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Com o Estreito de Ormuz bloqueado pela guerra Israel-Irã há 60 dias, o Brent passou de US$ 111 e bate sétima alta seguida — e Trump diz que o Irã pediu para abrir o caminho do petróleo

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 30/04/2026 às 19:30
Atualizado em 30/04/2026 às 20:28
Estreito de Ormuz com navios petroleiros parados em águas tropicais durante guerra Israel-Irã afetando preço do petróleo Brent
Conceito visual do Estreito de Ormuz fechado
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A guerra Israel-Irã chegou ao 60º dia, o Estreito de Ormuz segue fechado e o petróleo Brent acaba de bater a sétima alta consecutiva, fechando em US$ 111,26 — Trump afirma que o Irã pediu aos Estados Unidos para abrir o caminho do petróleo

O petróleo Brent atingiu US$ 111,26 por barril em 28 de abril de 2026, alta de 2,8% no fechamento. Os investidores marcaram a sétima sessão consecutiva de ganhos do contrato com vencimento em junho. No mesmo dia, o WTI bateu US$ 99,93, com salto de 3,7% — voltando a flertar com a marca dos US$ 100 pela primeira vez desde 13 de abril, conforme dados do Brasil247.

O motor da disparada é geopolítico. Há quase dois meses, a guerra entre Israel e Irã mantém o Estreito de Ormuz fechado para a navegação comercial, bloqueando a saída de cerca de 20% de todo o petróleo mundial. O resultado: oferta apertada e preços insistindo em níveis que o mercado não via desde 2022.

Para piorar, o presidente americano Donald Trump publicou em sua rede Truth Social que “o Irã pediu aos Estados Unidos que levantem o bloqueio naval do Estreito de Ormuz lo antes possível”. A frase confirmou o impasse e injetou ainda mais tensão no petróleo Brent, que ganhou mais de 5% só na semana até 28 de abril.

O que acontece no Estreito de Ormuz e por que isso quebra o mercado

O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima de apenas 33 km de largura entre o Irã, ao norte, e a Península Arábica, ao sul. Por ali passam diariamente, em condições normais, cerca de 20 milhões de barris de petróleo — equivalente a um quinto do consumo global.

Há cerca de 60 dias, a navegação parou. A causa imediata é a escalada militar entre Israel e Irã, com ataques recíprocos a infraestrutura energética e ameaças explícitas de fechamento total do estreito por parte do governo iraniano em retaliação a operações israelenses.

Em paralelo, os Estados Unidos mantêm bloqueio naval aos portos iranianos, como reportado pela Bloomberg Línea, ampliando a paralisação. O Pentágono reforçou a presença da Quinta Frota no Golfo Pérsico, e operações aéreas de inteligência aumentaram nas últimas semanas.

De fato, a combinação Israel ataca + Irã ameaça + EUA bloqueia gerou o pior cenário possível para o mercado de petróleo. E o petróleo Brent está sendo obrigado a precificar tudo isso de uma vez.

Petroleiro no Golfo Pérsico durante crise do petróleo Brent em alta

O paradoxo da saída dos Emirados Árabes da OPEP+

Em condições normais, a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP+ — anunciada em 28 de abril e efetiva em 1º de maio — derrubaria preços. Isso porque o país tem capacidade ociosa para dobrar a produção de 3 para até 6 milhões de barris diários, ampliando a oferta global.

Como reportou recentemente o Click Petróleo e Gás, os Emirados saem do cartel após 59 anos justamente porque querem produzir mais — e não conseguem dentro das cotas rígidas da OPEP+.

No entanto, em meio à crise no Estreito de Ormuz, o efeito esperado de queda desapareceu. Os bloqueios geopolíticos pesaram mais do que a perspectiva de mais oferta saudita-emiratense, mantendo o petróleo Brent firme acima de US$ 110.

Conforme analisou Anh Pham, analista sênior da Lseg, “embora os preços tenham baixado ligeiramente, isso parece ser mais uma correção das subidas anteriores, enquanto o Brent se mantém em níveis elevados, em torno dos US$ 110 por barril”.

Trump pressiona, Irã resiste — e o mercado precifica processo longo

O mercado recebeu o comentário de Trump sobre o Irã pedir abertura de Ormuz com ceticismo. Isso porque, ao mesmo tempo em que Washington publica declarações públicas sobre o impasse, o bloqueio naval americano continua intacto e nenhum acordo de paz veio à tona.

Conforme a Bloomberg destacou, o Irã descreve sua própria situação como “estado de colapso” de liderança interna, com facções rivais disputando o controle. Em outras palavras, mesmo que parte do governo iraniano queira encerrar a crise, não há cadeia de comando única para destravar Ormuz rapidamente.

Por consequência, traders precificam um processo de paz que pode levar semanas, talvez meses. Isso explica por que, mesmo com a leve correção do petróleo Brent em 29 de abril (-US$ 0,01), os preços continuam ancorados em torno de US$ 110 — o mercado está esperando solução estrutural, não pequenos passos diplomáticos.

Refinaria de petróleo industrial impactada pela alta do Brent

Os impactos globais do petróleo Brent acima de US$ 110

Para entender o tamanho do choque, vale a comparação histórica. Antes da invasão russa à Ucrânia, em fevereiro de 2022, o petróleo Brent girava entre US$ 70 e US$ 80. Hoje, US$ 110 representa alta de aproximadamente 50% sobre essa média.

Cada US$ 10 a mais no Brent eleva, em média, US$ 0,07 por litro o preço da gasolina nos postos brasileiros — sem contar impostos e câmbio. Em termos de contas familiares, um aumento de US$ 30 no barril pode adicionar até R$ 0,40 por litro nos preços do varejo, dependendo da política de Petrobras.

Em paralelo, países importadores enfrentam pressão inflacionária. Estados Unidos, União Europeia, Japão e China — maiores consumidores globais — vêm seus custos energéticos disparar, comprimindo margens industriais e elevando custos logísticos. A inflação de bens e serviços tende a subir junto.

Por outro lado, países exportadores líquidos como o Brasil tendem a ganhar receita extra. Como reportou recentemente o Click Petróleo e Gás, a Petrobras vê aumento direto em receitas de exportação a cada barril vendido acima de US$ 100.

O impacto na Petrobras e no orçamento federal brasileiro

A combinação de Brent alto + produção brasileira em recorde histórico cria efeito multiplicador para a Petrobras e para o caixa do governo federal. Cada barril vendido acima de US$ 100 gera receita adicional substancial em royalties, participação especial e impostos.

De acordo com cálculos preliminares, se o petróleo Brent permanecer em US$ 110 ao longo de 2026, a arrecadação federal direta vinda do setor pode superar R$ 250 bilhões — quase metade do orçamento brasileiro do Bolsa Família, em um único ano fiscal.

Na prática, a alta do Brent funciona como receita de oportunidade temporária para o Tesouro Nacional. Mas há custo. Como o Brasil também é grande consumidor de combustíveis derivados, o repasse aos preços internos pressiona a inflação doméstica e cria conflito político em ano eleitoral.

Os três cenários possíveis para o petróleo Brent até o fim de 2026

Diante do impasse, analistas mapeiam três cenários para o segundo semestre. Em primeiro lugar, há a hipótese diplomática — Estados Unidos e Irã chegam a acordo, Ormuz reabre e o petróleo Brent cede para a faixa de US$ 85-95 por barril.

Em segundo lugar, há o cenário de impasse prolongado — bloqueio mantido, mas sem escalada militar adicional. Nesse caso, preços ficam ancorados em torno de US$ 105-115 ao longo do ano, com Petrobras e exportadores americanos lucrando alto.

Por fim, há o pior cenário — escalada militar regional, com ataques diretos a infraestrutura saudita ou emiratense. Aí, o petróleo Brent pode disparar para US$ 130-150, com efeitos catastróficos para inflação global e crescimento do PIB mundial.

  • US$ 111,26 — fechamento do Brent em 28/04/2026 (sétima alta seguida)
  • US$ 99,93 — fechamento do WTI no mesmo dia (alta de 3,7%)
  • +5% — ganho do Brent na semana até 28 de abril
  • 20% — fatia do petróleo mundial que normalmente passa pelo Estreito de Ormuz
  • 60 dias — duração da guerra Israel-Irã até agora
  • ~50% — alta acumulada do Brent sobre a média pré-Ucrânia (2022)
Posto de combustível brasileiro com preços pressionados pelo petróleo Brent

O que isso significa para o consumidor brasileiro nos próximos meses

Para o brasileiro comum, o efeito mais visível virá no posto de gasolina. Com o petróleo Brent acima de US$ 110, a Petrobras vai sofrer pressão dos acionistas e do mercado para ajustar preços de gasolina e diesel ao patamar internacional.

Em paralelo, o governo Lula pode tentar segurar reajustes via subsídios, fundos de estabilização ou redução temporária de tributos como a Cide. Mas, em ano eleitoral, qualquer movimento na bomba se torna pauta política — e o equilíbrio fiscal fica em risco.

Por sua vez, o setor de aviação também vai sentir. O querosene de aviação acompanha o Brent quase em tempo real, e empresas como Latam e Gol já vinham sinalizando que repassariam custos a passageiros. Em comparação, o transporte rodoviário de cargas — que move boa parte da economia brasileira — também tende a ficar mais caro nos próximos meses.

Ressalvas: o futuro depende de variáveis políticas, não econômicas

Apesar dos números recentes, vale lembrar que o cenário do petróleo Brent em 2026 depende muito mais de decisões políticas do que de fundamentos de mercado. Uma reabertura súbita de Ormuz pode derrubar preços de US$ 111 para US$ 85 em poucos dias.

Por outro lado, qualquer escalada militar adicional — como ataque iraniano direto a oleodutos sauditas — pode jogar o barril para US$ 140 ou mais. Os modelos quantitativos perdem força nesse tipo de cenário.

Por fim, a pergunta que fica é incômoda. Se o petróleo do Atlântico Sul vai responder por metade do crescimento global em 2026, e o petróleo Brent está acima de US$ 110 por causa de uma guerra que ninguém sabe quando vai acabar, o que acontece se Ormuz reabrir amanhã? E se não reabrir nunca?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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