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Onde só existia areia e vento a 40 graus, a China ergueu uma megacidade de 500 mil habitantes com fazendas, vinícolas e universidades no meio do deserto usando água derretida de geleiras a centenas de quilômetros de distância

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 27/03/2026 às 21:57
Assista o vídeoA China ergueu Shihezi, cidade de 500 mil habitantes no meio do deserto, usando água de geleiras a centenas de quilômetros. Conheça a história.
A China ergueu Shihezi, cidade de 500 mil habitantes no meio do deserto, usando água de geleiras a centenas de quilômetros. Conheça a história.
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A China transformou um trecho de deserto considerado inabitável em uma cidade moderna de quase 500 mil habitantes chamada Shihezi. No meio do deserto de Gurbantünggüt, engenheiros construíram reservatórios, canais de irrigação e infraestrutura urbana completa usando água de geleiras das montanhas Tian Shan, a centenas de quilômetros do local.

Onde antes havia apenas areia, ventos constantes e temperaturas que ultrapassam os 40 graus no verão, a China ergueu uma cidade inteira. Shihezi, localizada na Região Autônoma de Xinjiang, no noroeste do país, fica na borda do deserto de Gurbantünggüt o segundo maior da China e hoje abriga quase 500 mil habitantes, universidades, zonas industriais, fazendas produtivas e até vinícolas que exportam para o mercado internacional.

A história de Shihezi é um dos exemplos mais impressionantes de engenharia urbana em ambientes extremos. A cidade não existia até meados do século XX, quando o governo chinês lançou um projeto para transformar terras áridas em centros agrícolas e urbanos. O que tornou tudo possível foi uma decisão de engenharia audaciosa: captar água do derretimento de geleiras nas montanhas Tian Shan, a centenas de quilômetros de distância, e transportá-la por uma rede de reservatórios e canais até o coração do deserto.

Uma terra que ninguém acreditava poder abrigar uma cidade

Durante séculos, a região onde Shihezi foi erguida era considerada um dos lugares mais inóspitos da China para qualquer tipo de assentamento permanente.

A precipitação média anual é de apenas 150 a 200 milímetros muito menos do que em regiões secas como o Arizona ou Nevada, nos Estados Unidos. Os verões ultrapassam os 40°C, os invernos são rigorosamente frios e os ventos carregados de areia sopram praticamente o ano todo.

Antes do projeto, a região abrigava apenas pequenos oásis agrícolas dispersos, onde a vida dependia exclusivamente de água de rios que nascem nas montanhas Tian Shan, a centenas de quilômetros.

Não havia sistemas de irrigação de grande escala, não havia infraestrutura e não havia nenhuma razão óbvia para que uma cidade surgisse ali.

A camada de areia na borda do deserto de Gurbantünggüt pode ter entre 10 e 30 metros de espessura e se move constantemente com o vento, o que tornava até a construção de fundações um desafio técnico considerável.

O projeto que a China lançou para conquistar o deserto

A virada aconteceu em 1954, quando a China atribuiu ao Corpo de Produção e Construção de Xinjiang uma organização que combinava desenvolvimento econômico com funções paramilitares a missão de recuperar terras desérticas e construir os primeiros assentamentos permanentes na região.

Os pioneiros que chegaram encontraram uma realidade dura: ventos constantes, abastecimento de água limitado e praticamente nenhuma infraestrutura.

Antes de qualquer construção, engenheiros e urbanistas realizaram levantamentos geológicos extensos. Perfurações foram feitas em múltiplos locais para medir a espessura das camadas de areia e identificar áreas com base sólida suficiente para edificações.

Ao mesmo tempo, cientistas analisaram os sistemas fluviais que se originam nas montanhas Tian Shan, onde o derretimento de neve e geleiras fornece bilhões de metros cúbicos de água por ano. A partir desses dados, a China projetou uma cidade inteiramente nova, com zonas agrícolas, bairros residenciais, áreas industriais e corredores de transporte.

A água das geleiras que deu vida ao deserto

Se existe um único fator que explica a existência de Shihezi, é a água. A principal fonte hídrica da cidade vem do derretimento de geleiras nas montanhas Tian Shan, que alimenta rios e sistemas fluviais que correm para as planícies do norte de Xinjiang.

Para controlar e armazenar esse recurso, engenheiros da China construíram grandes reservatórios, sendo o mais importante o de Kenwat, localizado a cerca de 70 quilômetros de Shihezi.

O reservatório de Kenwat tem capacidade para armazenar aproximadamente 188 milhões de metros cúbicos de água o equivalente a quase 75 mil piscinas olímpicas.

A partir dele, a água é distribuída por uma rede de canais, estações de bombeamento e sistemas de irrigação que se estendem por dezenas de quilômetros. O reservatório cumpre três funções críticas: controle de enchentes dos rios de montanha, fornecimento de água para irrigação agrícola e suporte à geração de eletricidade.

De areia estéril a celeiro de algodão da China

Com a água garantida, o desafio seguinte foi transformar areia em terra cultivável. O solo na borda do deserto é tipicamente pobre em nutrientes, possui altos níveis de sal e mal consegue reter umidade. Agrônomos e engenheiros iniciaram um processo de recuperação de terras em larga escala, adicionando fertilizantes orgânicos e condicionadores de solo enquanto construíam sistemas de lixiviação de sal para reduzir o acúmulo de salinidade.

Sistemas modernos de irrigação por gotejamento foram introduzidos, entregando água diretamente às raízes das plantas e reduzindo perdas em um ambiente extremamente árido. Em poucas décadas, dezenas de milhares de hectares de terras agrícolas foram estabelecidos ao redor de Shihezi.

A região se tornou uma das principais áreas produtoras de algodão da China, com rendimentos superiores a 1.500 kg de fibra de algodão por hectare. O crescimento da agricultura atraiu dezenas de milhares de trabalhadores e formou a base econômica que permitiu à cidade se expandir.

Uma cidade completa onde antes não havia nada

À medida que a agricultura se estabilizou e a população cresceu, a China construiu uma infraestrutura urbana completa em Shihezi.

Bulevares de 40 a 60 metros de largura foram erguidos, formando uma rede de transporte que conecta o centro da cidade às áreas agrícolas e industriais ao redor. Sistemas de eletricidade, abastecimento de água tratada, gás e tratamento de esgoto foram desenvolvidos de forma coordenada.

Hoje, Shihezi cobre uma área de aproximadamente 460 km² comparável ao tamanho da área central de Chicago e gera um produto econômico de cerca de 42,9 bilhões de yuans por ano, equivalente a quase 6 bilhões de dólares.

A cidade conta com distritos residenciais, zonas industriais, universidades e uma rede de transporte moderna que a conecta a toda a região norte de Xinjiang. O que era uma paisagem remota de deserto tornou-se um centro econômico e urbano de porte médio.

Do deserto para a taça: Shihezi também produz vinho

Um dos desenvolvimentos mais surpreendentes da cidade é sua indústria vinícola. Shihezi fica próxima da latitude 44° norte, posição comparável à da região de Bordeaux, na França, e recebe entre 2.800 e 3.000 horas de sol por ano, com baixa umidade e grande amplitude térmica entre dia e noite condições ideais para o cultivo de uvas viníferas.

Graças aos sistemas de irrigação que trazem água das montanhas Tian Shan, vinhedos crescem de forma confiável mesmo no ambiente árido.

A tecnologia de irrigação por gotejamento economiza entre 30% e 50% de água e permite controle preciso sobre a qualidade das uvas.

Hoje, a região de Shihezi abriga grandes vinhedos e vinícolas com capacidade para armazenar centenas ou milhares de toneladas de vinho. A China já figura entre as dez maiores nações produtoras de vinho do mundo, e Shihezi está se consolidando como um novo polo desse setor no país.

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Com informações do portal o Conselho de Estado a República Popular da China.

O que você achou da história de Shihezi? Acredita que projetos de cidades no deserto são sustentáveis a longo prazo ou a dependência de geleiras é um risco? Deixe sua opinião nos comentários.

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Márcio Felipe
Márcio Felipe
29/03/2026 12:34

Como não temos geleiras, usamos água dos rios As águas das geleiras formam rios.Não ví nada demais, no Brasil já fazemos isso há décadas, Petrolina e Juazeiro com fazendas irrigadas pelas águas do Rio São Francisco.

Valter Queiroz dealmeida
Valter Queiroz dealmeida
28/03/2026 08:57

A capacidade de planejamento, projetar, desenvolver e fazer do povo Chines é incrível. São super organizados.
Esta cidade indústrias, agronegócio em pleno deserto previsa ter muita coragem e competencia para agir mediante tantas
Dificuldades. A geleira pode não ter vida infinita , mas confio que eles sempre encontrarão uma solução para resolver os problemas. O povo Chines e admiravel aqui rendo minhas homenagens.

Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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