Pesquisas da Fiocruz e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres revelam que o aumento de 1°C pode elevar em até 22% o risco de vida infantil
O avanço das mudanças climáticas e da poluição atmosférica está colocando em alerta autoridades de saúde pública e pesquisadores em todo o mundo.
Dois estudos recentes — conduzidos pela Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres em parceria com a Fiocruz Bahia e pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) — apontam que crianças e idosos são os mais afetados pelos efeitos combinados do calor extremo e da poluição ambiental.
As projeções indicam que, até 2055, as mortes associadas a fatores climáticos podem quase dobrar se as emissões globais não forem controladas.
Efeitos do calor e da poluição na infância
Segundo o levantamento publicado em março de 2024, o aumento de apenas 1 °C nas temperaturas médias já é suficiente para elevar em 22 % o risco de morte entre crianças menores de cinco anos.
Isso ocorre porque os pequenos têm menor capacidade de regular a temperatura corporal e apresentam maior propensão à desidratação e à anemia.
Além disso, sofrem impactos diretos na nutrição e no desenvolvimento cognitivo.
O pediatra Renato Kfouri, consultor da Sociedade Brasileira de Pediatria, explica que, em períodos de calor intenso, as crianças absorvem menos líquidos e nutrientes.
Essa condição amplifica o risco de desnutrição e atraso de crescimento.
Esses efeitos, somados à insegurança alimentar e à poluição atmosférica, criam um cenário preocupante para a saúde infantil nas próximas décadas.
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Ainda conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da UNICEF, divulgados em junho de 2024, mais de 700 mil mortes de crianças menores de cinco anos em 2021 foram relacionadas à má qualidade do ar.
A exposição prolongada a partículas finas (PM2,5) e gases como ozônio e dióxido de nitrogênio (NO₂) agrava quadros de asma, pneumonia e doenças respiratórias crônicas.
Essas ocorrências são mais frequentes em regiões urbanas densamente poluídas.
Impactos crescentes entre idosos e gestantes
Os idosos aparecem como outro grupo altamente vulnerável.
Segundo dados da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), as hospitalizações por calor extremo aumentaram significativamente entre pessoas com mais de 65 anos entre 2001 e 2020.
A redução da capacidade de termorregulação e a presença de doenças cardiovasculares e respiratórias fazem com que ondas de calor se tornem ainda mais letais nessa faixa etária.
Além disso, as gestantes também são afetadas de forma desproporcional.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) relatou em outubro de 2023 que o estresse térmico e a poluição elevam os riscos de parto prematuro e baixo peso ao nascer.
Essas condições comprometem o desenvolvimento neonatal e aumentam a pressão sobre sistemas de saúde pública.
A Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) reforça que o calor, as enchentes e as queimadas intensificam crises de alergias respiratórias e dermatológicas, afetando principalmente crianças, idosos e gestantes.
Em julho de 2024, a entidade enviou uma carta ao embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, defendendo a necessidade urgente de ações concretas para reduzir a poluição ambiental e mitigar os impactos do aquecimento global sobre a saúde humana.
Consequências e projeções até 2055
O relatório da Fiocruz Bahia, publicado em setembro de 2024, aponta que, sem políticas ambientais eficazes, as mortes relacionadas ao calor e à poluição podem dobrar até 2055.
Segundo os dados do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), as mortes infantis por causas ambientais podem aumentar até 94 % nas próximas três décadas.
As regiões Norte e Nordeste do Brasil estão entre as mais vulneráveis, devido à falta de infraestrutura e ao agravamento das secas.
Os pesquisadores também projetam que as doenças respiratórias e cardíacas entre idosos podem crescer até 60 %.
Esse aumento tende a ocorrer durante ondas de calor superiores a 40 °C, já observadas em países da América do Sul em 2023 e 2024.
Ações e recomendações globais
Diante desse cenário, especialistas defendem medidas integradas entre saúde pública e meio ambiente.
A OMS sugere planos nacionais de adaptação climática, sistemas de alerta para calor extremo e monitoramento contínuo da qualidade do ar.
Essas estratégias, quando aplicadas corretamente, reduzem internações e mortes causadas por poluição e temperaturas elevadas.
O embaixador André Corrêa do Lago afirma que a saúde humana depende da saúde do planeta.
Além disso, ele reforça que o envolvimento de jovens, cientistas e comunidades locais é essencial para conter o agravamento da crise ambiental.
Com base nisso, a cooperação internacional se torna indispensável para garantir um futuro sustentável e saudável.
O futuro da saúde diante da crise ambiental
A combinação entre aquecimento global e poluição representa um dos maiores desafios da humanidade.
Se nenhuma medida for adotada, crianças e idosos enfrentarão níveis inéditos de doenças climáticas e respiratórias.
Por isso, o planeta chegou a um ponto de virada: agir agora ou conviver com as consequências irreversíveis da crise climática.
Afinal, quanto tempo ainda resta para transformar o alerta em ação concreta?

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