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Povos indígenas dos Andes surpreendem cientistas ao revelar adaptação genética rara ligada ao consumo de batatas há 10 mil anos, uma descoberta que pode mudar o que sabemos sobre evolução, alimentação e sobrevivência humana

Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 09/06/2026 às 18:21
Atualizado em 09/06/2026 às 18:23
Povos indígenas dos Andes trabalhando em cultivo tradicional de batatas em região montanhosa do Peru.
Estudo aponta que povos indígenas dos Andes desenvolveram adaptação genética ligada à digestão de alimentos ricos em amido após milhares de anos consumindo batatas.
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Nova pesquisa mostra que a domesticação da batata não apenas transformou a alimentação nas regiões andinas, mas também influenciou diretamente a evolução genética de populações indígenas, criando uma das adaptações humanas mais impressionantes já registradas pela ciência moderna.

A relação entre alimentação e evolução humana ganhou um novo capítulo fascinante. Um estudo publicado em 5 de maio de 2026 na revista científica Nature Communications revelou que povos indígenas dos Andes, especialmente no Peru, desenvolveram uma adaptação genética extraordinária após milhares de anos consumindo batatas como parte fundamental de sua dieta.

Segundo informações divulgadas pela revista científica Nature Communications e repercutidas pelo portal Live Science, a descoberta mostra que essas populações possuem mais cópias de um gene responsável pela produção da amilase salivar, enzima essencial para a digestão do amido. A pesquisa sugere que essa característica foi favorecida pela seleção natural ao longo de aproximadamente 10 mil anos, desde a domesticação da batata na região andina.

A descoberta oferece uma nova perspectiva sobre como hábitos alimentares podem influenciar profundamente a biologia humana, moldando características genéticas capazes de aumentar as chances de sobrevivência e reprodução ao longo das gerações.

A batata pode ter moldado a evolução dos povos andinos

Mulheres indígenas andinas com vestimentas tradicionais caminham por trilha de montanha nos Andes peruanos.
Mulheres indígenas andinas percorrem uma trilha em região montanhosa do Peru, retratando tradições preservadas ao longo de gerações.

A batata é considerada uma das mais importantes contribuições agrícolas da América para o mundo. No entanto, sua influência pode ter ido muito além da alimentação.

Os pesquisadores identificaram que os indígenas andinos do Peru apresentam, em média, 10 cópias do gene responsável pela produção da amilase salivar. Em comparação, a média mundial é de apenas sete cópias.

A amilase atua já na boca, iniciando o processo de quebra do amido em açúcares simples. Quanto maior o número de cópias desse gene, maior tende a ser a produção da enzima e, consequentemente, mais eficiente pode ser a digestão de alimentos ricos em amido.

De acordo com o estudo, indivíduos que possuíam um número maior dessas cópias genéticas apresentavam uma vantagem adaptativa significativa. Os dados indicam que pessoas com mais genes de amilase tiveram 1,24% mais chances de sobreviver e deixar descendentes em comparação com aquelas que possuíam menos cópias.

Embora o percentual pareça pequeno à primeira vista, os cientistas afirmam que o impacto acumulado ao longo de milhares de anos é enorme.

O professor Omer Gokcumen, da Universidade de Buffalo e um dos autores da pesquisa, classificou essa vantagem como “incrivelmente alta” em termos evolutivos. Segundo ele, pequenas diferenças de sobrevivência e reprodução podem transformar completamente a composição genética de uma população quando repetidas geração após geração.

Cientistas analisaram milhares de pessoas em 85 populações

Para compreender a origem dessa adaptação genética, os pesquisadores realizaram um amplo levantamento envolvendo dados genômicos de 3.723 indivíduos pertencentes a 85 populações espalhadas pelo mundo.

O objetivo era mapear a quantidade de cópias do gene da amilase salivar e identificar possíveis sinais de seleção natural.

Os resultados mostraram que os indígenas andinos do Peru apresentaram alguns dos maiores números já registrados. Outro grupo que chamou a atenção dos cientistas foi o povo Akimel O’odham, localizado no sul do Arizona e norte do México, que também apresentou alta quantidade de cópias do gene.

Entretanto, os pesquisadores destacam que não havia amostras suficientes desse grupo para confirmar se o mesmo processo evolutivo ocorreu da mesma forma observada entre os povos andinos.

As análises indicam que a pressão seletiva relacionada ao consumo de alimentos ricos em amido começou a se intensificar há cerca de 10.000 anos, período que coincide com a domesticação das primeiras variedades de batata na região dos Andes.

Além disso, estudos anteriores já haviam identificado sinais de adaptação genética relacionados à digestão intestinal do amido em populações indígenas sul-americanas, reforçando a importância desse alimento na história evolutiva da região.

O que essa descoberta revela sobre a evolução humana

Apesar dos resultados impressionantes, os cientistas ainda buscam compreender exatamente quais vantagens biológicas são proporcionadas pelo aumento das cópias do gene da amilase.

Uma das hipóteses é que indivíduos com maior produção da enzima consigam extrair mais energia dos alimentos ricos em amido, aumentando a disponibilidade de calorias em ambientes desafiadores.

Outra possibilidade envolve interações com o microbioma intestinal, o metabolismo energético e até mesmo o sistema imunológico.

Segundo os pesquisadores, novas investigações já estão em andamento para esclarecer esses mecanismos.

Para especialistas da área, a descoberta representa um dos exemplos mais claros de como fatores culturais, alimentares e ambientais podem atuar diretamente na evolução genética humana.

O geneticista Charles Lee, do The Jackson Laboratory for Genomic Medicine, que não participou do estudo, afirmou que a pesquisa é uma das evidências mais relevantes já encontradas sobre a influência da dieta na estrutura genética das populações humanas.

Ele também destacou que outras populações indígenas das Américas podem ter desenvolvido adaptações semelhantes por caminhos evolutivos diferentes, dependendo dos alimentos predominantes em suas regiões.

Conforme publicado pelo portal Live Science, os cientistas acreditam que a variação no número de cópias do gene da amilase provavelmente representa apenas uma entre várias adaptações estruturais do DNA humano ainda pouco compreendidas.

A descoberta reforça que a evolução continua sendo um processo profundamente conectado ao modo de vida das populações. No caso dos povos indígenas dos Andes, a simples domesticação da batata pode ter desencadeado uma transformação genética capaz de atravessar milênios e deixar marcas visíveis até os dias atuais.

Fonte da notícia: Live Science.

Referência científica: Scheer, K., Landau, L. J. B., Jorgensen, K., Karageorgiou, C., Siao, L., Alkan, C., Rivera, A. M. M., Osborne, C., Garcia, O. A., Pearson, L., Kiyamu, M., Rivera-Ch, M., León-Velarde, F., Lee, F. S., Brutsaert, T., Bigham, A. W., & Gokcumen, O. (2026). Rapid adaptive increase of amylase gene copy number in Indigenous Andeans. Nature Communications, 17(1). DOI: 10.1038/s41467-026-71450-8.

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Felipe Alves da Silva

Sou Felipe Alves, com experiência na produção de conteúdo sobre segurança nacional, geopolítica, tecnologia e temas estratégicos que impactam diretamente o cenário contemporâneo. Ao longo da minha trajetória, busco oferecer análises claras, confiáveis e atualizadas, voltadas a especialistas, entusiastas e profissionais da área de segurança e geopolítica. Meu compromisso é contribuir para uma compreensão acessível e qualificada dos desafios e transformações no campo estratégico global. Sugestões de pauta, dúvidas ou contato institucional: fa06279@gmail.com

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