O desmatamento na Amazônia enfraquece a reciclagem de umidade, amplia seca e aquecimento global sobre a floresta amazônica, segundo estudo da Nature, que aponta risco de transições em cascata capazes de atingir até 77% do bioma se a perda de árvores avançar junto com o clima em escala regional amazônica.
O desmatamento pode reduzir a capacidade da Amazônia de produzir parte da própria chuva e tornar a floresta mais vulnerável a uma reação em cadeia de seca, aquecimento global e degradação. A conclusão aparece em estudo publicado na Nature em 6 de maio de 2026, assinado por Nico Wunderling, Boris Sakschewski, Johan Rockström, Bernardo M. Flores, Marina Hirota e Arie Staal.
Segundo estudo publicado na revista científica Nature, sem considerar o desmatamento, o limiar crítico aparece em um aquecimento global de 3,7 °C a 4,0 °C. Mas, quando a perda de árvores entra na conta, uma transição quase sistêmica pode ocorrer com aquecimento menor, entre 1,5 °C e 1,9 °C, combinado a 22% a 28% de desmatamento na bacia amazônica.
Desmatamento afeta a chuva que mantém a própria floresta
A Amazônia depende de um ciclo interno de umidade. As árvores absorvem água do solo e devolvem parte dela para a atmosfera por transpiração e evaporação, ajudando a alimentar novas chuvas dentro da própria bacia.
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Quando o desmatamento avança, esse mecanismo perde força. Menos árvores significam menos umidade reciclada, menos chuva em áreas dependentes desse transporte atmosférico e maior estresse para regiões que já enfrentam secas mais intensas.
Estudo mostra risco maior quando seca e aquecimento global atuam juntos

A pesquisa não analisa apenas a derrubada de árvores isoladamente. O estudo combina mudanças no uso da terra, aquecimento global e transporte de umidade para estimar como a floresta pode perder estabilidade em diferentes cenários climáticos.
O ponto central é que o desmatamento pode amplificar o ressecamento já causado pelo aquecimento global. Assim, áreas que talvez resistissem a um clima mais quente podem ficar mais vulneráveis quando também perdem a umidade enviada por outras partes da floresta.
Até 77% da floresta pode entrar em área de transição em cenários severos
Nos cenários analisados com desmatamento severo, os pesquisadores encontraram transições generalizadas no fim do século. As simulações apontam mais de 62% da bacia florestal amazônica em transição em alguns cenários e até 77% em cenários de emissões mais altas.
Isso não significa que toda essa área desapareceria de uma vez. O estudo trata de risco de perda de estabilidade e de transições comprometidas, processos que podem levar décadas ou até séculos para se consolidar depois que certos limites são ultrapassados.
Reação em cadeia pode se espalhar por centenas ou milhares de quilômetros
Um dos alertas mais fortes do trabalho está nas chamadas transições em cascata. Elas ocorrem quando a degradação de uma área reduz a umidade enviada para outra, que também se torna mais seca e passa a afetar regiões seguintes.
Segundo os autores, a maioria das transições simuladas é causada por efeitos indiretos do aumento da seca, com cascatas de longo alcance e autossustentáveis. Ou seja, o impacto do desmatamento pode ultrapassar a área diretamente derrubada e atingir partes distantes da Amazônia.
Localização do desmatamento também pesa no risco
O estudo destaca que não importa apenas quanto se desmata, mas onde o desmatamento ocorre. A perda de floresta em áreas estratégicas pode interromper rotas de umidade que seguem a direção predominante dos ventos e alimentam outras regiões da bacia.
Por isso, manter a derrubada restrita aos níveis atuais ou próximos deles aparece nas simulações como condição que evita uma transição em larga escala. Já cenários com avanço severo da perda florestal aumentam o risco de cascatas em áreas conectadas pela circulação de umidade.
Amazônia recicla umidade e ajuda a regular o clima regional
A floresta amazônica não depende apenas da chuva que chega de fora. Parte relevante da precipitação é reciclada dentro da bacia, em um processo no qual as árvores funcionam como peças de um sistema climático integrado.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que o desmatamento preocupa cientistas. Quando uma área perde cobertura florestal, ela não afeta apenas o solo local: pode reduzir a evapotranspiração, alterar o início da estação chuvosa e enfraquecer a umidade disponível para áreas a jusante.
Risco não é inevitável, mas depende de corte nas emissões e na derrubada

Os autores afirmam que as transições na Amazônia não são inevitáveis. O estudo reforça que limitar o aquecimento global abaixo de 1,5 °C, interromper o desmatamento e restaurar florestas degradadas são medidas centrais para reduzir o risco de uma mudança sistêmica.
A restauração aparece como parte importante da resposta porque pode ajudar a recuperar a reciclagem de umidade. Ainda assim, os pesquisadores destacam que florestas primárias têm funções ecológicas e biodiversidade que não são plenamente substituídas por áreas regeneradas.
Impacto pode ir além da floresta amazônica
O estudo também alerta que mudanças na Amazônia podem afetar regiões fora da bacia. A interrupção do transporte de umidade atmosférica pode ter reflexos em áreas agrícolas do sul do Brasil, Bolívia, Paraguai e até na bacia do Rio da Prata, na Argentina.
Isso amplia o peso do debate. A perda de estabilidade da Amazônia não seria apenas uma questão ambiental local, mas um problema climático, hídrico, agrícola e econômico para regiões que dependem direta ou indiretamente da umidade gerada pela floresta.
Desmatamento muda o limite de segurança da Amazônia
A principal mensagem do estudo é que o desmatamento reduz a margem de segurança da Amazônia diante do aquecimento global. Sem a perda de árvores, o risco crítico aparece em níveis mais altos de aquecimento; com a derrubada, esse limite pode cair para uma faixa muito mais próxima da meta climática internacional.
Agora fica a pergunta: o mundo está tratando a Amazônia como peça central do clima ou ainda vê a floresta apenas como uma área distante de conservação? Você acha que zerar o desmatamento e restaurar áreas degradadas ainda pode evitar uma reação em cadeia na floresta? Comente sua opinião.

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