Samsung registra prejuízo inédito na divisão móvel, enquanto a demanda da inteligência artificial impulsiona seu negócio de memórias.
A Samsung encerrou o segundo trimestre fiscal diante de um paradoxo provocado pelo avanço da inteligência artificial: embora tenha vendido mais smartphones Galaxy, a companhia registrou pela primeira vez um prejuízo em sua operação de dispositivos móveis.
Segundo publicado pelo Canaltech em 30 de julho de 2026, o encarecimento dos chips de memória, disputados por fabricantes de servidores e data centers, reduziu as margens dos celulares, mas, ao mesmo tempo, levou o negócio de semicondutores da empresa a resultados históricos.
A divisão DX, que reúne smartphones, televisores e eletrodomésticos, apresentou perda operacional de 800 bilhões de wons, equivalentes a aproximadamente US$ 544 milhões. No balanço, a fabricante atribuiu grande parte desse desempenho à Mobile eXperience, área responsável pelo desenvolvimento e pela comercialização dos aparelhos Galaxy.
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Samsung enfrenta dois efeitos opostos causados pela inteligência artificial
A expansão da IA generativa aumentou a necessidade de infraestrutura computacional em diferentes partes do mundo. Servidores capazes de treinar e executar sistemas avançados utilizam grandes quantidades de memória, elevando a procura pelos componentes e pressionando os preços em toda a cadeia eletrônica.
Para a Samsung, esse movimento criou impactos radicalmente diferentes dentro do mesmo grupo empresarial:
- a fabricação de smartphones ficou mais cara;
- modelos de menor preço perderam parte de sua rentabilidade;
- servidores e data centers ampliaram a demanda por memórias;
- a divisão de semicondutores aumentou as vendas em 56%;
- o setor de memória alcançou recordes de receita e lucro operacional.
Essa combinação explica por que a empresa conseguiu apresentar números consolidados elevados mesmo com o desempenho negativo dos dispositivos móveis. O componente que reduziu o lucro de um telefone Galaxy também passou a ser vendido por valores maiores pela área responsável pela produção de chips.
Celulares Samsung cresceram em vendas, mas perderam margem
O resultado negativo não foi provocado por uma queda generalizada na procura por smartphones. A receita da operação avançou em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, impulsionada pela linha Galaxy S26 e pelo desempenho comercial dos aparelhos da família Galaxy A.
O problema apareceu entre a venda do produto e o lucro efetivamente obtido. Como a memória representa uma parte indispensável da estrutura dos celulares, a elevação de seu preço aumentou o custo de produção de cada unidade, consumindo uma parcela maior da receita gerada nas lojas.
A pressão foi especialmente intensa nos segmentos de entrada e intermediário. Esses produtos precisam manter valores competitivos para alcançar um público amplo, mas normalmente operam com margens menores, o que oferece pouco espaço para absorver aumentos inesperados de componentes.
Samsung deve concentrar estratégia em aparelhos mais caros
Os modelos premium mantiveram desempenho financeiro mais favorável. Aparelhos como o Galaxy S26 Ultra e o Galaxy Z Fold 8 conseguem suportar melhor o encarecimento dos componentes porque são comercializados por preços superiores e oferecem uma margem mais ampla à fabricante.

Diante desse cenário, a Samsung pretende direcionar mais esforços para produtos de maior valor agregado nos próximos trimestres. A estratégia busca recuperar a rentabilidade por meio de celulares avançados, nos quais recursos diferenciados, telas sofisticadas, câmeras mais completas e formatos dobráveis ajudam a justificar valores maiores.
Essa escolha, porém, não elimina o desafio das linhas acessíveis. A série Galaxy A possui peso relevante no volume de vendas da companhia, e uma redução excessiva da presença nos segmentos de entrada e intermediário poderia abrir espaço para concorrentes que disputam consumidores mais sensíveis ao preço.
Negócio de memórias compensa perda dos celulares Samsung
Enquanto a área móvel enfrentava sua primeira perda, a divisão de semicondutores aproveitava a mesma escassez que pressionava os custos dos smartphones. As vendas do setor cresceram 56%, refletindo a procura por chips usados na infraestrutura necessária à inteligência artificial.
A unidade de memórias alcançou os maiores níveis de receita e lucro operacional de sua história. O resultado mostra como a Samsung ocupa uma posição incomum na indústria: além de comprar componentes para seus próprios celulares, também está entre as empresas capazes de fornecê-los ao mercado global.
Essa estrutura diversificada permitiu que o grupo compensasse o desempenho negativo da divisão DX. No resultado consolidado, a companhia registrou receita recorde de 171,5 trilhões de wons, aproximadamente US$ 119 bilhões, e lucro operacional de 89,5 trilhões de wons, cerca de US$ 62,2 bilhões.
Inteligência artificial muda prioridades dentro da Samsung
A procura crescente por infraestrutura de IA está alterando o equilíbrio entre os diferentes negócios da fabricante sul-coreana. Durante anos, os smartphones foram uma das vitrines mais visíveis da companhia, enquanto os componentes funcionavam como uma operação menos percebida pelo consumidor comum.
Agora, a área de semicondutores assume papel ainda mais decisivo nas finanças do grupo. O desempenho recorde das memórias demonstra que a inteligência artificial não está apenas criando novas funções para celulares e computadores, mas também redistribuindo receitas e custos entre empresas e setores.
Nos próximos trimestres, a recuperação da operação móvel dependerá da capacidade de ajustar preços, controlar despesas e ampliar a venda de aparelhos premium sem perder relevância entre consumidores que procuram modelos mais acessíveis. Ao mesmo tempo, a divisão de chips poderá continuar aproveitando a expansão dos data centers.
O trimestre deixa evidente o contraste enfrentado pela Samsung: os celulares Galaxy cresceram em vendas, mas não foram capazes de impedir a perda operacional da divisão, enquanto as memórias encarecidas pela inteligência artificial elevaram o lucro de outra parte da empresa.
Mais do que um prejuízo isolado, o resultado revela como a corrida pela IA já está modificando a estratégia e a rentabilidade de uma das maiores fabricantes de eletrônicos do mundo.
Fonte: Canaltech
