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Portugal trava batalha contra o avanço do mar que engole casas, destrói dunas, ameaça restaurantes e pesca, enquanto mais de 1 bilhão em obras de emergência falha em salvar vilas litorâneas da catástrofe do século

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 11/12/2025 às 11:08
Assista o vídeoPortugal enfrenta o avanço do mar e a erosão costeira na costa atlântica de Portugal, ameaça vilas litorâneas e afunda a pesca costeira.
Portugal enfrenta o avanço do mar e a erosão costeira na costa atlântica de Portugal, ameaça vilas litorâneas e afunda a pesca costeira.
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Tempestades de inverno mais fortes e o avanço do mar aceleram a erosão na costa atlântica de Portugal, engolem praias e dunas, colocam em risco casas, restaurantes, pesca e turismo, enquanto obras bilionárias de alargamento de areia e muros ainda falham em proteger vilas inteiras na chamada catástrofe do século

Na costa atlântica de Portugal, o avanço do mar deixou de ser projeção distante e já derrubou casas, destruiu dunas e encurtou praias em localidades como Torreira, Esmoriz, Apúlia, Furadouro e Caparica, obrigando reassentamentos de famílias e operações de emergência a cada inverno com marés mais altas e tempestades mais intensas.

Entre 1958 e 2018, o país perdeu cerca de 13 quilômetros quadrados de costa e, nos últimos dez anos, investiu mais de 1 bilhão de euros em alargamento de faixas de areia, muros de proteção e geocilindros, numa corrida cara para atrasar um processo de erosão costeira que especialistas já descrevem como uma catástrofe do século para o território, a economia local e o modo de vida português.

Tempestades mais fortes e erosão ao longo de 900 quilômetros de costa

Portugal enfrenta o avanço do mar e a erosão costeira na costa atlântica de Portugal, ameaça vilas litorâneas e afunda a pesca costeira.

Com quase 900 quilômetros de litoral atlântico, Portugal vive uma relação histórica com o oceano que hoje está em desequilíbrio.

Cada inverno traz tempestades mais fortes, marés mais altas e ondulações mais agressivas, que avançam sobre calçadões, casas à beira-mar e estruturas de lazer.

A cada ano, autoridades recorrem a obras milionárias para tentar conter o avanço do mar e ganhar tempo: reforço de muros, construção de barreiras rígidas, alargamento de faixas de areia com sedimentos dragados do fundo do mar e intervenções pontuais em trechos críticos.

Mesmo assim, fileiras inteiras de casas já foram engolidas e trechos de praias praticamente desapareceram.

Três quartos da população portuguesa vivem próximos ao litoral.

A pergunta que se impõe para muitas comunidades é direta: o que fazer quando o mar deixa de ser paisagem e passa a ser ameaça física diária, com água batendo em paredes, vibrando estruturas e tornando rotas de fuga praticamente inviáveis em noites de tempestade.

Pesca costeira sob pressão em Torreira e Esmoriz

Portugal enfrenta o avanço do mar e a erosão costeira na costa atlântica de Portugal, ameaça vilas litorâneas e afunda a pesca costeira.

Na região de Aveiro, o pescador Vítor Cachoeira simboliza a pressão sobre a pesca costeira tradicional.

A bordo do barco Maria de Fátima, ele relata décadas de vida no mar, movido mais pela paixão do que pela renda, hoje cada vez mais apertada.

A captura, que já foi razoável, se tornou escassa.

Depois de horas de trabalho, redes que antes voltavam cheias agora trazem apenas algumas cavalinhas, sardinhas e poucas douradas.

Pequenos pescadores mal conseguem se sustentar com o que capturam e passam a depender de ajudas sociais e subsídios, enquanto o avanço do mar encurta as praias e dificulta até o simples ato de puxar os barcos para a areia.

Em Esmoriz, onde Vítor vive, a situação é ainda mais crítica.

Em maré cheia, o mar chega às pedras e impede até estender uma toalha na praia.

A pesca está à beira da extinção em alguns trechos, não apenas pela queda do peixe, mas porque a própria faixa de areia onde se operava o cotidiano da faina foi quase apagada pelas marés de inverno.

Dunas em colapso e vilas encurraladas em Apúlia

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Mais ao norte, em Apúlia, o pescador Adriano Ribeiro enfrenta a erosão em outro flanco: as dunas de areia que historicamente protegiam a vila.

Ele relata que, em poucas décadas, a duna recuou vários metros e ganhou altura, deixando evidente o recorte de areia arrancada pelo avanço do mar e projetada para dentro do sistema costeiro.

Moradores tentam, há anos, segurar a linha de defesa com sacos de areia e estacas de madeira. O esforço comunitário não é suficiente.

Casas passam a ser atingidas pela maré alta, especialmente no inverno, e a sensação relatada é de abandono.

Cientistas e moradores convergem em um ponto: em alguns trechos, a única estratégia viável pode ser recuar para o interior.

Adriano critica um esporão construído ao largo, que, segundo ele, alterou as correntes e agravou a erosão na zona.

Sua proposta é remover essa estrutura e recuperar as dunas como barreira natural.

Enquanto medidas estruturais não chegam, a percepção na comunidade é de que a costa está sendo sacrificada centímetro a centímetro, sem resposta proporcional do poder público.

Restaurantes sob risco e empregos em jogo na faixa costeira

Na mesma Apúlia, cerca de 30 restaurantes de frutos do mar ficam alinhados atrás das dunas, junto à estrada costeira.

O restaurante A Cabana, abastecido por Adriano várias vezes por semana, resume o dilema de uma economia local inteira que depende da gastronomia e do turismo.

O mar já ameaça engolir essa zona de restaurantes, e circulam rumores de demolições por razões de segurança.

Estimativas locais indicam impacto direto sobre 80 a 100 postos de trabalho e outros 300 empregos indiretos ligados a padarias, pesca e agricultura.

Para proprietários como Abel Vieira, seria o colapso de uma cadeia produtiva que se apoia no mar, mas agora é por ele ameaçada.

Abel defende a criação de uma nova área gastronômica recuada, em terreno baldio mais distante da linha de costa, com construções mais altas e ainda com vista para o mar.

Ele aponta o local, vê um projeto viável e afirma que todos ganhariam se a prefeitura assumisse esse plano.

No entanto, a expectativa real no curto prazo recai mais sobre demolições e perda de meios de subsistência do que sobre reconstrução planejada.

Surf ameaçado e turismo em risco no Furadouro

No Furadouro, antigo ponto de referência para surf, a realidade também mudou.

Onde havia areia e dunas, hoje predominam grandes blocos de granito instalados para proteger a cidade.

João Paulo, que administra uma escola de surf, depende do turismo e da qualidade das ondas, mas vê o cenário se deteriorar ano após ano.

Ele ainda consegue manter uma turma de cerca de vinte jovens aos fins de semana, deslocando as aulas para um trecho em que a faixa de areia permanece mais larga, a aproximadamente um quilômetro do centro.

Isso implica transportar equipamento por distâncias crescentes, à medida que o avanço do mar encurta os acessos tradicionais e torna a logística diária mais pesada.

João relata que o que era uma praia muito procurada para surf deixa de ser referência, enquanto visitantes migram para outros destinos.

A combinação de erosão, blocos rígidos e alteração do fundo afeta a qualidade das ondas.

O impacto é econômico, mas também simbólico: perde-se um pedaço da identidade local ligada à água e ao esporte.

Lisboa investe em obras caras para conter o avanço do mar

Em Lisboa, a responsabilidade pela erosão costeira recai sobre o governo central.

A então secretária de Estado Inês Costa classifica a proteção da costa como o maior desafio da política ambiental portuguesa e reconhece que medidas puramente estruturais ou de engenharia não conseguem defender todos os pontos do litoral.

Nos últimos dez anos, mais de 1 bilhão de euros foram gastos na proteção de cidades e praias litorâneas, com foco em alargamento de faixas de areia e infraestruturas de defesa.

Uma das soluções mais caras é sugar areia do fundo do mar e despejá-la novamente nas praias por meio de tubos gigantes, em operações que consomem centenas de milhares de euros apenas em diesel.

Na região central, obras de recarga artificial de sedimentos movimentam cerca de 1 milhão de metros cúbicos de areia em uma etapa e preveem reabastecimentos futuros de até 3 milhões de metros cúbicos.

Geocilindros dispostos ao longo de 300 metros, em três níveis, formam uma espécie de esqueleto submerso que, segundo engenheiros locais, ajuda a reter a areia e reduzir o impacto direto das ondas.

Reassentamentos e novas casas longe da linha de ataque do mar

Enquanto máquinas trabalham na linha de costa, o avanço do mar força mudanças profundas na malha urbana.

Em Esmoriz, o pescador Vítor também atua como mediador político entre prefeitura e moradores afetados.

Uma das famílias que viveram a transição é a de Carla Santos, antes instalada logo atrás de um muro à beira-mar.

Carla relata que o mar batia com tanta força na parede de casa que o imóvel tremia. Fugir com os filhos em caso de invasão repentina do mar parecia praticamente impossível.

A solução veio na forma de um assentamento recém construído, a cerca de 300 metros para o interior, financiado com verbas municipais após promessa não concretizada de apoio do governo central.

Na nova casa, Carla descreve mudanças básicas que representam um salto de dignidade: quartos separados para os filhos, banheiro com chuveiro, telhado que não pinga.

Os reassentamentos mostram que, em alguns casos, a resposta ao avanço do mar não é erguer mais muros, mas retirar pessoas de zonas de risco, o que exige planejamento social complexo e recursos consistentes.

Campanhas locais e disputa por projetos de proteção costeira

Na fase final de uma campanha eleitoral local em Esmoriz, Vítor atua como vereador voluntário pelos social-democratas e coloca a erosão costeira no centro do debate.

Ele busca votos entre moradores realocados para conjuntos habitacionais, lembrando que muitos viviam em constante sobressalto durante o inverno, quando o mar galgava dunas e muros com facilidade.

Para a prefeitura, avançar com recursos próprios, sem esperar integralmente por verbas nacionais, foi decisivo para tirar famílias dos pontos mais vulneráveis.

O assentamento Boa Esperança materializa essa estratégia. Ainda assim, nem todos acreditam que a construção de novas casas seja solução definitiva, já que o avanço do mar pode continuar pressionando outras áreas da cidade ao longo das próximas décadas.

Planos alternativos em Apúlia e frustração com o poder central

Em Apúlia, o ambiente é mais pessimista. Chegaram notícias de que o governo em Lisboa considera a demolição dos restaurantes nas dunas, com o argumento de permitir a recuperação gradual da paisagem natural.

Para o pescador Adriano, a medida significaria perder cabanas, restaurantes e postos de trabalho sem garantir proteção efetiva.

Ele elaborou, com apoio de um arquiteto, um plano alternativo para redesenhar a defesa costeira e reduzir a força das ondas antes de atingirem a linha de costa.

Adriano mostra mapas, explica que a ideia seria reproduzir o efeito de pedras naturais que dissipam energia e insiste que sua proposta poderia ser boa para pescadores, dunas e moradores.

A frustração aparece na comparação com outras zonas da costa que, segundo ele, recebem mais atenção e investimento.

Adriano afirma que ouve promessas há cinquenta anos, sem ver mudanças consistentes em sua comunidade, e questiona por que alguns trechos são defendidos enquanto outros parecem condenados a perder a luta contra a natureza.

Catástrofe do século e o dilema entre defender e recuar

Na Praia de Caparica, próxima a Lisboa, medidas de segurança foram intensificadas, mas a mensagem de Inês Costa é clara: o nível do mar continuará subindo como um dos impactos das alterações climáticas.

Portugal já perdeu cerca de 13 quilômetros quadrados de costa em seis décadas, e um quarto do litoral está afetado pela erosão costeira.

Professores, surfistas e moradores observam calçadões danificados, cafés destruídos por ondas isoladas e pedras de muros lançadas dezenas de metros para o interior.

Em aulas ao ar livre, o professor de surf João mostra aos alunos dunas secundárias desaparecidas, vegetação arrancada e trechos em que a reposição de areia, apesar de custar milhões de euros, não impediu a entrada do mar pela terra.

Especialistas classificam o processo em curso como ameaça existencial para a costa de Portugal, com impacto direto sobre cidades, vilas de pescadores, turismo e identidade cultural ligada ao Atlântico.

Entre defender tudo com obras de alto custo e recuar de maneira planejada, o país é empurrado a escolhas difíceis que definirão quais comunidades permanecerão à beira-mar nas próximas décadas.

Na sua opinião, Portugal deve continuar investindo bilhões em obras para conter o avanço do mar em todas as frentes ou aceitar recuos planejados e abandonar alguns trechos da costa à força do oceano?

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Bruno Teles

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