Gérmen de trigo concentra espermidina, composto ligado à longevidade e saúde celular, revela estudo com redução de mortalidade em até 20 anos
Durante boa parte do século XX, a refinação do trigo foi tratada como avanço industrial, permitindo farinha mais branca, pão mais macio e maior tempo de prateleira. No entanto, esse processo remove duas das três partes do grão: o farelo e o gérmen de trigo. Segundo pesquisadores da Universidade de Graz, na Áustria, conforme descrito em estudos recentes sobre nutrição e envelhecimento, o gérmen de trigo descartado concentra a maior quantidade alimentar conhecida de espermidina, com níveis entre 150 e 243 mg por kg, composto que vem sendo associado a processos celulares fundamentais ligados à longevidade.
Essa descoberta reposiciona um subproduto amplamente ignorado pela indústria alimentícia como um dos elementos mais estudados na ciência do envelhecimento nos últimos anos.
O que é espermidina: composto bioquímico ligado à autofagia e envelhecimento celular
A espermidina é uma poliamina, uma molécula orgânica produzida naturalmente pelo organismo a partir de aminoácidos. Seu nome remonta ao século XVII, quando foi identificada pela primeira vez no esperma humano, permanecendo por séculos como um composto secundário na bioquímica.
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A mudança de relevância ocorreu nos anos 2000, quando o laboratório de Frank Madeo, na Universidade de Graz, demonstrou que a espermidina poderia prolongar a vida de leveduras em laboratório. O mecanismo central identificado foi a autofagia, processo celular responsável pela remoção de estruturas danificadas.
A autofagia funciona como um sistema interno de reciclagem celular, eliminando proteínas defeituosas e organelas comprometidas, o que reduz inflamação e estresse oxidativo — fatores diretamente associados ao envelhecimento.
Autofagia e longevidade: como a espermidina atua na limpeza celular
A autofagia é um dos mecanismos mais críticos para manutenção da saúde celular. Com o avanço da idade, esse processo perde eficiência, levando ao acúmulo de resíduos celulares.
A espermidina atua diretamente na ativação desse sistema. Estudos mostram que seus níveis no organismo diminuem com o envelhecimento, exatamente quando a necessidade de manutenção celular aumenta.
Essa relação entre queda de espermidina e falha na autofagia coloca o composto no centro das pesquisas sobre envelhecimento saudável, sendo frequentemente comparado a efeitos observados em restrição calórica.
Estudo de Bruneck: consumo de espermidina associado à redução da mortalidade
Em 2018, pesquisadores das Universidades de Innsbruck, Cambridge e Graz publicaram no American Journal of Clinical Nutrition os resultados do Estudo de Bruneck, que acompanhou 829 adultos ao longo de 20 anos.
Os participantes foram divididos em três grupos com base na ingestão de espermidina. Os resultados mostraram queda progressiva na taxa de mortalidade:
- 40,5 mortes por mil pessoas-ano no grupo de menor consumo
- 23,7 no grupo intermediário
- 15,1 no grupo de maior ingestão
Isso representa uma diferença equivalente a 5,7 anos a menos na idade biológica no grupo com maior consumo, após ajustes por fatores como idade, sexo e estilo de vida.
Entre 146 nutrientes analisados, a espermidina apresentou a associação mais forte com menor mortalidade, superando vitamina C, fibras e ômega-3.
Jejum intermitente e espermidina: descoberta de 2024 explica mecanismo molecular
Em 2024, um estudo publicado na Nature Cell Biology trouxe uma descoberta relevante: o jejum intermitente aumenta os níveis intracelulares de espermidina.
Esse aumento desencadeia a ativação da autofagia, explicando os efeitos benéficos do jejum em diferentes organismos, incluindo humanos.
Quando a produção de espermidina foi bloqueada em laboratório, os efeitos positivos do jejum desapareceram. Isso indica que a espermidina é o elo bioquímico central entre jejum e benefícios metabólicos, incluindo redução de inflamação e proteção cardiovascular.
Espermidina e saúde do cérebro: estudos sobre memória e declínio cognitivo
A pesquisa sobre espermidina também avançou na área neurológica. Estudos em modelos animais mostraram melhora na memória associada à remoção de proteínas acumuladas nas sinapses.
Ensaios clínicos em humanos trouxeram resultados mistos. Em 2019, um estudo com adultos mais velhos indicou melhora moderada na memória após suplementação. Em 2022, um ensaio maior não encontrou diferenças estatísticas significativas em todos os marcadores.

Em 2025, um estudo austríaco apontou melhora cognitiva em 42% dos participantes com demência leve a moderada.
Apesar das limitações, os dados indicam um potencial consistente da espermidina na preservação da função cognitiva, ainda em fase de investigação.
Alimentos ricos em espermidina: gérmen de trigo lidera concentração
O gérmen de trigo é a principal fonte alimentar de espermidina. Uma colher de sopa contém cerca de 1,2 a 1,5 mg do composto.
Outras fontes incluem:
- Natto e tempeh
- Cogumelos como shiitake e maitake
- Queijos envelhecidos
- Leguminosas e vegetais crucíferos
A diferença é que o gérmen de trigo concentra níveis significativamente superiores, mas raramente é consumido devido ao processo de refinação do trigo.
Biodisponibilidade e limitações: o que a ciência ainda investiga sobre a espermidina
Apesar dos avanços, ainda existem lacunas importantes. Não está totalmente claro quanto da espermidina ingerida chega efetivamente ao cérebro.
Estudos indicam que o composto pode atravessar a barreira hematoencefálica em animais, mas evidências em humanos ainda são limitadas.
Além disso, o organismo regula rigidamente os níveis de espermidina, o que pode limitar o impacto da suplementação em altas doses.
A remoção do gérmen de trigo durante a industrialização resultou em perda significativa de nutrientes. O foco em textura, durabilidade e aparência levou ao descarte de uma das partes mais nutritivas do grão. Esse processo transformou um alimento funcional em subproduto, frequentemente direcionado à ração animal ou descartado.
Segurança e regulamentação da espermidina como suplemento alimentar
A espermidina derivada do gérmen de trigo foi reconhecida pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos como “Novel Food”, permitindo sua comercialização como suplemento na Europa.
No entanto, a suplementação deve ser acompanhada por profissionais de saúde, especialmente em indivíduos com histórico de câncer, devido à relação ainda em estudo entre poliaminas e proliferação celular.
A pesquisa sobre espermidina mostra que um componente amplamente descartado pela indústria pode desempenhar papel relevante na saúde celular e no envelhecimento.
O gérmen de trigo, historicamente removido para melhorar características comerciais dos alimentos, emerge como uma das fontes naturais mais ricas de um composto associado à longevidade, reforçando a importância do consumo de alimentos integrais.
Enquanto novas pesquisas avançam, a evidência atual já reposiciona esse subproduto como um elemento central na nutrição funcional moderna.

