Com investimento recorde de R$ 34 bilhões em 2025 e a compra da Kangu em 2021, o Mercado Livre acelera modelo sem intermediários, testa envios extras, pressiona as transportadoras do Mercado Livre tradicionais e antecipa uma transição gradual que pode redesenhar ganhos e riscos logísticos dos motoristas agregados em 2026
Em 2021, quando comprou a Kangu, e novamente em 2025, ao anunciar R$ 34 bilhões em investimentos no Brasil, o Mercado Livre deixou claro que quer mais controle sobre sua própria malha logística. Nesse contexto, as transportadoras do Mercado Livre entram no centro do debate sobre o futuro dos fretes em 2026, especialmente para motoristas agregados que hoje dependem do modelo clássico por rota.
Desde então, a empresa vem ampliando o contato direto com motoristas por meio do envios extra e de testes com gestão própria de frota em regiões selecionadas. A pergunta que surge entre agregados e donos de frotas é objetiva: até que ponto esse avanço da operação própria vai reduzir espaço das transportadoras do Mercado Livre tradicionais e mexer no bolso de quem vive de entregar pacotes todos os dias.
Como funcionam hoje as transportadoras do Mercado Livre

Para entender o que pode mudar, é preciso lembrar como o sistema foi montado. Durante anos, quem queria atuar como motorista agregado não falava diretamente com o Mercado Livre.
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O caminho passava, antes de tudo, pelas transportadoras do Mercado Livre, que faziam a ponte entre o e commerce e os motoristas.
Na prática, o Mercado Livre contratava uma transportadora, que por sua vez recrutava o motorista agregado. Primeiro, só entravam motoristas com veículo próprio.
Depois, surgiram transportadoras que forneciam os veículos e contratavam entregadores para trabalhar nos carros da empresa.
O ponto central era sempre o mesmo: existia uma intermediação, um elo de ligação entre o motorista agregado e a operação principal do Mercado Livre.
Como funciona o dinheiro entre Mercado Livre, transportadora e motorista

O segundo passo é entender o fluxo de pagamento.
As transportadoras do Mercado Livre recebem por rota realizada e, em seguida, repassam uma parte desse valor ao motorista, também por rota.
Existem alguns poucos casos de pagamento por pacote entregue, mas a regra predominante continua sendo a remuneração por rota fechada.
Se um entregador recebe, por exemplo, R$ 250 para cumprir uma rota, é porque o Mercado Livre pagou à transportadora um valor maior por aquele mesmo trajeto.
A transportadora recebe o total, paga o motorista, retira seus próprios custos de operação e fica com o que sobra.
Essa é a função clássica das transportadoras do Mercado Livre: gerenciar rotas, motoristas e riscos de operação, capturando a margem que sobra entre o que entra do e commerce e o que sai para o agregado.
Por que faz sentido cortar o intermediário na logística
Do ponto de vista empresarial, a conta é simples.
Se toda empresa privada busca aumentar lucro, a solução óbvia é eliminar intermediários que consomem margem sem serem indispensáveis na tecnologia ou no relacionamento com o cliente final.
No caso da logística, isso significa assumir diretamente a gestão de motoristas e rotas.
Com a Kangu, comprada em 2021, o Mercado Livre passou a lidar diretamente com estabelecimentos comerciais parceiros, que funcionam como agências e pontos de coleta.
Na prática, transformou essa rede em uma espécie de transportadora própria, integrando pontos físicos, tecnologia e motoristas em um mesmo ecossistema.
Quanto mais rotas forem puxadas para dentro dessa estrutura, menor tende a ser a dependência das transportadoras do Mercado Livre tradicionais.
O papel da Kangu e a experiência de outras plataformas
A ideia de cortar intermediários não é nova no setor.
A Shopee já havia implementado um modelo semelhante com a modalidade Onfleit, em que a própria empresa faz a gestão direta de motoristas.
Em cerca de seis meses, essa modalidade passou a responder por mais de metade das entregas da plataforma, reduzindo a fatia das transportadoras terceirizadas, embora sem eliminá las totalmente.
No caso do Mercado Livre, a Kangu cumpre papel parecido.
Ao conectar lojas físicas, pontos de coleta e motoristas, a empresa monta uma malha própria que permite ao Mell, como é chamado no setor, atuar menos como cliente das transportadoras do Mercado Livre e mais como concorrente direto desse serviço.
Cada rota internalizada nesse modelo próprio representa um frete a menos na carteira das transportadoras parceiras.
Envios extra como laboratório de linha direta com motoristas
O envios extra é outro sinal claro de mudança.
Nessa modalidade, o Mercado Livre lida diretamente com o motorista, sem a intermediação de transportadora.
A rota chega pelo aplicativo, o valor é exibido e o motorista decide se aceita ou não. É um laboratório prático de como seria uma operação ampla sem transportadoras do Mercado Livre no meio do caminho.
Nos últimos meses, essa lógica de linha direta, que antes se concentrava no envios extra, vem sendo ampliada também para o modelo de agregado.
Em vez de depender apenas da escala de uma transportadora, o Mercado Livre começa a testar formas de convocar motoristas, montar rotas e controlar indicadores de desempenho diretamente pela sua própria tecnologia.
Isso abre espaço para ajustar remuneração, metas e rotas em tempo real, sem dividir decisões com intermediários.
As transportadoras do Mercado Livre vão acabar em 2026
A dúvida que circula em grupos de motoristas e donos de frotas é se esse movimento significa o fim das transportadoras do Mercado Livre em um horizonte curto.
Pela análise do próprio setor, a resposta mais realista hoje é que elas não devem desaparecer de uma vez, especialmente em 2026, mas terão seu espaço reduzido de forma gradual.
A Shopee, mesmo depois de alguns anos de Onfleit, ainda mantém transportadoras parceiras, em volume menor, mas presentes.
No caso do Mercado Livre, a presença dessas empresas ainda é muito forte e cumpre papel importante em regiões onde a própria estrutura do Mell não chega com a mesma eficiência.
A dimensão da operação, que ainda recorre até aos Correios em alguns trechos, faz com que qualquer ruptura brusca nas transportadoras do Mercado Livre gere risco de desorganização em toda a cadeia logística.
Por que as mudanças precisam ser graduais na logística do Mercado Livre
Com uma cadeia que envolve hubs, centros de distribuição, agências parceiras, pontos de coleta, Correios e diferentes modais, qualquer ajuste impacta diretamente todas as pontas ao mesmo tempo, dos grandes centros aos municípios menores.
É por isso que, mesmo com apetite por lucro e controle, o Mercado Livre tende a fazer mudanças por etapas, e não em um único corte seco nas transportadoras do Mercado Livre.
Na prática, isso significa substituir rotas específicas, testar cidades piloto, aumentar o peso do envios extra e da Kangu e só depois avançar para uma redução mais ampla de contratos com transportadoras.
Para o motorista agregado, a transição pode trazer ganhos em algumas regiões, com negociação direta, mas também pressão maior em outras, onde a competição por rotas e o controle de metas pelo próprio e commerce ficarão mais rígidos.
O que pode acontecer com o bolso dos agregados a partir de 2026
No curto prazo, o impacto no bolso dos motoristas agregados deve aparecer de forma desigual.
Onde a operação própria for dominante, a tendência é que o Mercado Livre capture uma parcela da margem que hoje fica com as transportadoras do Mercado Livre, o que pode resultar em ajustes de valores, metas de produtividade mais altas ou bonificações específicas para rotas críticas.
Em áreas de operação complexa ou de demanda sazonal, as transportadoras devem continuar como amortecedor importante, absorvendo riscos e organizando frota para o Mell.
Nesses cenários, motoristas agregados podem seguir negociando diretamente com donos de empresa, em vez de tratar tudo pelo aplicativo do Mercado Livre.
A diferença é que, quanto mais o envios extra e a estrutura da Kangu se consolidarem, menor será o poder de barganha das transportadoras do Mercado Livre na hora de discutir fretes e repasses com a plataforma.
No fim, o que se desenha para 2026 não é uma extinção instantânea das transportadoras, e sim um cenário em que o Mercado Livre escolhe, rota a rota, onde vale a pena manter o intermediário e onde é mais lucrativo assumir a gestão direta de motoristas.
Na sua opinião, se o Mercado Livre puder escolher entre pagar menos internalizando rotas e manter as transportadoras do Mercado Livre como parceiras, qual modelo deveria prevalecer para não prejudicar os motoristas agregados que vivem dessa renda?


Qualquer mudança é válida para tirar das transportadoras as negociações sobre frete e km rodado.
Pensando como patrão, internalizar rotas, óbvio. Não conheço nenhum comerciante que **** deixar de ganhar mais para manter um setor que pode ser desativado sem dar prejuízo. Se todos estivessem no lugar do ML fariam o mesmo.
O mercado livre deve fazer igual a Shopee, não ter mais tranportadora e sim o frete deve ser tratado direto com o dono do caminhão,sendo assim não terá mais problemas com a sua logística.
É lógico que o valor do frete negociado tem que ser bom,para que o agregado faça um serviço de qualidade.