A Fazenda Camocim, de Olivar Araújo, fica a 1.300 metros de altitude em Pedra Azul, Domingos Martins, começou a cultivar café apenas em 1996 e venceu o Cup of Excellence de 2017, hoje o neto Henrique Sloper comanda a produção orgânica, biodinâmica e regenerativa reconhecida dentro e fora do Brasil
Uma fazenda comprada em 1962 nas montanhas do Espírito Santo passou três décadas inteiras sem plantar café: o dono preferiu gastar 30 anos replantando árvores, protegendo nascentes e recuperando o solo. A Fazenda Camocim, adquirida pelo empresário Olivar Araújo em Pedra Azul, no município de Domingos Martins, só entrou no mundo do café em 1996 e hoje coleciona prêmios internacionais com grãos orgânicos. As informações são do site oficial da propriedade e de registros do Centro de Inteligência em Orgânicos e da Alliance for Coffee Excellence.
A aposta invertida deu origem a uma das produções mais singulares do café brasileiro. Da terra recuperada pelo avô saíram o campeão do Cup of Excellence de 2017 e o Café do Jacu, colhido com a ajuda de um pássaro, hoje sob o comando do neto do fundador, Henrique Sloper Araújo.
Compra de 1962 veio décadas antes da moda da sustentabilidade

Quando Olivar Araújo comprou a Fazenda Camocim, em 1962, sustentabilidade nem era palavra corrente no vocabulário do agro brasileiro. O empresário tinha credenciais de peso no mundo corporativo: era superintendente do Grupo Casa Sloper e um dos fundadores da Aracruz Celulose, gigante do setor de papel e celulose.
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O apelido que ganhou na região, porém, revela o que ele realmente fazia na propriedade. Olivar ficou conhecido como o “colecionador de árvores”, por transformar a fazenda capixaba num projeto pessoal de reflorestamento em plena década em que o padrão do campo era desmatar para produzir. Foi essa obsessão silenciosa que preparou o terreno, no sentido literal, para tudo o que viria depois.
Três décadas de trabalho recuperaram solo e nascentes
O ciclo de recuperação durou 30 anos. Nesse período, o empresário replantou árvores em escala, protegeu as nascentes da propriedade e devolveu vida ao solo das montanhas de Pedra Azul, a cerca de 1.300 metros de altitude, sem colher dali nenhuma safra comercial de café.
O plantio também tinha método e até um símbolo. Além das nativas, Olivar cultivava espécies como eucalipto, pinus, araucária e liquidâmbar, árvore que acabou se tornando a marca registrada da Camocim. Segundo os registros históricos da própria fazenda, o pioneirismo dele na recuperação ambiental fez do empresário uma referência na produção orgânica daquela região do Espírito Santo antes mesmo do primeiro pé de café.
Café só chegou em 1996 e escalou com o neto

A vocação cafeeira da terra só foi ativada 34 anos depois da compra. O cultivo de café começou em 1996, conforme o histórico oficial da fazenda, e ganhou escala em 1999, quando Olivar, já com a ajuda do neto Henrique Sloper Araújo, plantou 300 mil pés de arábica orgânico em Domingos Martins, segundo a Alliance for Coffee Excellence.
A aposta era vista com desconfiança na época. Pouca gente na região acreditava que café orgânico, sem fungicidas, fertilizantes industriais ou qualquer defensivo químico, daria resultado, e Henrique dobrou a aposta ao adotar também os princípios da agricultura biodinâmica, que conecta a produção aos ciclos naturais. O modelo agroflorestal, com cafeeiros plantados à sombra em meio à mata, completou o sistema que sustenta os cerca de 153 hectares da propriedade.
Cup of Excellence de 2017 coroou a aposta orgânica
O reconhecimento máximo veio duas décadas depois do primeiro plantio. Em 2017, a Fazenda Camocim conquistou o primeiro lugar do Cup of Excellence Brazil na categoria Naturals, principal premiação internacional da indústria do café, com uma pontuação de 94 pontos, segundo registros do setor, à frente de produtores de países como Colômbia e Guatemala.
A liderança da operação também ganhou projeção nacional. Henrique Sloper, sucessor do avô no comando da fazenda, presidiu a BSCA, a Associação Brasileira de Cafés Especiais, e consolidou a Camocim com certificações como a do IBD, para orgânicos, e a Demeter, para biodinâmicos. O portfólio da casa reúne marcas como Camocim Biodinâmico, Montanhas do Espírito Santo e Café Casa Sloper, em homenagem ao grupo empresarial da família.
Café do Jacu virou o produto mais exótico do portfólio

A joia da coroa da fazenda tem um colhedor inusitado. Desde 2006, a Camocim produz o Café do Jacu, conhecido internacionalmente como Jacu Bird Coffee e apontado por registros do setor como o café mais exótico do Brasil.
O processo é uma parceria com a natureza. O pássaro jacu, que vive solto na mata da propriedade, escolhe naturalmente os grãos mais maduros dos cafeeiros para se alimentar e os elimina ao pé das plantas, onde os grãos são recolhidos manualmente, limpos e armazenados. A seleção feita pela ave transforma cada lote num produto raro e valioso, vendido para torrefadores de vários países.
Certificação regenerativa colocou a fazenda de novo na frente
Sessenta e poucos anos depois da compra, a propriedade voltou a abrir caminho. Segundo o Centro de Inteligência em Orgânicos, a Fazenda Camocim se tornou a primeira empresa brasileira de café a receber a certificação ROC, de agricultura orgânica regenerativa.
O selo avalia exatamente o que Olivar começou a fazer em 1962. A certificação regenerativa se apoia em três pilares, saúde do solo, bem-estar animal e justiça social, e mede o aumento da matéria orgânica, a vida no solo e o sequestro de carbono ao longo do tempo. Na prática, o selo internacional reconheceu oficialmente, com métricas modernas, o método que o “colecionador de árvores” aplicou por intuição três décadas antes de colher o primeiro grão.
Sementeira de 1962 virou legado de três gerações
A história da Fazenda Camocim inverte a lógica tradicional do agronegócio: primeiro vieram 30 anos de floresta, nascentes e solo, e só depois veio o café, que chegou premiado justamente por causa da espera. Da compra de Olivar Araújo em 1962 ao selo regenerativo conquistado sob o comando do neto, a propriedade capixaba provou que recuperar a terra antes de explorá-la pode ser o melhor plano de negócios de longo prazo do campo brasileiro. O liquidâmbar plantado pelo avô segue de pé, agora como símbolo de uma marca conhecida no mundo inteiro.
E para você, o exemplo da Camocim é viável para o produtor comum ou só funciona para quem pode esperar 30 anos pela primeira safra? Conte nos comentários se você já provou um café orgânico, biodinâmico ou o exótico Café do Jacu.
