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País cercado por escassez transforma esgoto tratado em “arma agrícola” enquanto o rio que abasteceu gerações vira disputa regional: Israel recicla quase 90% das águas residuais para irrigação e expõe o abismo hídrico dos vizinhos que ainda dependem do que sobra no Jordão

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 02/05/2026 às 19:40 Atualizado em 02/05/2026 às 19:44
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Israel recicla mais de 87% do esgoto para irrigação
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Israel recicla mais de 87% do esgoto para irrigação, lidera o reuso agrícola entre países da OCDE e transformou águas residuais em recurso estratégico em um território onde mais de 60% da área é árida ou semiárida.

Segundo a OCDE, Israel é o maior usuário de efluente reciclado para agricultura entre todos os países membros da organização: mais de 87% do esgoto produzido no país é tratado e reutilizado para irrigação. A Espanha, segunda colocada no ranking global, recicla cerca de 20% de suas águas residuais. A Austrália, terceira, recicla aproximadamente 8%. A Europa inteira, somada, recicla perto de 1%.

Israel recicla quatro vezes mais do que qualquer outro país do mundo em um território onde mais de 60% da área é classificada como árida ou semiárida. A precipitação anual média varia de menos de 30 milímetros no sul desértico a cerca de 700 milímetros no norte, enquanto a principal fonte natural de água doce de escala regional, o Rio Jordão, encolheu para menos de 10% de sua vazão histórica.

Enquanto isso, a Jordânia, que depende do mesmo rio em colapso, recicla menos de 15% de suas águas residuais. A Síria recicla menos de 5%. O Líbano, em colapso institucional, recicla uma fração irrisória. Israel não resolveu seu problema de água por sorte nem por chuva, mas por decisão política executada com engenharia de precisão ao longo de sete décadas.

Rio Jordão perdeu quase toda sua vazão histórica e virou símbolo do colapso hídrico no Levante

O Rio Jordão tem 251 quilômetros de extensão e alimentou a agricultura e o abastecimento humano da região do Levante por milênios. Em seu estado natural, descarregava aproximadamente 1,3 bilhão de metros cúbicos de água por ano no Mar Morto.

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Hoje, segundo estimativas da ONG EcoPeace Middle East citadas no texto-base, o rio descarrega entre 20 milhões e 30 milhões de metros cúbicos por ano, menos de 2% do fluxo original. O rio que aparece no Antigo Testamento, que foi usado por João Batista em batismos e dividiu tribos e reinos por séculos, tornou-se em grande parte um fio de esgoto parcialmente tratado e água salobra.

O que aconteceu com o Jordão é o resultado de múltiplos países captando o mesmo manancial sem coordenação suficiente e sem limite sustentável. Quando Israel, Jordânia, Síria e Líbano reduziram simultaneamente o fluxo do rio e de seus afluentes, o sistema inteiro perdeu capacidade de recuperação.

Israel parou de depender do Jordão ao transformar esgoto tratado em recurso hídrico estratégico

Israel desviou grande parte do fluxo do Lago Tiberíades, a maior reserva de água doce da região, para seu Aqueduto Nacional ainda na década de 1960. Jordânia e Síria também construíram seus sistemas de captação nos afluentes, eliminando progressivamente o fluxo natural do rio principal.

O Mar Morto, sem afluente suficiente, passou a encolher mais de um metro por ano nas últimas décadas. Recuperar o Jordão exigiria que todos os países que o captam reduzissem seu uso, algo politicamente difícil em uma região marcada por conflitos, insegurança e disputa permanente por água.

A resposta israelense para esse impasse foi pragmática: parar de depender do Jordão. E, para isso, o país precisou encontrar outra fonte de água. A fonte escolhida foi justamente aquela que a maioria dos países ainda trata como resíduo: o esgoto urbano.

Esgoto tratado virou política de segurança nacional em Israel desde os primeiros anos do Estado

A decisão de transformar águas residuais em recurso hídrico estratégico não surgiu de improviso. Foi resultado de uma lógica de sobrevivência que começou nos primeiros anos do Estado de Israel, quando a escassez de água era uma ameaça existencial para um país em formação em território predominantemente árido.

Em 1985, Israel começou a enviar água residual tratada pelo Aqueduto Nacional para fazendas, reduzindo o hiato entre demanda e oferta hídrica. Em 1993, após uma seca severa que levou o Lago Tiberíades a níveis críticos, o governo acelerou os investimentos em infraestrutura de reuso.

No início dos anos 2000, mais de US$ 750 milhões foram investidos em instalações centralizadas de reclamação de água, adicionando 37 bilhões de galões por ano de capacidade. A maior parte desse volume passou a receber tratamento terciário, o estágio mais avançado disponível para transformar efluente em água reutilizável.

Estação Shafdan trata esgoto de Tel Aviv e leva água reciclada por 90 quilômetros até fazendas no Neguev

O centro do sistema israelense é a estação Shafdan, localizada ao sul de Tel Aviv. Citada como modelo global pela ONU em 2012, a estrutura processa 97 milhões de galões por dia de esgoto municipal da região metropolitana de Tel Aviv, a maior concentração urbana do país.

O processo ocorre em duas fases. Na primeira, o tratamento biológico secundário remove a maior parte dos patógenos e dos sólidos orgânicos. Na segunda, ponto em que o modelo israelense se diferencia da maioria dos países, a água passa por tratamento terciário por aquífero de solo.

Foto: Divulgação

Essa água é injetada em bacias de percolação, onde atravessa lentamente camadas de areia por aproximadamente 400 dias, até chegar ao aquífero subterrâneo purificada por filtração natural.

O resultado é uma água frequentemente mais limpa do que fontes naturais de água doce, depois bombeada por 90 quilômetros de tubulações até fazendas no Neguev, o deserto que ocupa mais de 60% do território israelense.

Israel opera 67 estações de tratamento e usa água reciclada em mais da metade da irrigação agrícola

Israel opera hoje 67 grandes estações de tratamento de águas residuais, com as 10 maiores processando mais de 56% de todo o esgoto coletado no país. O efluente tratado é distribuído por uma rede separada da água potável, com torneiras azuis identificando conexões de água reciclada nas fazendas e torneiras verdes indicando água própria para consumo humano.

Cerca de 90% da água reciclada vai para irrigação agrícola. Os outros 10% têm usos ambientais, incluindo manutenção de fluxo mínimo em rios e combate a incêndios florestais. No conjunto, a água reciclada responde por aproximadamente 25% de toda a água consumida em Israel e por mais de 50% da água usada na agricultura.

Essa cifra muda a escala do debate. Mais da metade da irrigação agrícola israelense vem de esgoto tratado, transformando a política hídrica do país de curiosidade técnica em modelo de infraestrutura nacional para regiões sob escassez permanente.

Reservatórios, biofiltração urbana e rede separada completam a engenharia hídrica israelense

A KKL-JNF, organização israelense de desenvolvimento ambiental, construiu 230 reservatórios adicionais para armazenar águas residuais tratadas. Essas estruturas adicionam mais de 260 milhões de metros cúbicos por ano à economia hídrica nacional.

País cercado por escassez transforma esgoto tratado em arma agrícola enquanto o rio que abasteceu gerações vira disputa regional: Israel recicla quase 90% das águas residuais para irrigação e expõe o abismo hídrico dos vizinhos que ainda dependem do que sobra no Jordão
Israel recicla mais de 87% do esgoto para irrigação

Além das estações centralizadas, projetos de biofiltração urbana também funcionam como infraestrutura verde. Neles, plantas e substratos filtrantes removem poluentes do escoamento de tempestades, reduzindo a carga de contaminantes e complementando o sistema de reuso.

A rede separada entre água potável e água reciclada é um ponto crucial. Ela permite que efluentes tratados sejam usados com segurança em lavouras, áreas ambientais e usos específicos, sem competir diretamente com a água dessalinizada destinada ao consumo humano.

Dessalinização completou a segunda revolução hídrica e reduziu a pressão sobre aquíferos e o Lago Tiberíades

A reciclagem de esgoto foi a primeira revolução hídrica israelense. A dessalinização foi a segunda. As duas juntas explicam por que o país passou de escassez crônica para uma condição de segurança hídrica muito superior à de seus vizinhos.

Israel opera cinco grandes plantas de dessalinização ao longo da costa mediterrânea. A maior delas, Sorek, é citada como uma das maiores e mais eficientes plantas de osmose reversa para água marinha do mundo. Juntas, essas plantas fornecem entre 60% e 80% da água potável consumida no país.

A combinação separou funcionalmente os dois grandes usos da água: esgoto tratado para agricultura e água dessalinizada para consumo humano. Essa divisão reduziu a competição entre lavouras e cidades pelo mesmo recurso escasso, permitindo a recuperação parcial de aquíferos costeiros e menor pressão sobre o Lago Tiberíades.

Israel exporta tecnologia hídrica enquanto países vizinhos seguem presos à escassez

Com menos pressão de captação, aquíferos sobreexplorados começaram a se recuperar em algumas áreas, e o Lago Tiberíades estabilizou em níveis mais próximos da média histórica. Ao mesmo tempo, Israel passou a exportar tecnologia hídrica para mais de 150 países.

As exportações de tecnologia de água somam mais de US$ 2 bilhões anuais, segundo o texto-base. Esse mercado inclui dessalinização, irrigação por gotejamento, monitoramento, reúso, sensores, tratamento e controle de perdas.

O paradoxo é que esse avanço ocorre em uma região onde países vizinhos seguem em crise hídrica profunda. O caso israelense mostra que escassez física extrema pode ser mitigada por engenharia, mas também expõe que tecnologia sem governança, investimento e execução institucional não resolve o problema.

Jordânia, Síria e Líbano mostram como a mesma região pode ter destinos hídricos radicalmente diferentes

A Jordânia é um dos países com menor disponibilidade de água per capita do mundo, com menos de 100 metros cúbicos por pessoa por ano, muito abaixo do limiar de 1.000 metros cúbicos usado pela ONU para caracterizar escassez hídrica. É um dos países mais secos do planeta.

Sua capital, Amã, enfrenta restrições de abastecimento que limitam o fornecimento a poucas horas por semana em alguns bairros. Mesmo assim, o país recicla menos de 15% de suas águas residuais para agricultura.

A Síria, antes da guerra civil iniciada em 2011, já enfrentava colapso hídrico acelerado, com aquíferos sobreexplorados, rios reduzidos e seca severa entre 2006 e 2010. O Líbano, embora tenha precipitação relativamente maior, desperdiça grande parte da água por falta de infraestrutura de captação, armazenamento e tratamento.

O que o reuso de água de Israel pode ensinar ao mundo que entra em crise hídrica crescente

A transferência do modelo israelense para outros contextos não é automática. Israel tem condições específicas: Estado centralizado, cultura institucional que trata água como segurança nacional, força de trabalho técnica qualificada e acesso a capital para construir estações, reservatórios e pipelines.

Nenhuma dessas condições é impossível de replicar, mas nenhuma é trivial. O investimento de US$ 750 milhões nos anos 2000 para expandir a capacidade de reclamação de água representou um compromisso fiscal difícil para muitos países em desenvolvimento sem financiamento internacional.

O que o modelo israelense demonstra de forma incontestável é que a limitação física não precisa ser destino inevitável. Um país árido, com fontes naturais insuficientes, conseguiu transformar esgoto urbano em base da agricultura e dessalinização em fonte majoritária de água potável.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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