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Cientistas investigam pássaro que possui veneno mais mortal que o cianeto: o pitohui-encapuzado possui batracotoxina na pele e nas penas, intriga a ciência há mais de 30 anos e ainda levanta mistérios sobre evolução e defesa química

Publicado em 21/01/2026 às 18:02
Assista o vídeoCientistas investigam um pássaro da Papua Nova Guiné (pitohui-encapuzado) que carrega um veneno mais mortal que o cianeto, a batracotoxina. Entenda a descoberta, os mistérios e o que ainda falta revelar.
Cientistas investigam um pássaro da Papua Nova Guiné (pitohui-encapuzado) que carrega um veneno mais mortal que o cianeto, a batracotoxina. Entenda a descoberta, os mistérios e o que ainda falta revelar.
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Pesquisadores investigam um pássaro da Papua Nova Guiné (pitohui-encapuzado) que carrega um veneno mais mortal que o cianeto, a batracotoxina. Entenda a descoberta, os mistérios e o que ainda falta revelar.

Um pássaro que vive nas florestas tropicais da Papua Nova Guiné continua intrigando cientistas mais de três décadas após ter sido identificado como portador de um veneno mais mortal que o cianeto.

A ave, conhecida como pitohui-encapuzado, carrega batracotoxina na pele e nas penas, uma substância extremamente letal.

O fenômeno foi descoberto em 1989, quando o ornitólogo Jack Dumbacher teve contato direto com o animal durante uma expedição científica, e até hoje levanta questões sobre evolução, defesa química e adaptação biológica.

Pitohui-encapuzado: Um enigma concentrado no Pacífico Sul

Embora existam registros isolados de aves tóxicas na América do Norte e na Europa, a grande maioria das espécies conhecidas com essa característica está concentrada na Papua Nova Guiné, a segunda maior ilha do mundo.

Pelo menos cinco espécies de pitohui e o ifrit de capa azul fazem parte desse grupo raro, quase todas portadoras de batracotoxina.

Até hoje, a ciência reconheceu pouquíssimas aves com toxicidade comprovadas.

A codorna europeia e a poupa-eurasiática, apresentam venenos diferentes entre si. Ainda assim, é na Papua Nova Guiné que se encontra a maior concentração conhecida de pássaros venenosos no mundo.

A descoberta da ave venenosa que começou por acaso

O ponto de partida dessa história ocorreu de forma inesperada. Em sua primeira expedição às florestas tropicais da ilha, em 1989, Dumbacher encontrou um pássaro de plumagem preta e laranja preso. Ao tentar soltá-lo, acabou arranhado.

“São aves do tamanho de um gaio, com garras e bicos afiados”, diz Dumbacher. Ao levar o dedo à boca, sentiu algo fora do comum: “Minha boca começou a formigar e queimar, e depois ficou dormente, o que durou até a noite.”

A reação dos guias locais não deixou dúvidas. Eles explicaram que os moradores evitavam os chamados “pássaros de lixo” e só os consumiam após retirar a pele e realizar um preparo cuidadoso, um conhecimento tradicional que a ciência ainda não havia documentado.

Confirmação científica do veneno

Intrigado, Dumbacher, então estudante de pós-graduação da Universidade de Chicago, passou o ano seguinte coletando amostras e buscando apoio de químicos para identificar a substância responsável pelos sintomas.

Em 1992, ele e seus colaboradores divulgaram a descoberta: o pitohui-encapuzado carrega batracotoxina.

O composto é considerado mais mortal que o cianeto e está entre as toxinas mais letais do reino animal.

A mesma substância é encontrada em certos sapos venenosos, como o famoso sapo-dourado, o que chamou atenção para possíveis caminhos evolutivos semelhantes entre animais tão distintos.

Cientistas investigam um pássaro da Papua Nova Guiné (pitohui-encapuzado) que carrega um veneno mais mortal que o cianeto, a batracotoxina.
Imagem: markuslilje/iNaturalist

De onde vem a batracotoxina?

Apesar da confirmação do veneno, sua origem ainda é incerta. Uma das hipóteses mais discutidas envolve a dieta das aves.

“Foi sugerido que eles comem os besouros Choresine e é assim que obtêm a toxina”, comenta Knud Jønsson. “Mas, na verdade, não sabemos.”

O próprio Dumbacher levanta dúvidas sobre essa explicação. “Isso porque a maioria das informações sugere que os besouros não conseguem produzir esses alcaloides esteroidais”, diz ele.

“Portanto, é muito possível que os besouros estejam obtendo a toxina de alguma outra fonte.”

Para avançar nessa resposta, pesquisadores planejam comparar o conteúdo estomacal das aves com insetos capturados nas mesmas áreas.

“É muito parecido com procurar uma agulha em um palheiro, mas esse é o primeiro passo que podemos dar”, explica Jønsson.

Como as aves sobrevivem ao próprio veneno?

Outro mistério envolve a resistência dessas aves à batracotoxina. A substância se liga aos canais de íons de sódio nas células nervosas, musculares e cardíacas, podendo causar convulsões, paralisia e morte.

“Ela se fixa nesses canais e os mantém abertos, de modo que os nervos continuam a se contrair”, afirma Jønsson.

Uma teoria antiga sugere mutações nesses canais, impedindo a ação da toxina. No entanto, testes posteriores levantaram novas dúvidas.

Daniel Minor, biofísico da Universidade da Califórnia, acredita que a explicação pode estar em uma proteína ainda não identificada.

“Talvez seja o mesmo com a batracotoxina”, diz ele, comparando o caso a outros animais venenosos.

Bodawatta avalia que os mecanismos podem atuar de forma complementar. “De qualquer forma, as aves precisam transportar a batracotoxina do intestino para a pele”, comenta.

O que ainda pode ser descoberto

Novas expedições lideradas por Jønsson e Kasun Bodawatta já renderam resultados.

Em 2023, a equipe identificou duas novas espécies de pássaros tóxicos, a primeira descoberta desse tipo em quase 20 anos.

O grupo planeja visitar a Papua Nova Guiné anualmente até 2028.

Para os cientistas, compreender como esses animais evoluíram para conviver com um veneno tão poderoso pode revelar pistas valiosas sobre seleção natural, adaptação e até aplicações futuras na biologia.

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Com informações da National Geographic

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Andriely Medeiros de Araújo

Ensino superior em andamento. Escreve sobre Petróleo, Gás, Energia e temas relacionados para o CPG — Click Petróleo e Gás.

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