeia

Hoje, as instalações da Biotrend já recebem materiais descartados e retiram energia deles.

A mudança estudada altera o destino final dessa energia. O gás pode deixar de ser queimado ao lado da unidade para produzir apenas eletricidade.

Depois de purificado, poderá entrar numa rede nacional, alcançar uma fronteira, atravessar outro país e continuar sua viagem pelo sistema europeu.

No fim dessa cadeia pode estar uma indústria, um caminhão pesado, uma instalação energética ou outro consumidor que antes comprava gás fóssil.

Nenhuma nova rota está garantida ainda.

Mas o acordo mostra algo que começa a mudar no mercado de biocombustíveis: uma pilha de resíduos localizada a centenas ou milhares de quilômetros do comprador pode ser transformada em combustível negociado internacionalmente sem precisar ser colocada dentro de um navio.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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