1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / Pesquisadores revelam que pele de peixe comum no bioma brasileiro pode reverter a cegueira em cães e virar tratamento mais barato do país
Localização CE Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Pesquisadores revelam que pele de peixe comum no bioma brasileiro pode reverter a cegueira em cães e virar tratamento mais barato do país

Escrito por Geovane Souza
Publicado em 19/11/2025 às 11:12
Pesquisadores revelam que pele de peixe comum no bioma brasileiro pode reverter a cegueira em cães e virar tratamento mais barato do país
Foto: De acordo com reportagem da revista Pesquisa FAPESP, a membrana de colágeno obtida da pele do peixe é usada como enxerto em cirurgias de córnea.(Imagem: uconnbirdfish)
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
18 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Técnica desenvolvida na Universidade Federal do Ceará usa um biotecido de pele de tilápia, rico em colágeno, para tratar úlceras de córnea em cães e já devolveu a visão a centenas de animais, abrindo caminho para aplicações futuras em humanos

Pesquisadores brasileiros transformaram um resíduo da indústria do pescado em uma das soluções mais promissoras da oftalmologia veterinária. A pele da tilápia-do-nilo, peixe amplamente criado em viveiros no Brasil, está sendo usada para produzir um biotecido capaz de tratar úlceras e lesões graves de córnea em cães, muitas vezes evitando a cegueira definitiva.

A técnica foi desenvolvida pelo Núcleo de Produção e Desenvolvimento de Medicamentos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (NPDM-UFC), referência nacional em pesquisa com pele de tilápia para queimaduras e medicina regenerativa.

De acordo com reportagem da revista Pesquisa FAPESP, a membrana de colágeno obtida da pele do peixe é usada como enxerto em cirurgias de córnea, acelerando a cicatrização e ajudando a recuperar a transparência do olho.

De acordo com reportagem do CNN Brasil, a técnica já foi aplicada em mais de 400 cães com bons resultados clínicos, sobretudo em animais com lesões tão graves que poderiam levá-los à perda permanente da visão.

Da queimadura à cegueira, a trajetória da pele de tilápia na ciência brasileira

O uso da pele de tilápia na medicina começou a ganhar notoriedade por volta de 2015, quando a UFC iniciou estudos para utilizar esse material como curativo biológico em pacientes queimados. Os resultados mostraram redução de dor, menor necessidade de troca de curativos e boa cicatrização, chamando atenção no Brasil e no exterior.

A partir desse avanço em queimaduras, o grupo liderado pelo cirurgião plástico Edmar Maciel expandiu as pesquisas para outras áreas da chamada medicina regenerativa, incluindo reconstrução vaginal, cirurgias de redesignação sexual e, mais recentemente, aplicações em neurologia e oftalmologia.

Foi nesse contexto que surgiu a linha de pesquisa da veterinária Mirza de Souza Melo, responsável por adaptar a pele de tilápia para o tratamento de lesões de córnea em cães e gatos. Em seu mestrado em Medicina Translacional na UFC, ela testou a matriz dérmica da tilápia em comparação com membranas biológicas importadas e com enxertos tradicionais feitos com tecido do próprio animal.

Os estudos de caso e séries clínicas indicaram que o material produzido a partir da pele do peixe não apenas protege a superfície ocular, como também favorece a regeneração do tecido, preservando a transparência da córnea e mantendo a visão dos animais.

Como funciona o biotecido de colágeno que trata úlceras de córnea

O ponto de partida é a pele da tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus), retirada de peixes usados na cadeia produtiva de alimentos. Em laboratório, essa pele passa por um processo longo de descontaminação e descelularização, no qual são removidas escamas, células e resíduos, restando basicamente uma matriz rica em colágeno.

Esse material é transformado em uma membrana biotecnológica – a chamada matriz dérmica acelular – que funciona como um verdadeiro “andaime” para o crescimento celular. Colocada sobre a córnea lesionada durante a cirurgia, ela age como um curativo de alta tecnologia, protegendo o olho e mantendo o ambiente úmido e adequado para a regeneração.

Na prática, após o procedimento oftalmológico tradicional, o veterinário posiciona o enxerto de pele de tilápia sobre a lesão e o fixa com suturas específicas. Com o passar dos dias, a membrana vai liberando colágeno e outras proteínas estruturais, ao mesmo tempo em que é absorvida pelo organismo do animal.

Segundo relatos científicos e entrevistas da equipe à Pesquisa FAPESP e à CNN Brasil, um estudo envolvendo 60 cães com úlceras de córnea demonstrou que os animais tratados com a matriz dérmica da tilápia tiveram tempo de cicatrização e alta hospitalar menor do que aqueles que receberam membranas importadas ou enxerto conjuntival.

Além disso, a técnica tem sido especialmente útil em cães braquicéfalos – como pugs, buldogues e shih-tzus – que, por terem olhos mais expostos, sofrem com frequência lesões de córnea graves, muitas vezes associadas a traumas, ressecamento ou doenças pré-existentes.

Baixo custo, produção nacional e potencial uso em humanos

Uma das grandes forças dessa inovação é o fato de a tilápia ser um peixe amplamente cultivado em território brasileiro, o que dá ao país uma fonte abundante e barata de matéria-prima. Enquanto membranas biológicas usadas hoje em oftalmologia são, em grande parte, importadas e baseadas em materiais bovinos ou suínos, a matriz de tilápia pode ser produzida localmente a partir de um subproduto que antes seria descartado.

De acordo com os pesquisadores, essa característica pode reduzir de forma significativa o custo do tratamento, tornando procedimentos complexos de córnea mais acessíveis para clínicas veterinárias e tutores em todo o país. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da tecnologia dentro de universidades públicas fortalece a capacidade científica nacional e abre espaço para parcerias com a indústria.

Os bons resultados em cães já motivam o grupo da UFC a estudar a aplicação do biotecido em humanos. Um dos braços mais avançados da pesquisa investiga o uso da matriz dérmica de tilápia na recomposição da dura-máter, membrana que reveste o cérebro, em cirurgias cranianas. Ensaios em animais indicam que o material é biocompatível e não provoca resposta inflamatória relevante, e a equipe aguarda autorização ética para iniciar testes em pacientes.

Apesar do otimismo, especialistas ressaltam que, para uso humano em larga escala, seja em oftalmologia, neurologia ou outras áreas, ainda são necessários estudos clínicos robustos, além da avaliação e aprovação da Anvisa, o que pode levar alguns anos.

O que muda para tutores e para a oftalmologia veterinária no Brasil

Do ponto de vista dos tutores, a principal mudança é a perspectiva de que animais que antes poderiam ficar cegos por úlceras profundas de córnea agora têm mais chances de recuperar a visão, desde que recebam atendimento especializado em tempo hábil. A técnica com pele de tilápia não substitui a consulta com o veterinário; ela é uma ferramenta a mais nas mãos de oftalmologistas experientes.

Para a oftalmologia veterinária, a matriz dérmica de tilápia representa um salto tecnológico com identidade brasileira, combinando ciência de ponta, uso inteligente de resíduos e potencial de impacto global. A experiência acumulada em mais de 400 casos, descrita em artigos, dissertações e reportagens, coloca o Brasil na liderança de uma linha de pesquisa que une bem-estar animal, inovação e economia circular.

Ao mesmo tempo, a novidade levanta debates éticos e regulatórios: como garantir produção em escala com controle de qualidade rigoroso? Como evitar usos indevidos ou tentativas de “fazer em casa” com pele de peixe sem preparo adequado, o que seria extremamente perigoso para os animais? Essas perguntas precisarão ser enfrentadas à medida que a técnica se popularizar.

No seu caso, o que mais chama atenção nessa história, o uso de um “lixo” da indústria como tratamento de alta tecnologia, o fato de cães cegos voltarem a enxergar ou o potencial futuro de aplicação em humanos? Deixe sua opinião nos comentários.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Geovane Souza

Especialista em criação de conteúdo para internet, SEO e marketing digital, com atuação focada em crescimento orgânico, performance editorial e estratégias de distribuição. No CPG, cobre temas como empregos, economia, vagas home office, cursos e qualificação profissional, tecnologia, entre outros, sempre com linguagem clara e orientação prática para o leitor. Universitário de Sistemas de Informação no IFBA – Campus Vitória da Conquista. Se você tiver alguma dúvida, quiser corrigir uma informação ou sugerir pauta relacionada aos temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: gspublikar@gmail.com. Importante: não recebemos currículos.

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x