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Oriente Médio concentra metade da dessalinização mundial, despeja salmoura nos mares e aposta bilhões pesados em usinas gigantes movidas a energia solar para segurar a crise hídrica e cumprir ODS6

Escrito por Carla Teles
Publicado em 25/02/2026 às 21:17
Oriente Médio concentra metade da dessalinização mundial, despeja salmoura nos mares e aposta bilhões pesados em usinas gigantes movidas a energia solar
Dessalinização mundial no Oriente Médio gera salmoura, exige usinas de dessalinização movidas a energia solar para garantir água segura.
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Região concentra quase metade da capacidade de dessalinização mundial, gera mais de 50% da salmoura do planeta e investe bilhões em megaprojetos movidos a energia solar para tentar se aproximar da meta de água potável do ODS6 da ONU.

A dessalinização mundial deixou de ser uma curiosidade tecnológica e virou infraestrutura crítica de sobrevivência no Oriente Médio. Em uma região que abriga cerca de 6% da população global, mas conta com no máximo 2% da água doce renovável do planeta, países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Kuwait passaram a depender pesadamente da água do mar convertida em água potável. Hoje, o Oriente Médio responde por 46,9% da capacidade contratada e 41,8% da capacidade operacional de dessalinização mundial, produzindo dezenas de milhões de metros cúbicos de água por dia.

Esse avanço é o que impede que o estresse hídrico extremo se transforme em colapso social na região. Mas ele tem um preço alto. Metade de toda a salmoura altamente concentrada gerada pela dessalinização mundial é despejada ali mesmo, nos mares que cercam o Oriente Médio, enquanto megaprojetos movidos a energia solar tentam reduzir custos, emissões e impactos ambientais. O resultado é um laboratório em escala real: a região virou vitrine dos limites, das promessas e das contradições da dessalinização como caminho para cumprir o ODS 6, que promete água e saneamento para todos.

Por que o Oriente Médio virou o epicentro da dessalinização

A crise hídrica no Oriente Médio não é hipótese futura. Quinze dos 25 países com estresse hídrico “extremamente alto” no mundo estão nessa região, usando 80% ou mais de toda a água renovável disponível. Segundo estimativas recentes, 83% da população do Oriente Médio já vive sob escassez severa de água, com projeções de chegar a 100% até 2050.

A combinação de clima árido, superexploração de aquíferos, intrusão de água salgada, contaminação por esgoto e secas prolongadas esvaziou fontes tradicionais como águas subterrâneas, rios e reservatórios. Ao mesmo tempo, crescimento populacional e desenvolvimento econômico aumentaram continuamente a demanda.

Nesse contexto, a dessalinização mundial não apareceu por altruísmo ambiental ou por causa do ODS 6. Ela nasceu como resposta de emergência à falta de água, e o Oriente Médio foi o lugar onde essa resposta mais avançou em escala, tecnologia e dinheiro.

Metade da dessalinização mundial, metade da salmoura

Os números mostram a centralidade da região. Globalmente, a dessalinização mundial soma cerca de 128 milhões de m³ por dia em capacidade contratada, dos quais 69,3 milhões de m³ por dia estão efetivamente em operação.

Só o Oriente Médio concentra 60,1 milhões de m³ por dia em capacidade contratada e 28,96 milhões de m³ por dia em capacidade operacional, dominando o mapa global de usinas.

Essa produção massiva vem acompanhada de um subproduto inevitável: a salmoura. Para cada metro cúbico de água doce, sobra um volume significativo de água extremamente salgada e frequentemente mais quente, carregada de produtos químicos usados no processo.

A produção global de salmoura das plantas em operação chega a 104,2 milhões de m³ por dia. Desse total, 52,83 milhões de m³ por dia são gerados no Oriente Médio, o equivalente a 50,68% da salmoura produzida pela dessalinização mundial.

Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar lideram esse ranking, despejando no mar volumes colossais de salmoura, muitas vezes misturada com efluentes de usinas de energia ou esgoto tratado antes da descarga.

Na prática, metade de todo o resíduo líquido da dessalinização do planeta se concentra em alguns pontos sensíveis, como o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho, que têm água mais rasa, quente e salgada, com pouca renovação com o oceano aberto.

Bilhões em usinas gigantes e a conta da água

Para sustentar essa virada de chave hídrica, o Oriente Médio abriu a carteira. Entre 2006 e 2024, os países da região investiram cerca de 53,4 bilhões de dólares em despesas de capital em dessalinização, o equivalente a 47,5% de todo o investimento global no período.

As despesas operacionais passaram de 49,3 bilhões de dólares, representando 36,1% do gasto acumulado mundial.

Ao longo do tempo, esses investimentos reduziram o custo da água dessalinizada. No Oriente Médio, o preço médio da dessalinização da água do mar entre 2014 e 2024 ficou em torno de 0,59 dólar por m³, valor um pouco abaixo da média global de 0,62 dólar por m³.

Uma década antes, esses valores eram de 18% a quase 29% mais altos, mostrando o efeito direto de ganho tecnológico e escala.

E a expansão está longe de parar. Entre 2024 e 2028, projeta-se que a dessalinização mundial some mais 44,7 bilhões de dólares em novos investimentos de capital, com 57,1 bilhões de dólares em custos operacionais.

Sozinho, o Oriente Médio deve contratar 20,9 milhões de m³ por dia adicionais em capacidade de dessalinização da água do mar, algo como 53,1% de toda a nova capacidade global prevista. A capacidade operacional regional deve saltar para 41 milhões de m³ por dia até 2028, um aumento de 41,6%.

Esse avanço virá na forma de megaprojetos de escala impressionante, como a futura usina de substituição Jubail 2, na Arábia Saudita, e a usina de abastecimento de água de Basra, no Iraque, ambas com capacidade prevista de 1 milhão de m³ por dia.

A lógica é clara: concentrar a dessalinização em grandes polos industriais, integrados a geração de energia, redes de distribuição e, cada vez mais, a parques solares.

O impacto ambiental da salmoura: o ponto cego da equação

Em paralelo, cresce a preocupação com o preço ambiental de concentrar metade da dessalinização mundial em uma região frágil do ponto de vista ecológico. A maior parte das plantas do Oriente Médio opera com taxa média de recuperação de cerca de 25%.

Isso significa que, de todo o volume de água do mar captado, apenas um quarto vira água doce. O resto retorna ao ambiente como salmoura.

A forma mais comum e barata de lidar com esse resíduo é a descarga direta no mar, por meio de emissários equipados com difusores que tentam diluir rapidamente a pluma salina.

Em locais sem acesso à costa, entram em cena lagoas de evaporação, que precisam de grandes áreas e têm alto custo de impermeabilização para evitar contaminação do solo.

Mesmo com emissários bem projetados, as condições específicas do Golfo Pérsico e do Mar Vermelho tornam o problema mais agudo. Águas rasas, salinas, quentes e com pouca renovação criam zonas de acúmulo de salmoura, elevando salinidade e temperatura locais, reduzindo oxigênio dissolvido e estressando ecossistemas costeiros.

Estudos mostram que pequenas mudanças na posição dos pontos de descarga podem reduzir em até 1,10 a 1,55 unidades de salinidade a concentração média anual em áreas críticas, o que dá a dimensão do peso do projeto de engenharia nesse impacto.

Eventos naturais também expõem a vulnerabilidade do sistema. Entre 2008 e 2009, uma proliferação massiva de algas obrigou a paralisação de diversas usinas no Golfo Pérsico e no Mar de Omã, inclusive cinco usinas nos Emirados Árabes Unidos e instalações de osmose reversa em Omã, que tiveram filtros e membranas severamente incrustados.

Quando a região depende da dessalinização mundial para beber água, qualquer interrupção prolongada vira risco direto de desabastecimento.

Da salmoura-problema à salmoura-recurso

Para reduzir o peso ambiental e econômico da salmoura, uma frente crescente de pesquisa tenta transformar o resíduo em fonte de valor, alinhando dessalinização mundial, economia circular e metas climáticas.

Ensaios de laboratório no Kuwait, por exemplo, mostraram que a salmoura de duas usinas poderia, em tese, gerar centenas de toneladas anuais de metais e sais exploráveis, com benefícios estimados em centenas de milhões de dólares por ano.

Na Arábia Saudita, projeta-se investir cerca de 2,1 bilhões de dólares até 2030 em projetos de “mineração de salmoura” para recuperar bromo, lítio, potássio, magnésio, cálcio e sódio, insumos estratégicos para as cadeias de petróleo e gás, petroquímica, farmacêutica e metalúrgica.

A ideia é que, em vez de ser apenas um passivo ambiental, a salmoura se torne matéria-prima industrial e até aliada no sequestro de dióxido de carbono. Na prática, porém, essa valorização enfrenta obstáculos importantes. As concentrações de muitos desses elementos são muito menores que em minérios tradicionais, o que obriga a processar volumes gigantes de salmoura.

Técnicas como cristalização por membranas, sorção seletiva, extração eletroquímica e precipitação controlada são intensivas em energia e capital. Em muitos cenários, o custo de recuperar esses minerais ainda supera o valor de mercado do produto final, especialmente quando se considera a complexidade da mistura de íons, o desgaste de materiais e a necessidade de múltiplas etapas de separação.

Para sair do laboratório e ganhar escala real, a mineração de salmoura depende de fortes políticas públicas, restrições mais duras ao descarte bruto no mar, incentivos à economia circular e projetos-piloto em escala industrial.

É esse conjunto de decisões que vai definir se o Oriente Médio será apenas o maior gerador de salmoura ou também o berço de uma nova indústria de recursos hídricos e minerais.

Energia solar, dessalinização mundial e a corrida pelo ODS 6

Outro eixo de transformação é a energia. A dessalinização da água do mar consome muita eletricidade, e grande parte dela ainda vem de combustíveis fósseis.

Em uma região com alguns dos maiores índices de insolação do planeta, integrar energia solar à dessalinização virou prioridade estratégica, tanto para reduzir custos quanto para aproximar a água dessalinizada das metas do ODS 6 e do Acordo de Paris.

Estudos classificam a dessalinização movida a energia solar como “altamente aplicável” em todos os países do Oriente Médio, combinando escassez hídrica, alta irradiação e disponibilidade de água salina. Na prática, isso já se traduz em projetos concretos.

Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita operam usinas de osmose reversa acopladas a grandes campos fotovoltaicos desde 2008, em configurações híbridas conectadas à rede.

A usina de Taweelah, por exemplo, é hoje uma das maiores instalações de osmose reversa do mundo, com capacidade de cerca de 0,9 milhão de m³ por dia, integrando geração solar à produção de água potável.

Dubai avança no projeto Hassyan, planejado para ser a maior usina de osmose reversa do mundo operando exclusivamente com energia renovável.

A Arábia Saudita, por sua vez, se apoia em projetos como o Jubail 3, que combina 0,6 milhão de m³ por dia de dessalinização com uma usina solar de 45,5 MW, e na usina de AlKhafji, apontada como a maior planta de dessalinização movida a energia solar do mundo.

Outros países seguem a mesma rota. Omã instalou um parque solar de 17 MWp para abastecer a usina de Sharqiyah durante o dia. Israel mira 30% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis até 2030, com parte desse esforço ligada à dessalinização.

O Egito prepara quatro usinas de dessalinização alimentadas por energias renováveis como parte de um plano para atingir 8,8 milhões de m³ por dia em capacidade de dessalinização até 2050. Na Palestina e no Iêmen, projetos apoiados pela União Europeia e pelo PNUD combinam campos fotovoltaicos e dessalinização em regiões altamente vulneráveis.

Mesmo assim, dessalinizar com sol está longe de ser trivial. A intermitência da geração solar exige sistemas de controle sofisticados, inversores capazes de lidar com variações de pressão, estratégias de operação híbrida com a rede e, muitas vezes, reservas de capacidade para garantir qualidade constante da água.

Fatores como poeira, degradação dos painéis e calor extremo reduzem a eficiência dos sistemas. E os altos custos de armazenamento de energia ainda limitam a possibilidade de operar plantas totalmente independentes da rede elétrica.

Pesquisa, patentes e quem lidera a inovação

A posição do Oriente Médio na dessalinização mundial não se limita a construir usinas. A região também virou um polo importante de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e propriedade intelectual.

Desde a década de 1960, já são cerca de 3.000 patentes e 17.000 publicações científicas ligadas à dessalinização com participação de instituições do Oriente Médio.

Globalmente, Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão e China lideram o volume de patentes. Dentro da região, Arábia Saudita e Israel concentram mais de 80% dos depósitos locais, respondendo por 3,4% de todas as patentes de dessalinização do mundo.

Universidades técnicas sauditas, a petrolífera ARAMCO e a estatal SWCC dividem protagonismo com instituições como a Universidade Ben-Gurion, o Technion e empresas como a IDE Technologies.

Os temas mais recorrentes nessas patentes revelam o foco estratégico da região: osmose reversa mais eficiente, uso de energia solar térmica, novos materiais de membrana, processos híbridos e valorização da salmoura.

Há trabalhos com nanocompósitos, grafeno, MOFs, membranas biomiméticas com aquaporinas, processos de nanofiltração para separar íons multivalentes e soluções avançadas contra incrustação e bioincrustação.

Na prática, isso significa que o Oriente Médio não é só o maior consumidor da dessalinização mundial, mas também um dos principais lugares onde se testa, em escala real, a próxima geração de tecnologias que podem baratear, limpar e tornar mais sustentável esse processo.

Subsídios, política e o futuro da água dessalinizada

Nenhuma das infraestruturas descritas acima existe no vácuo. Subsídios, tarifas, conflitos e decisões de governo moldam tanto a expansão quanto o uso da dessalinização mundial no Oriente Médio.

Nos países do Conselho de Cooperação do Golfo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Bahrein, a água dessalinizada é fortemente subsidiada.

Isso ajuda a garantir acesso à população e viabiliza setores intensivos em água, como agricultura irrigada, indústria e turismo. Mas também pode distorcer o sinal de preço, incentivar desperdício e atrasar a transição para tecnologias ainda mais eficientes.

Alguns governos começam a revisar esse modelo. Omã, por exemplo, iniciou a eliminação gradual de subsídios à água e à eletricidade em 2021, para estimular o uso eficiente. Jordânia e Chipre, embora não ofereçam subsídios diretos, apoiam projetos de dessalinização para reduzir custos de operação.

Em países como Palestina e Iêmen, em meio a conflitos prolongados, a expansão da dessalinização depende fortemente de ajuda internacional, empréstimos multilaterais e doações, o que torna a segurança hídrica ainda mais vulnerável a choques políticos e econômicos.

Do lado da pesquisa, a maioria dos 17 países da região financia estudos em dessalinização com recursos nacionais, complementados por fundos regionais e internacionais da Europa, da Ásia e da América do Norte.

A forma como esse dinheiro é distribuído entre inovação de membranas, energias renováveis, gestão de salmoura e políticas de tarifa vai definir se a dessalinização continuará sendo um “curativo caro” ou se pode evoluir para uma solução estrutural mais sustentável.

O que o mundo pode aprender com o Oriente Médio

O caso do Oriente Médio mostra que a dessalinização mundial pode, sim, garantir água em regiões onde a crise hídrica é permanente. Ao mesmo tempo, expõe com clareza os trade-offs: energia, salmoura, impacto costeiro, custo fiscal, dependência tecnológica e vulnerabilidade a eventos extremos.

Se por um lado a região prova que é possível manter megacidades, indústrias e agricultura operando em pleno deserto com apoio de usinas de dessalinização, por outro deixa claro que isso só é sustentável quando atrelado a alguns pilares: matriz energética mais limpa, gestão responsável da salmoura, governança robusta, tarifas que sinalizem valor real da água e investimento contínuo em inovação.

À medida que mais países enfrentam secas prolongadas e esgotamento de recursos hídricos, a experiência do Oriente Médio com a dessalinização mundial tende a servir de referência, tanto como modelo a seguir quanto como alerta sobre o que acontece quando a solução técnica não vem acompanhada de visão ambiental e social de longo prazo.

E você, olhando para essa dependência crescente de usinas gigantes, salmoura e energia solar, acha que a dessalinização mundial está se tornando uma solução sustentável ou apenas um recurso de emergência para ganhar tempo em meio à crise hídrica global?

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anonimous 1
anonimous 1
01/03/2026 17:27

Do you see another habitable planet nearby!

William Josinei Gurzynski
William Josinei Gurzynski
26/02/2026 08:24

O próprio ser humano tentando concertar algo que está destruindo

Carla Teles

Produzo conteúdos diários sobre economia, curiosidades, setor automotivo, tecnologia, inovação, construção e setor de petróleo e gás, com foco no que realmente importa para o mercado brasileiro. Aqui, você encontra oportunidades de trabalho atualizadas e as principais movimentações da indústria. Tem uma sugestão de pauta ou quer divulgar sua vaga? Fale comigo: carlatdl016@gmail.com

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