Pedidos de conexão de data centers e projetos de hidrogênio já superam 54 GW e pressionam a transmissão de energia no Brasil. Entenda os riscos, investimentos previstos e os desafios da rede elétrica até 2038.
O setor elétrico brasileiro enfrenta um dos maiores desafios de planejamento de sua história recente. Levantamento da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), apresentado no caderno de Transmissão do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 (PDE 2035), aponta que os pedidos de conexão de data centers e projetos ligados ao hidrogênio e à amônia à Rede Básica somam 54,2 GW até 2038. Segundo matéria publicada pelo site MegaWhat nesta segunda-feira (29), esse volume equivale a mais da metade do maior pico de consumo de eletricidade já registrado no país, de 105 GW, ocorrido em fevereiro de 2025.
Data centers e hidrogênio como novas grandes cargas da rede elétrica
Do total mapeado, 26,3 GW referem-se a projetos de data centers e 27,9 GW a empreendimentos associados à indústria do hidrogênio. A concentração dessas cargas eletrointensivas impõe forte pressão sobre a transmissão de energia e evidencia a necessidade de expansão, modernização e maior robustez da rede elétrica nacional. A dimensão desses números coloca o tema no centro das decisões estratégicas do setor elétrico brasileiro.
O crescimento acelerado dos data centers está diretamente ligado à digitalização da economia, ao avanço da computação em nuvem, da inteligência artificial e à demanda crescente por processamento e armazenamento de dados. Essas instalações operam de forma contínua, com alto consumo de energia e exigência máxima de confiabilidade da rede elétrica.
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Em paralelo, a expansão da cadeia do hidrogênio de baixo carbono surge como vetor estratégico da transição energética. A produção por eletrólise demanda grandes volumes de eletricidade, reforçando a dependência de uma transmissão de energia segura e estável. O Brasil se destaca nesse cenário devido ao elevado nível de renovabilidade de sua matriz elétrica e à disponibilidade de fontes para expansão. A combinação entre data centers e hidrogênio redefine o perfil da demanda elétrica e amplia a complexidade do planejamento do sistema.
Transmissão de energia no centro do planejamento do PDE 2035
A pressão dessas novas cargas aparece como um dos principais pontos de atenção do PDE 2035. O plano trabalha com diferentes cenários para a expansão da transmissão de energia, reconhecendo incertezas relacionadas à materialização dos projetos, ao licenciamento ambiental e à execução das obras.
No cenário mais otimista, o PDE projeta R$ 147,8 bilhões em investimentos acumulados em transmissão até 2035. No cenário de referência, considerado o mais provável, os investimentos somam R$ 116,9 bilhões. Já no cenário pessimista, esse valor é reduzido para R$ 98,3 bilhões ao longo da próxima década. Independentemente do cenário, a necessidade de reforçar a rede elétrica é consenso entre os planejadores.
Disputa por espaço na transmissão de energia e regras de conexão
Segundo a EPE, o aumento do interesse por data centers e projetos de hidrogênio está associado à atratividade do sistema elétrico brasileiro. No entanto, o PDE 2035 destaca que a concretização desses empreendimentos depende de condicionantes técnicos, econômicos e regulatórios.
Para os data centers, o documento ressalta a importância da infraestrutura de telecomunicações, da viabilidade econômico-financeira e das novas regras de garantias para acesso à transmissão de energia. Essas medidas buscam evitar a especulação e impedir que projetos não implementados gerem custos adicionais para os demais usuários da rede elétrica.
No caso do hidrogênio, as incertezas estão ligadas ao mercado internacional, à competitividade dos projetos e à consolidação da cadeia produtiva nacional. Sem contratos de longo prazo e escala industrial, o risco de atraso permanece relevante.
Rede elétrica e a distribuição geográfica desigual das novas cargas
A distribuição territorial dos pedidos de conexão revela uma forte assimetria regional. Os projetos de hidrogênio concentram-se majoritariamente no Nordeste, impulsionados pela abundância de energia eólica e solar e pela proximidade com portos voltados à exportação.
Por outro lado, os data centers se destacam no estado de São Paulo, onde há maior concentração de infraestrutura digital, conectividade e centros consumidores. Essa configuração exige soluções regionais específicas e amplia a complexidade da transmissão de energia entre áreas geradoras e centros de carga. Essa desigualdade tem levado a EPE a aprofundar estudos prospectivos para o atendimento de grandes cargas no médio e longo prazo.
Reforços estruturais para data centers no Sudeste
No Sudeste, especialmente em São Paulo, o PDE 2035 detalha estudos voltados ao reforço da rede elétrica. A Parte I do estudo da região central da capital, concluída em fevereiro de 2024, indicou soluções estruturais para ampliar a confiabilidade do sistema e atender à expansão estimada de cerca de 500 MW em data centers.
Já o estudo da região de Campinas, Bom Jardim e Itatiba, finalizado em dezembro de 2024, recomendou reforços em subestações e aumento da capacidade de linhas de 440 kV. Essas intervenções permitem a conexão de projetos na faixa de 800 MW a 1 GW, dependendo do ponto de acesso.
A EPE informou ainda que as Partes II desses estudos estão em andamento, com expectativa de viabilizar até 2,0 GW adicionais na região central de São Paulo e até 5,0 GW na região de Campinas. No Rio Grande do Sul, o PDE prevê um estudo específico para inserção de data centers, associado a uma demanda estimada em torno de 5 GW.
Nordeste exportador e novos corredores de transmissão de energia
Um dos eixos estratégicos do PDE 2035 é a ampliação da capacidade de exportação de energia do Nordeste. O plano prevê elevar essa capacidade para 24 GW, viabilizando uma expansão da geração eólica e solar que pode chegar a 60 GW no Norte e Nordeste.
Ao mesmo tempo, a capacidade de importação da região Sul deve atingir 17 GW em 2033 e 18 GW em 2035. Para viabilizar esse intercâmbio, a EPE selecionou como solução técnica um sistema de transmissão de energia em corrente contínua (HVDC), ligando Angicos, no Rio Grande do Norte, a Itaporanga 2, na divisa entre São Paulo e Paraná.
O projeto prevê uma linha de cerca de 2.500 quilômetros, capacidade de 3 GW e investimento estimado em R$ 26,5 bilhões, com licitação prevista entre 2026 e 2027. O empreendimento representa um marco tecnológico para a rede elétrica brasileira.
Ajustes no planejamento da rede elétrica após o apagão de 2023
O PDE 2035 incorpora ajustes relevantes após o apagão de 15 de agosto de 2023. O documento reduziu os limites de intercâmbio projetados em relação a planos anteriores, em função de desafios na modelagem das usinas eólicas e solares nas simulações de estabilidade.
Segundo a EPE, atualizações nos modelos oficiais indicaram menor contribuição de potência reativa dessas fontes em situações de contingência. Como resposta, EPE e Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) desenvolveram uma nova base de dados de planejamento, divulgada em agosto de 2025, com maior aderência ao comportamento real da rede elétrica.
Sinal locacional, tarifas e envelhecimento da infraestrutura
O crescimento da geração renovável no Nordeste tende a intensificar o sinal locacional nas tarifas de transmissão de energia. O PDE estima que a Tarifa de Uso do Sistema de Transmissão (Tust) será mais elevada nos pontos com maior utilização da rede, especialmente nos submercados Norte e Nordeste.
Além da expansão, o plano chama atenção para o envelhecimento dos ativos existentes. A EPE estima R$ 39,8 bilhões em investimentos potenciais em subestações, associados a ativos que já ultrapassaram sua vida útil regulatória até 2025. Manter a confiabilidade da rede elétrica exige investimentos contínuos em modernização e substituição de equipamentos.
O que os dados revelam sobre o futuro da transmissão de energia no Brasil
Os dados apresentados pela EPE mostram que os pedidos de conexão de data centers e hidrogênio, que somam 54,2 GW até 2038, colocam a transmissão de energia no centro das decisões do setor elétrico. A rede elétrica brasileira precisará crescer em escala, tecnologia e resiliência para sustentar esse novo ciclo de expansão.
Ao mesmo tempo, o país reúne condições únicas para transformar esse desafio em oportunidade, consolidando-se como referência em energia limpa, economia digital e transição energética. O equilíbrio entre planejamento, investimentos e segurança sistêmica será decisivo para o futuro do setor elétrico e para a competitividade do Brasil nas próximas décadas.

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