De mais de 6 mil exoplanetas conhecidos, apenas 14 orbitam duas estrelas — e um estudo publicado no Astrophysical Journal Letters mostra que a relatividade geral de Einstein desestabiliza essas órbitas e expulsa os planetas para o espaço
Quase metade das estrelas semelhantes ao Sol existem em pares — são as chamadas estrelas binárias, dois sóis girando um ao redor do outro.
Se estrelas duplas são tão comuns, planetas orbitando duas estrelas também deveriam ser.
Mas não são.
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Dos mais de 6 mil exoplanetas catalogados até 2025, apenas 14 são circumbinários — ou seja, orbitam duas estrelas ao mesmo tempo.
É um número absurdamente baixo.
Segundo estudo publicado em dezembro de 2025 no Astrophysical Journal Letters, a explicação pode estar na teoria da relatividade geral de Albert Einstein.
“Existe uma escassez geral de planetas circumbinários e um verdadeiro vazio ao redor de sistemas binários muito próximos”, afirmou Farhat, pesquisador principal do estudo.

Como Einstein explica o sumiço dos planetas
Em um sistema binário, as duas estrelas exercem forças gravitacionais complexas sobre qualquer planeta ao redor.
A relatividade geral prevê um efeito chamado precessão orbital — uma mudança lenta e contínua na orientação da órbita.
Em estrelas binárias muito próximas — aquelas que orbitam uma à outra em menos de 7 dias — essa precessão se torna forte demais.
A órbita do planeta fica instável.
O planeta começa a oscilar, ganha energia e acaba sendo expulso para o espaço.
Segundo os cálculos do estudo, cerca de 8 em cada 10 planetas perdem estabilidade orbital ao longo do tempo nesses sistemas.
É como tentar equilibrar uma bola de gude em cima de duas bolas de boliche que giram — mais cedo ou mais tarde, ela é arremessada para fora.
A busca por planetas como Tatooine
O cenário de dois sóis no céu ficou famoso no filme Star Wars, no planeta fictício Tatooine.
Quando o telescópio Kepler foi lançado em 2009, cientistas esperavam encontrar centenas de “Tatooines” reais.
O Kepler monitorou milhares de estrelas binárias eclipsantes — sistemas onde uma estrela passa na frente da outra regularmente.
Esses sistemas são ideais para detectar planetas por trânsito.
Mas os resultados foram decepcionantes.
Os primeiros planetas circumbinários confirmados, como Kepler-34b e Kepler-47c, apareceram entre 2011 e 2012.
Depois deles, as detecções praticamente pararam.
Nenhum planeta circumbinário foi encontrado ao redor de binárias muito próximas — um vazio completo.

Planetas que nascem longe e migram para a morte
Os cientistas acreditam que planetas circumbinários se formam em discos de gás e poeira distantes das estrelas.
Depois, eles migram para órbitas mais próximas.
Porém, ao se aproximarem demais das duas estrelas, entram na zona de instabilidade gravitacional.
Segundo Dra. Leinhardt, da Universidade de Bristol: “Nossas simulações mostram que o disco circumbinário é um ambiente hostil até mesmo para objetos grandes e de forte gravidade.”
Os poucos sobreviventes — como os 14 conhecidos — orbitam logo além da zona perigosa.
São os sortudos que pararam no lugar certo.
O telescópio TESS continua a busca
O satélite TESS (Transiting Exoplanet Survey Satellite), sucessor do Kepler, confirmou novos planetas circumbinários como TOI-1338b.
O projeto Zooniverse “Patrulha da Binária Eclipsante”, liderado por Veselin Kostov da NASA, recruta voluntários para analisar dados do TESS.
Mas mesmo com tecnologia mais avançada, as detecções continuam raras.
A raridade não é um problema de equipamento — é uma realidade física.
Einstein previu há mais de um século que a gravidade curva o espaço-tempo. As consequências para planetas em estrelas duplas só agora estão sendo plenamente compreendidas.
O que isso significa para a busca por vida
Se planetas com dois sóis são raros, candidatos habitáveis nesse tipo de sistema são raríssimos.
A zona habitável — a faixa de distância onde água líquida pode existir — é mais complicada em binárias.
A temperatura flutua conforme as duas estrelas se aproximam e se afastam.
Para a astrobiologia, o estudo sugere que a busca por vida deve se concentrar em binárias mais separadas, onde a precessão relativística é fraca.
Ou em estrelas solitárias como o nosso Sol, onde planetas têm órbitas estáveis por bilhões de anos.
Os números em perspectiva
Para entender a raridade, basta comparar:
- 6.000+ exoplanetas conhecidos no total
- ~50% das estrelas semelhantes ao Sol são binárias
- 14 planetas circumbinários confirmados — 0,2% do total
- 0 planetas em binárias com período orbital menor que 7 dias
- 80% dos planetas que se formam perto de binárias são expulsos
O Universo tem bilhões de estrelas duplas, mas quase nenhum planeta consegue sobreviver entre elas.
O que ainda pode mudar
A amostra de 14 planetas é pequena e pode haver viés de detecção.
Trânsitos em binárias exigem alinhamentos específicos, o que torna a observação mais difícil.
O telescópio James Webb (JWST) pode revelar novos candidatos nos próximos anos.
Além disso, a instabilidade newtoniana — sem relatividade — também contribui para o problema.
A relatividade geral é um fator, não o único.
Mas é a peça que faltava para explicar o vazio total em binárias próximas.
Einstein, mais uma vez, tinha razão — até sobre planetas que nunca viu.

Tantos planetas e pq até hoje ninguém conseguiu estuda o Amazonas todo se fica localizado dentro do Brasil. O povo ****
Gabriel, é uma reflexão válida. A Amazônia de fato ainda tem vastas áreas inexploradas pela ciência — estima-se que milhares de espécies ainda não foram catalogadas. A diferença é que telescópios conseguem varrer grandes áreas do céu de forma automatizada, enquanto a floresta exige expedições presenciais em terreno extremamente difícil. Mas concordo que o investimento em pesquisa na Amazônia deveria ser muito maior. Obrigado pelo comentário!