Pesquisadores da UFRN e do IFPB substituíram a água pela manipueira, o efluente que envenena os rios com cianeto, e patentearam no INPI um tijolo de solo-cimento dentro das normas brasileiras
O tijolo de manipueira parece um contrassenso: pegar o líquido mais temido das casas de farinha do Nordeste, aquele que mata peixe e contamina lençol freático, e usar exatamente esse veneno para amassar um bloco de construção. Foi o que fizeram pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em parceria com o Instituto Federal da Paraíba (IFPB), que trocaram a água da fórmula por manipueira e conseguiram uma patente no INPI.
O resultado é um tijolo em que a água é substituída, parcial ou totalmente, pela manipueira, com resistência à compressão acima de 2 MPa e absorção de água abaixo de 20%. Ou seja, o efluente que era descartado como lixo passou a ser o ingrediente líquido de um material de obra aprovado nas normas técnicas da ABNT.
De veneno de rio a material de obra
Durante décadas, a manipueira foi tratada como o subproduto sem valor da farinha e do polvilho. Cada casa de farinha do interior separava as raízes, prensava a massa e deixava o líquido leitoso escorrer para o quintal, para a valeta ou direto para o riacho mais próximo. O que a engenharia civil brasileira acaba de mostrar é que esse mesmo líquido pode virar a base de um tijolo de qualidade normatizada.
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A virada é conceitual antes de ser técnica. Em vez de perguntar como tratar e neutralizar o efluente para depois jogá-lo fora, os pesquisadores perguntaram se ele poderia entrar no processo produtivo como matéria-prima. A resposta foi sim, e ela desloca a manipueira da lista de passivos ambientais para a lista de insumos.
De acordo com o Por Dentro do RN, o produto foi desenvolvido dentro dos programas de pós-graduação da UFRN e resultou em prototipagem em escala de laboratório e semi-industrial. Não se trata de uma ideia solta de bancada: os blocos foram submetidos a ensaios de resistência mecânica, absorção e durabilidade antes de qualquer anúncio.
O que é a manipueira e por que ela assombra o interior

Para entender o tamanho do problema que está sendo resolvido, é preciso olhar para os números do efluente da mandioca. A cada tonelada de raiz processada, uma casa de farinha gera de 300 a 600 litros de manipueira, um volume que se multiplica rapidamente em regiões onde a mandioca é a espinha dorsal da economia rural.
O líquido não é apenas abundante, é agressivo. A manipueira reúne uma carga orgânica altíssima e um veneno de verdade dentro dela. Conforme o Sebrae, o efluente carrega glicosídeos cianogênicos como a linamarina, que se transformam em cianeto, além de uma Demanda Bioquímica de Oxigênio que pode chegar à casa dos milhares de miligramas por litro. Quando cai no rio, ele consome o oxigênio da água, sufoca a vida aquática e ameaça o abastecimento.
É por isso que a manipueira é, ao mesmo tempo, um problema sanitário, ambiental e econômico do sertão. Ela obriga o pequeno produtor a conviver com um resíduo tóxico que não tem para onde ir, num ciclo que se repete há gerações em milhares de casas de farinha espalhadas pelo Nordeste e por outras regiões produtoras.
Como o tijolo de manipueira é feito

A engenharia por trás do tijolo de manipueira é elegante justamente por ser simples. A base continua sendo o solo-cimento, a mesma tecnologia consagrada do tijolo ecológico prensado, feito de terra selecionada e cimento Portland e curado sem queima em forno. A diferença está no líquido de amassamento.
No processo tradicional, o pó de solo e cimento é umedecido com água até o ponto de prensagem. Na versão patenteada, essa água dá lugar à manipueira, de forma parcial ou total. O solo é classificado pelo sistema HRB-AASHTO, o cimento Portland entra como aglomerante e o efluente orgânico assume o papel que antes era da água limpa.
O detalhe mais surpreendente dos ensaios é que blocos feitos só com solo e manipueira, sem cimento, alcançaram resultados parecidos com os das misturas convencionais de solo, cimento e água. Isso sugere que a matéria orgânica do efluente interage com a estrutura do bloco de um jeito que ajuda no desempenho, algo que ainda está sendo estudado em profundidade, mas que abre uma porta enorme para reduzir o consumo de cimento, o item mais caro e mais poluente da receita.
Os números que fizeram o bloco passar na ABNT
De nada adiantaria reaproveitar o efluente se o tijolo não parasse em pé. Por isso os números de desempenho são o coração da história. As formulações apresentaram resistência à compressão superior a 2 MPa, absorção de água inferior a 20% e perda de massa menor que 7% nos ensaios de durabilidade.
Esses três indicadores não são aleatórios. Eles são exatamente os parâmetros cobrados pelas normas ABNT NBR 8491 e ABNT NBR 13553, que regem os tijolos e blocos de solo-cimento no Brasil. Ficar acima do mínimo exigido pela norma é o que separa uma curiosidade acadêmica de um material que pode, de fato, ir para a parede de uma casa.
Estar dentro da norma também é a chave para a viabilidade comercial. Um bloco normatizado pode ser especificado por engenheiros, aceito em projetos e, no futuro, disputar espaço em compras públicas de habitação popular, algo impensável para um produto informal sem laudo técnico.
A patente no INPI e quem está por trás
O reconhecimento oficial veio com a carta-patente concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), que protege a fabricação de tijolos maciços ou vazados com a substituição da água por manipueira. Registrar a inovação é um passo estratégico: garante que a tecnologia nascida no Brasil tenha dono, possa ser licenciada e chegue ao mercado de forma organizada.
O trabalho tem nome e sobrenome. A pesquisa foi conduzida por Jônatas Macêdo de Souza, sob orientação do professor Wilson Acchar, referência em materiais cerâmicos, com a colaboração dos pesquisadores Luciana Lucena, Vamberto Monteiro e Sóstenes Rêgo. É a ciência de universidade pública transformando um problema local em propriedade intelectual nacional.
A escolha de patentear, em vez de simplesmente publicar, mostra a intenção de levar o tijolo de manipueira para além do artigo científico. O objetivo declarado é avançar da bancada para a validação em campo e, depois, para a produção em escala industrial.
Por que isso importa para o Brasil
O Brasil está entre os maiores produtores de mandioca do planeta, e a raiz sustenta a farinha, o polvilho e a tapioca que fazem parte da mesa do país inteiro. Esse protagonismo tem um custo escondido: quanto mais farinha, mais manipueira, e mais pressão sobre os rios do interior.
É aqui que a inovação ganha uma dimensão que vai muito além do canteiro de obras. Um tijolo que consome manipueira transforma cada casa de farinha em potencial fornecedora de matéria-prima, em vez de fonte de poluição. O mesmo litro de efluente que hoje é despejado no riacho poderia, amanhã, estar amarrando a parede de uma casa popular no semiárido.
O encaixe com a realidade do sertão é quase perfeito. A matéria-prima é abundante e barata, a produção não exige forno nem alto consumo de energia e o efluente já está lá, do lado da fábrica de farinha. É uma solução pensada de dentro para fora, a partir dos recursos e dos problemas que já existem na região.
Construção sustentável e um novo ciclo para o resíduo
O tijolo de manipueira se encaixa numa onda maior de construção sustentável que aposta em transformar rejeitos em materiais. Cinzas, entulho, plástico, borracha de pneu e agora efluente agrícola: a lógica da economia circular chega com força ao setor que mais consome recursos naturais no mundo.
A vantagem específica desse caso é atacar dois problemas com uma tacada só. De um lado, reduz a poluição por manipueira, que sobrecarrega rios e obriga produtores a lidar com um passivo tóxico. De outro, oferece um material de obra de baixo custo e baixa emissão, feito sem queima, para uma população que precisa de moradia digna. Poucas inovações conseguem ser, ao mesmo tempo, saneamento e habitação.
Os desafios até a sua parede
Nada disso significa que o tijolo já esteja à venda na loja da esquina. A própria equipe reconhece que o projeto está na fase de aprimoramento e validação em campo, etapa considerada necessária antes da aplicação comercial e industrial. É o intervalo, sempre delicado, entre o laboratório e o mercado.
Há perguntas legítimas a responder: como padronizar a manipueira, que muda a cada tipo de mandioca e a cada processo de casa de farinha? Como transportar e armazenar um efluente perecível sem que ele fermente? Qual a durabilidade real do bloco depois de anos exposto ao clima? São desafios de engenharia e de logística, não de conceito.
Mesmo assim, a direção está traçada. Um resíduo que só dava dor de cabeça ganhou patente, laudo dentro da norma e um caminho claro para virar produto. Se a manipueira que hoje escorre para o rio pode um dia erguer paredes, quantos outros venenos do nosso lixo estão só esperando por uma boa ideia de engenharia para virar solução?
