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Pela primeira vez em mais de um século, o rio Klamath voltou a correr livre nos Estados Unidos após a demolição de quatro barragens hidrelétricas, e em poucas semanas o salmão já reapareceu em trechos que estavam bloqueados desde 1918, no maior projeto de restauração fluvial da história americana

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 29/05/2026 às 19:00
Atualizado em 29/05/2026 às 19:04
Assista o vídeoO rio Klamath voltou a correr livre nos EUA após a remoção de 4 barragens, e o salmão reapareceu em semanas, no maior projeto de restauração fluvial do país.
O rio Klamath voltou a correr livre nos EUA após a remoção de 4 barragens, e o salmão reapareceu em semanas, no maior projeto de restauração fluvial do país.
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O retorno foi mais rápido do que os cientistas previam. Semanas após a queda da última barragem, em 2024, estações de monitoramento já contavam milhares de salmões cruzando trechos fechados por gerações. Por trás da vitória estão décadas de luta de povos indígenas como os Yurok e os Karuk, para quem o peixe é símbolo de vida.

Pela primeira vez em mais de um século, o rio Klamath voltou a correr livre nos Estados Unidos, após a demolição de quatro barragens hidrelétricas que represavam suas águas. Em poucas semanas, o salmão já reapareceu em trechos que estavam bloqueados desde 1918, no que é considerado o maior projeto de restauração fluvial da história americana, um marco para a ciência ambiental e para os povos originários da região.

Localizado entre o sul do estado do Oregon e o norte da Califórnia, na Costa Oeste dos Estados Unidos, o Klamath teve seu curso profundamente alterado a partir de 1918, quando foi erguida a primeira de quatro grandes barragens. A última delas, a Iron Gate, foi demolida em 2024, encerrando um ciclo de mais de cem anos de represamento e devolvendo ao rio o seu fluxo natural, com resultados ambientais que surpreenderam até os cientistas mais otimistas.

Um século de rio represado

Pela primeira vez em mais de um século, o rio Klamath voltou a correr livre nos Estados Unidos após a demolição de quatro barragens hidrelétricas, e em poucas semanas o salmão já reapareceu em trechos que estavam bloqueados desde 1918, no maior projeto de restauração fluvial da história americana
As quatro barragens do Klamath foram construídas entre 1918 e 1962 pela companhia de energia PacifiCorp, com os nomes de Copco No. 1, Copco No. 2, J.C. Boyle e Iron Gate. 

Elas foram erguidas para gerar energia hidrelétrica, mas, ao longo das décadas, provocaram impactos ambientais severos, interrompendo o fluxo natural de sedimentos e bloqueando o acesso dos peixes a centenas de quilômetros de habitat rio acima.

Com o tempo, o Klamath, que já foi o terceiro maior rio produtor de salmão de toda a Costa Oeste americana, viu suas águas ficarem mais quentes, estagnadas e, em certos períodos, até tóxicas, com proliferação de algas nocivas. A espécie mais afetada foi o salmão Chinook, um peixe migratório que nasce nos rios, vai para o oceano e retorna ao local de origem para se reproduzir. Sem conseguir ultrapassar as barragens, suas populações entraram em declínio acentuado.

A maior remoção de barragens da história dos EUA

Pela primeira vez em mais de um século, o rio Klamath voltou a correr livre nos Estados Unidos após a demolição de quatro barragens hidrelétricas, e em poucas semanas o salmão já reapareceu em trechos que estavam bloqueados desde 1918, no maior projeto de restauração fluvial da história americana
A virada começou de fato em 2023 e se completou no ano seguinte. 

A remoção das quatro barragens, iniciada com a Copco No. 2 em outubro de 2023 e concluída com a queda da Iron Gate em 2024, tornou-se o maior projeto de remoção de barragens e de restauração de rio já realizado nos Estados Unidos, reconectando centenas de quilômetros de habitat antes inacessíveis.

O projeto foi fruto de décadas de articulação envolvendo os governos da Califórnia e do Oregon, a empresa PacifiCorp, organizações ambientais, pescadores e, de forma decisiva, as tribos indígenas locais. A aprovação final pela Comissão Federal de Regulação de Energia veio em dezembro de 2022, e o governador da Califórnia, Gavin Newsom, chegou a visitar as obras, classificando a iniciativa como um esforço histórico de revitalização do rio.

O retorno surpreendentemente rápido do salmão

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O que mais impressionou foi a velocidade da recuperação. Poucas semanas após a remoção das estruturas, o salmão Chinook voltou a subir o rio por áreas inacessíveis havia mais de cem anos, e ovos da espécie foram encontrados em afluentes onde os peixes não eram vistos há décadas. Em outubro de 2024, autoridades registraram o peixe na bacia do Klamath no Oregon pela primeira vez em um século.

Estações de monitoramento por sonar, instaladas por organizações como a California Trout em parceria com as tribos, chegaram a contar milhares de peixes cruzando os antigos pontos de bloqueio nos primeiros meses. Segundo os cientistas, o retorno está ligado ao forte instinto migratório do salmão, capaz de reencontrar seus locais históricos de reprodução. Para Barry McCovey Jr., diretor de pesca da Tribo Yurok, a velocidade e a escala da recuperação superaram até os modelos científicos mais otimistas, provando a capacidade da natureza de se curar quando as barreiras caem.

Uma vitória dos povos indígenas

Mais do que ambiental, a recuperação do Klamath representa um marco cultural profundo. Povos indígenas como os Yurok, Karuk, Hoopa, Shasta e as Tribos Klamath lutaram por décadas pela retirada das barragens, associando o retorno do salmão à recuperação de tradições, cerimônias e modos de vida interrompidos por gerações. Para essas comunidades, o salmão não é apenas alimento, mas parte central de sua identidade espiritual.

“A morte do salmão significa a morte de todo o nosso modo de vida. Todos estamos conectados”, resumiu uma integrante da tribo Yurok em depoimento à imprensa. Lideranças como Frankie Myers, vice-presidente da Tribo Yurok, e Russell Attebery, presidente da Tribo Karuk, celebraram a queda das barragens como o cumprimento de um dever sagrado para com seus ancestrais e seus filhos, em um dos maiores exemplos de protagonismo indígena na restauração ambiental recente.

O outro lado: o que se perdeu em energia

É importante, para um olhar equilibrado, registrar que a remoção das barragens também teve custos e trade-offs. As quatro estruturas geravam energia hidrelétrica, uma fonte renovável, e sua retirada significou a perda dessa geração, ainda que as usinas fossem relativamente pequenas, antigas e consideradas obsoletas diante dos danos ambientais que causavam.

Houve também impactos de curto prazo: a liberação de grande volume de sedimentos acumulados nos reservatórios afetou temporariamente a qualidade da água e causou mortandade de peixes nos primeiros meses, um efeito previsto pelos cientistas e considerado um preço transitório pela recuperação de longo prazo. Esse equilíbrio entre geração de energia e preservação ambiental é justamente um dos debates centrais do setor elétrico no mundo todo, inclusive no Brasil.

Para quem acompanha energia, hidrelétricas e meio ambiente, o caso do Klamath é riquíssimo

Ele coloca em discussão o ciclo de vida das hidrelétricas e o que fazer com barragens antigas e obsoletas, cujo custo ambiental pode superar o benefício energético, um tema cada vez mais presente na agenda global de transição energética e de recuperação de ecossistemas.

O Brasil, que tem na hidreletricidade a base de sua matriz, com gigantes como Itaipu e Belo Monte, acompanha de perto esses debates, sobretudo após episódios que expuseram os riscos de grandes barragens, como a crise da usina de Hidroituango, na Colômbia, e as tragédias de Mariana e Brumadinho, ligadas à mineração. O Klamath mostra que, em alguns casos, devolver o rio à natureza pode ser a decisão mais sensata, ainda que complexa.

A história do rio Klamath voltando a correr livre é uma das mais inspiradoras da agenda ambiental recente. Em poucas semanas, a natureza respondeu a um século de represamento com o retorno surpreendente do salmão, recompensando décadas de luta dos povos indígenas e de ambientalistas. O caso não significa que toda barragem deva cair, já que a energia hidrelétrica segue estratégica, mas prova que, quando uma estrutura se torna mais nociva que útil, removê-la pode reabrir caminhos que pareciam perdidos para sempre, para os peixes, para os rios e para as pessoas.

E você, o que achou dessa história do rio Klamath, que voltou a correr livre e viu o salmão retornar em poucas semanas? Acredita que vale a pena remover barragens antigas em nome do meio ambiente, mesmo perdendo energia? Deixe seu comentário, conte sua opinião sobre o equilíbrio entre energia e natureza e compartilhe a matéria com quem se interessa por meio ambiente, rios e sustentabilidade.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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