Pesquisadores da TU Graz criaram paredes de tijolos reutilizáveis que podem ser desmontadas e reconstruídas em outro local, reduzindo resíduos da construção civil e cortando emissões em até 60% ao longo de três ciclos de uso.
O tijolo sobrevive ao prédio.
A frase parece simples, mas resume um dos maiores paradoxos da construção civil moderna. Um edifício pode ser demolido em 10 ou 20 anos, enquanto seus materiais ainda teriam potencial para durar muito mais. Foi justamente essa contradição que pesquisadores da Graz University of Technology, a TU Graz, decidiram enfrentar com um sistema de paredes de tijolos reutilizáveis.
O projeto, chamado Re-Use Ziegelwand, foi desenvolvido em parceria com a wienerberger, fabricante austríaca de materiais cerâmicos. A proposta não é vender blocos soltos para qualquer pessoa montar uma casa como brinquedo, mas criar elementos de parede prefabricados, desmontáveis e capazes de serem remontados em outro local.
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O dado que mais chama atenção vem da própria TU Graz: considerando três ciclos de uso, o sistema pode reduzir as emissões de CO₂ em cerca de 60% quando comparado a métodos convencionais. Em um setor conhecido pelo alto consumo de recursos e pela montanha de resíduos gerados em demolições, isso muda a conversa.
Paredes desmontáveis atacam um problema gigante da construção

A construção civil produz uma quantidade enorme de resíduos. Segundo a Comissão Europeia, resíduos de construção e demolição representam mais de um terço de todo o lixo gerado na União Europeia. Dados do Eurostat reforçam o tamanho do problema: em 2022, o setor respondeu por 38,4% do total de resíduos produzidos no bloco.
Esse cenário ajuda a explicar por que a ideia de desmontar, em vez de demolir, ganhou força. Hoje, boa parte dos materiais de um prédio acaba quebrada, triturada ou descartada porque a estrutura foi feita para permanecer fixa até o fim. Quando o edifício deixa de servir, a parede também é tratada como se tivesse acabado.
A TU Graz tenta inverter essa lógica. Em vez de projetar paredes que só podem ser destruídas, o sistema foi pensado para que os elementos sejam removidos quase sem danos e usados novamente em outra construção.
Como os tijolos reutilizáveis funcionam na prática
O ponto central da tecnologia está nas juntas reversíveis. Diferentemente da argamassa convencional, que prende os tijolos de forma permanente, o sistema usa conexões que permitem a desmontagem da parede sem destruir os elementos.
As paredes têm 44 centímetros de espessura e os tijolos incluem lã isolante para melhorar o desempenho térmico. Segundo a TU Graz, os elementos também podem sair da fábrica já rebocados, o que reduz parte do trabalho no canteiro de obras.
O estudo técnico do projeto descreve peças típicas com cerca de 4 metros de comprimento por 3 metros de altura. Elas são conectadas mecanicamente, montadas a seco e desenhadas para um processo de desmontagem não destrutivo. No piloto, foram usados aproximadamente 66 m² de superfície de parede reutilizável.
Para garantir estabilidade, a estrutura pode funcionar com um teto pesado o suficiente para travar o conjunto ou com hastes roscadas verticais pretensionadas que atravessam os tijolos. Ou seja, o sistema preserva a ideia visual de montagem, mas depende de engenharia estrutural precisa.
O teste que desmontou e reconstruiu a mesma estrutura

A tecnologia foi colocada à prova em um edifício demonstrador. A estrutura foi construída, desmontada e reconstruída em outro lugar. Segundo a TU Graz, as paredes permaneceram funcionais e em bom estado depois do processo.
Esse detalhe é importante porque o desafio não está apenas em criar uma parede ecológica no papel. Ela precisa resistir ao transporte, à desmontagem, à remontagem e continuar cumprindo sua função de vedação, isolamento e estabilidade.
Hans Hafellner, gerente do projeto no Institute of Building Physics, Services and Construction da TU Graz, aparece como uma das referências centrais da pesquisa. Andreas Trummer, do Institute of Structural Design da universidade, acompanhou a parte estrutural e destacou a viabilidade técnica do demonstrador.
Emissões caem quando a parede ganha uma segunda vida
A avaliação de ciclo de vida comparou a parede Re-Use com uma parede convencional de concreto prefabricado com isolamento em EPS. No nível do componente, a parede reutilizável apresentou 99,5 kg de CO₂ equivalente por metro quadrado, contra 105,5 kg de CO₂ equivalente por metro quadrado no sistema convencional.
A diferença fica mais forte quando o material é usado mais de uma vez. O estudo mostra que, a partir do segundo ciclo, as emissões ligadas à produção dos elementos caem porque as paredes externas não precisam ser fabricadas do zero novamente.
Outro número técnico ajuda a entender o salto: o indicador de potencial de desmontagem da parede convencional ficou em 0,11, enquanto o sistema Re-Use chegou a 0,96. Na prática, isso mostra que a parede foi desenhada desde o início para ser retirada, transportada e reaproveitada.
O maior potencial está nos prédios de vida curta
Embora a ideia lembre casas que podem ser remontadas, o uso mais forte pode estar em construções comerciais. A própria TU Graz cita edifícios usados por períodos de 10 a 20 anos, como supermercados, galpões, lojas, centros comerciais e depósitos.
Nesses casos, o problema é ainda mais evidente. Uma estrutura pode perder função por mudança de negócio, expansão, relocação ou reforma completa, mesmo quando os materiais ainda estão longe do fim da vida útil.
Com paredes desmontáveis, a construção deixa de ser pensada como um produto descartável. Ela passa a funcionar como um banco de materiais, onde partes do prédio podem circular entre diferentes obras.
A construção civil busca circularidade, mas ainda há limites
O projeto também se conecta a um contexto maior. A Comissão Europeia afirma que o ambiente construído exige grandes quantidades de materiais e representa cerca de 50% de todo o material extraído. Já o UNEP/GlobalABC aponta que edifícios e construção consomem 32% da energia global e respondem por 34% das emissões globais de CO₂.
Mesmo assim, a tecnologia não elimina todas as emissões. Fundações, telhados, transporte, interiores, montagem e fim de vida continuam pesando no cálculo ambiental. O avanço está em impedir que uma parede ainda útil vire entulho apenas porque o edifício original deixou de existir.
No fim, os tijolos reutilizáveis da TU Graz mostram que a próxima revolução da construção pode não estar em construir mais rápido, mas em demolir menos. Quando uma parede pode sair inteira de uma obra e nascer de novo em outro endereço, o prédio deixa de ser um ponto final e passa a ser apenas uma etapa no ciclo dos materiais.

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