Projetos ligados aos biocombustíveis já somam R$ 289 bilhões no Brasil, enquanto etanol, SAF e biometano avançam para novos mercados.
O dinheiro ainda precisa virar fábrica, tanque, gasoduto e combustível, mas a fila de projetos já alcançou uma escala que muda o tamanho da indústria. Segundo o BrasilAgro Biocombustíveis já somam R$ 289 bilhões em investimentos no Brasil, projetos ligados a biocombustíveis e à transição energética já acumulam R$ 289 bilhões em investimentos cadastrados no país. O dado foi apresentado em 2 de outubro de 2026, durante o painel “Biocombustíveis e Transição Energética” do GAFFFF, em São Paulo.
Participaram do debate Plínio Nastari, presidente da Datagro, Arnaldo Jardim, presidente da Comissão de Transição Energética e Hidrogênio Verde da Câmara, Roberto Ardenghy, presidente do IBP, Mário Campos Filho, presidente executivo da SIAMIG Bioenergia, e Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial. A nova fase já não olha apenas para o tanque dos automóveis. O setor quer levar combustível renovável para aviões, navios, caminhões, máquinas agrícolas e para a própria rede de gás do país.
Os R$ 289 bilhões apareceram depois de uma mudança nas regras
O número apresentado no GAFFFF está ligado aos projetos cadastrados a partir da Lei do Combustível do Futuro, aprovada em outubro de 2024.
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A lei abriu novas rotas de crescimento para combustíveis que antes ocupavam mercados menores ou ainda não tinham demanda obrigatória no Brasil.
O etanol e o biodiesel já tinham indústrias grandes. SAF, diesel verde e biometano ganharam uma estrutura legal capaz de criar compradores nos próximos anos.
Esse detalhe importa para quem decide construir uma fábrica. Sem saber se haverá mercado, uma empresa pode adiar um investimento bilionário.
Com metas definidas em lei, parte dessa incerteza diminui.
R$ 289 bilhões cadastrados não são R$ 289 bilhões já gastos
Ela representa investimentos cadastrados em projetos, segundo o número levado ao GAFFFF por Arnaldo Jardim. Não significa que todo esse dinheiro já tenha sido aplicado.
Alguns projetos podem estar mais avançados. Outros ainda dependem de licença, financiamento, contrato de fornecimento, decisão final de investimento ou construção.
A Empresa de Pesquisa Energética trabalha com outra conta. Em seu planejamento para 2026 a 2035, a EPE estima mais de R$ 110 bilhões em investimentos necessários para a expansão dos principais biocombustíveis.
O etanol de milho colocou novas regiões dentro dessa indústria
Uma mudança já pode ser vista longe dos tradicionais canaviais paulistas. Usinas de etanol de milho avançaram principalmente pelo Centro-Oeste e abriram uma nova ligação entre produção de grãos e combustível.
Em 2025, milho e outras biomassas responderam por 9,45 bilhões de litros de etanol, ou 24,7% de toda a produção brasileira, segundo o Balanço Energético Nacional 2026.
Poucos anos antes, essa participação era muito menor.
A indústria compra milho, produz etanol e ainda retira do processo outros produtos que podem voltar para o campo.
Um deles é o DDGS, um ingrediente rico em nutrientes usado na alimentação de animais. Assim, o mesmo grão passa pela fábrica e sai de lá como combustível e alimento para a pecuária.
As usinas já começam a disputar mais milho
A Datagro estima que aproximadamente 23,3 milhões de toneladas de milho sejam destinadas à fabricação de etanol no ciclo comercial 2026/27.
Isso representa crescimento de 13% sobre o período anterior.
O movimento muda a conta em áreas produtoras de Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e outros estados.
Antes, boa parte do milho precisava percorrer longas distâncias até portos ou grandes centros consumidores.
Uma usina próxima cria outro comprador no interior.
O caminhão percorre uma distância menor, a indústria processa o grão perto da lavoura e o combustível entra na rede de distribuição.
O próximo grande mercado está no céu
A aviação é uma das áreas onde essa expansão pode ganhar mais dinheiro e complexidade. A Lei do Combustível do Futuro criou o ProBioQAV, programa voltado ao uso de combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF.
A regra prevê metas progressivas de redução de emissões nos voos domésticos a partir de 2027.
O ponto inicial é de 1%. A trajetória pode chegar a 10% em 2037.
Isso cria uma demanda que praticamente não existia em escala comercial no país.
Para atendê-la, será preciso construir unidades capazes de transformar matérias-primas renováveis em combustível compatível com motores de aviões.
O Brasil pode chegar a 2,8 bilhões de litros de SAF
As projeções oficiais mostram o tamanho do mercado que pode aparecer.
A EPE calcula que projetos anunciados poderão oferecer cerca de 1,7 bilhão de litros de SAF por ano a partir de 2030.
Em 2035, essa capacidade pode atingir 2,8 bilhões de litros anuais.
O combustível pode ser produzido por diferentes caminhos.
Uma possibilidade usa etanol como matéria-prima. Outra aproveita óleos vegetais, gorduras e resíduos.
Essa variedade coloca usinas de etanol, produtores rurais, refinarias e empresas de energia dentro da mesma corrida.
Navios também entraram na mira dos biocombustíveis
Outra fronteira aparece longe das estradas. O setor começou a estudar combustíveis renováveis para navios de longo curso, que hoje dependem fortemente de derivados de petróleo.
Durante o GAFFFF, Mário Campos Filho citou testes envolvendo etanol em operação marítima.
A Lei do Combustível do Futuro também criou espaço para um programa nacional de combustível sustentável para navegação.
O mercado pode ser enorme.
Navios cargueiros atravessam continentes transportando minério, grãos, petróleo, contêineres e produtos industriais.
Se uma pequena parte desse consumo migrar para combustíveis de menor emissão, a demanda deixa de ser medida apenas pelo abastecimento de carros.
Resíduos começam a entrar nos gasodutos como biometano
Enquanto o etanol procura aviões e navios, outro combustível começa sua expansão por uma rota diferente.
O biometano pode ser produzido a partir de resíduos urbanos, esterco, vinhaça, resíduos de usinas e matéria orgânica.
Primeiro surge o biogás. Depois, esse gás é purificado até atingir qualidade capaz de substituir o gás natural em diversas aplicações.
Em abril de 2026, o CNPE estabeleceu uma meta inicial de redução de emissões de 0,5% no mercado de gás por meio do biometano.
A própria Lei do Combustível do Futuro permite que esse mecanismo avance gradualmente.
Isso cria mercado para plantas instaladas em aterros, fazendas, agroindústrias e usinas de açúcar e etanol.
Máquinas agrícolas podem consumir combustível produzido na própria fazenda
Uma das mudanças mais interessantes acontece dentro da propriedade rural. Resíduos de uma operação agrícola podem alimentar biodigestores. O gás gerado passa por tratamento e vira biometano.
Esse combustível pode voltar para tratores, caminhões e outras máquinas.
Assim, parte do diesel comprado fora da propriedade pode ser substituída por um combustível gerado a partir de resíduos que antes tinham pouco valor.
Empresas sucroenergéticas já desenvolvem projetos com esse desenho.
A expansão cria uma cadeia em que cana, milho, esterco e resíduos deixam de ser apenas problemas de descarte ou matérias-primas tradicionais. Eles passam a carregar energia.
O biodiesel já tem fábricas capazes de produzir mais
O biodiesel entra nessa corrida com uma vantagem: a indústria já existe em grande escala. Durante o painel do GAFFFF, Carlos Eduardo Hammerschmidt afirmou que aproximadamente 60 indústrias brasileiras possuem capacidade para produzir 17 bilhões de litros por ano.
A produção citada por ele estava perto de 10 bilhões de litros. Isso deixa capacidade disponível antes mesmo da construção de novas fábricas.
A legislação permite elevar a mistura obrigatória de biodiesel no diesel ao longo dos próximos anos, desde que a viabilidade técnica seja comprovada.
O limite previsto na Lei do Combustível do Futuro pode chegar a 25%.
Mais biodiesel no tanque significa maior demanda por óleo vegetal, gorduras, resíduos e outras matérias-primas.
O volume de energia renovável nos transportes já está crescendo
O Brasil não parte do zero nessa mudança. O Balanço Energético Nacional mostra que fontes renováveis responderam por 26,1% do consumo energético dos transportes em 2025.
No mesmo ano, o consumo de biodiesel cresceu 8,2% e o de etanol avançou 4,3%.
A mistura de etanol anidro na gasolina passou de 27% para 30%. No diesel, a mistura obrigatória de biodiesel avançou de 14% para 15% naquele período. A partir daí, o debate deixa de ser apenas sobre criar um novo combustível.
Passa a ser sobre quanto da demanda existente pode migrar para matérias-primas renováveis sem causar falta de produto, alta excessiva de custos ou problemas técnicos.
A corrida de R$ 289 bilhões agora precisa virar fábrica
No campo, o milho já entra em usinas que não existiam há uma década. Em aterros e fazendas, resíduos começam a ser tratados como fonte de gás. No setor aéreo, companhias terão de reduzir gradualmente emissões a partir de 2027.
Navios e máquinas agrícolas aparecem como os próximos mercados. É nesse cruzamento que a carteira de R$ 289 bilhões tenta ganhar forma.
Parte dos projetos pode ficar no papel. Outra parte poderá se transformar em biorrefinarias, usinas de etanol, plantas de biometano, unidades de SAF e novas cadeias de transporte.
A diferença será decidida pelos próximos anos, quando metas previstas em lei começarem a exigir combustível de verdade.
Se essa nova demanda avançar conforme o planejado, o interior que hoje envia milho, cana e resíduos para outras cadeias poderá passar a vender também energia para caminhões, aviões, navios e indústrias.

