Profissão histórica dos calçadores resiste em Lisboa com salários baixos, poucos aprendizes e críticas de moradores, enquanto cadeirantes apontam quedas nas calçadas portuguesas e a cidade tenta conciliar preservação como patrimônio da UNESCO com acessibilidade segura para idosos, turistas e moradores com mobilidade reduzida em ruas inclinadas, estreitas e movimentadas.
As calçadas de pedra branca e preta que desenham ondas e figuras no chão de Lisboa são mais do que paisagem: sustentam uma Profissão histórica que hoje corre risco de desaparecer. Há décadas moradores relatam escorregões, quedas e cadeiras de rodas presas nas pedras, e recentemente a calçada portuguesa se tornou candidata a Patrimônio Cultural da UNESCO, reacendendo o debate entre preservação e acessibilidade.
De acordo com a reportagem DW Brasil, entre essas pedras trabalha Vítor, 58 anos, um dos poucos calçadores ainda em atividade na capital. Há 10 anos ele trocou a rotina de peixeiro e dono de restaurante pelo ofício aprendido em um centro de formação, e nossa reportagem percorreu as ruas com ele e com moradores para entender se a calçada portuguesa ainda cabe na Lisboa de hoje.
Arte no chão, tropeços na vida real

As calçadas desenhadas com pequenas pedras de calcário e basalto se tornaram marca registrada de Portugal e cartão-postal conhecido de muitos brasileiros. São mosaicos elaborados, feitos à mão, que transformam o chão em pintura.
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Mas caminhar sobre essas pedras pode ser desconfortável e até perigoso, especialmente quando estão gastas, soltas ou mal assentadas.
Diogo Martins sabe disso todos os dias. Cadeirante, ele descreve o esforço para se manter na calçada quando as rodas deslizam sobre as pedras lisas.
Em vários trechos, é obrigado a descer para a rua, disputando espaço com carros e ônibus. Em determinados pontos, conta que chegou a perder completamente o controle da cadeira de rodas, precisando da ajuda de outras pessoas para não cair.
Em um episódio mais grave, a cadeira acabou quebrando depois de um desses trancos.
Para Diogo e para outros moradores com mobilidade reduzida, a beleza dos mosaicos muitas vezes não compensa o risco. Eles associam a calçada portuguesa a quedas, torções e ao medo constante de se machucar em um simples trajeto de casa ao trabalho.
Profissão histórica pressionada por baixos salários
Do outro lado dessa experiência está Vítor, que se apresenta com orgulho: “Sou calçador”. Ele aprendeu o ofício há uma década em um centro de formação e hoje é um dos poucos profissionais que ainda atuam em Lisboa.
Seu trabalho, nesta reportagem, era registrar com pedras no chão o ano de consagração de uma igreja, compondo um desenho que mistura devoção, memória e técnica.
A rotina, porém, é dura. A remuneração costuma ser calculada por área assentada. Quanto mais metros quadrados o calçador faz em um dia, mais recebe. Isso empurra uma Profissão histórica para um modelo de trabalho acelerado e precarizado, em que o profissional é tentado a fazer tudo correndo para conseguir pagar as contas.
O professor Nuno Serra, do mesmo centro onde Vítor se formou, explica que a qualidade do calçamento vem caindo justamente por causa dessas condições de trabalho.
Se o pagamento é baixo e o critério é apenas quantidade, o resultado aparece no chão: pedras mal encaixadas, desníveis, buracos e trechos que se soltam com facilidade. Críticas à calçada portuguesa, segundo ele, estão diretamente ligadas ao baixo valor pago aos calçadores e à falta de tempo para fazer um serviço cuidadoso.
Ao mesmo tempo, o número de aprendizes diminui. Com pouco dinheiro, pouca segurança e pouco reconhecimento, torna-se difícil convencer jovens a entrar nessa Profissão histórica, que exige esforço físico intenso, atenção a detalhes e anos de prática para dominar a técnica dos mosaicos.
Turismo, tradição e a corrida pela UNESCO
Apesar das queixas, a calçada portuguesa continua a ser um dos símbolos mais fotografados do país. Em Lisboa, mosaicos com desenhos de caravela, rosa-dos-ventos e padrões geométricos viraram atração turística. A administração pública enxerga nisso um ativo cultural e econômico e, por isso, quer preservar o máximo possível dessas superfícies.
Recentemente, a calçada portuguesa passou a concorrer ao título de Patrimônio Cultural da UNESCO. Seus defensores acreditam que esse selo pode transformar a percepção sobre a técnica, reforçando a ideia de que não se trata apenas de “pedras soltas”, mas de um saber artesanal que merece investimento, planejamento e manutenção de qualidade.
A expectativa é que a candidatura fortaleça a formação de novos calçadores, traga mais recursos e pressione por padrões mais rígidos de segurança.
Para quem vive do ofício, como Vítor, o reconhecimento internacional seria uma forma de melhorar tanto a imagem quanto as condições do trabalho.
Ele acredita que, se houver mais respeito institucional pela calçada portuguesa, haverá também mais fiscalização, mais treinamento e mais cuidado com o que é feito nas ruas.
Quando o patrimônio encontra a acessibilidade
O entusiasmo com a preservação, no entanto, não é unânime. Mário Alves, da Federação Internacional de Pedestres, e Diogo, o cadeirante, defendem que as pedras em relevo não combinam com uma cidade moderna e verdadeiramente acessível.
Para eles, o problema é conhecido há muito tempo: as calçadas portuguesas são escorregadias, irregulares e perigosas, principalmente em dias de chuva.
Lisboa tem uma população muito idosa, o que agrava o risco. Uma queda que resulta em fratura de perna ou quadril pode significar meses de internação, perda de autonomia e até encurtar a expectativa de vida.
Para esses críticos, insistir em mosaicos em todos os bairros significa aceitar que parte da população viverá permanentemente em modo de atenção máxima para não sofrer um acidente.
Mário Alves chama atenção para outro dado importante: em 98% da cidade as calçadas são comuns, sem grande valor artístico ou histórico. Nesse imenso percentual de ruas, as pedras são apenas revestimento funcional, não um monumento.
Ele argumenta que apenas os trechos com mérito artístico e relevância patrimonial deveriam ser preservados como estão, com mosaicos cuidadosamente mantidos.
Ao concentrar esforços onde realmente existe patrimônio, diz ele, seria possível liberar a maior parte da cidade para soluções mais planas, regulares e seguras, como pisos contínuos adaptados a idosos, pessoas com deficiência e carrinhos de bebê.
Na visão de Mário e Diogo, isso permitiria resultados muito melhores do que tentar manter calçadas artesanais em todos os lugares, muitas vezes sem o cuidado necessário.
Um futuro possível para a profissão histórica dos calçadores
Curiosamente, o próprio Vítor não se opõe à ideia de limitar a calçada portuguesa a certas áreas. Ele concorda que bairros novos, com grande circulação e necessidade urgente de acessibilidade, podem adotar outros tipos de pavimento.
O que ele não aceita é ver a Profissão histórica dos calçadores desaparecer por completo.
Vítor fala do ofício como quem fala de um grande amor. Ele lembra que a admiração começou pequena, ao observar os desenhos no chão, e foi crescendo até se tornar um projeto de vida.
Hoje ele não quer fazer mais nada além de calçar. Imagina, daqui a 30 anos, uma cidade com mais calçadores qualificados, melhor remuneração e calçadas de maior qualidade, tanto nas áreas turísticas quanto nos pontos em que a arte realmente faz sentido.
Na visão dele, Lisboa pode ser ao mesmo tempo moderna e fiel às suas tradições. A solução, acredita, está em combinar pavimentos seguros e planos nas zonas de maior circulação com trechos de calçada portuguesa bem executada, onde o mosaico é de fato patrimônio artístico e cultural.
Nesse cenário, a cidade preservaria sua identidade, sem sacrificar a mobilidade de quem mais precisa de um piso estável.
Para Vítor, o sonho é simples e ambicioso ao mesmo tempo: manter viva a profissão histórica dos calçadores, com mais respeito, formação e reconhecimento, ao mesmo tempo em que ninguém precise escolher entre admirar a beleza do chão e chegar em casa inteiro depois de uma caminhada.
E você, se pudesse decidir na sua rua, preferiria manter a calçada portuguesa como está ou trocá-la por um piso mais plano e seguro para todos?


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