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244 mil litros de leite por ano deixaram de ir para o ralo numa fazenda de Passos (MG), e a conta preservou mais de R$ 660 mil sem aumentar o rebanho

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 04/11/2026 às 12:28
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Maurício Coelho, de chapéu e camisa xadrez, fala no pasto da Fazenda Santa Luzia com vacas Girolando atrás dele, uma delas deitada na grama.
Maurício Coelho entre as vacas da Fazenda Santa Luzia, em Passos (MG), que deixou de descartar 244,5 mil litros de leite por ano. Foto: Reprodução/YouTube Grupo Cabo Verde
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A Fazenda Santa Luzia, que em 2018 chegou a dar leite aos porcos durante a greve dos caminhoneiros, passou a testar a vaca antes de dar antibiótico. Quase metade dos casos não precisou de remédio, e fizemos a conta com o preço do leite do Cepea.

Na Fazenda Santa Luzia, em Passos, no Sul de Minas, 244,5 mil litros de leite por ano deixaram de ir para o descarte. A conta foi divulgada pela Embrapa em 3 de novembro e vale um ganho estimado de R$ 660 mil por ano.

O segredo não foi comprar vaca. Foi parar de dar antibiótico no escuro: antes de tratar, a fazenda passou a testar o animal. Quando o exame dá negativo, a vaca fica sem remédio, e o leite dela segue para o tanque em vez de ir embora.

É leite que as mesmas vacas já davam. A diferença é que agora ele é vendido, conta o Compre Rural, que lembra que o valor é uma estimativa da própria fazenda, não um lucro auditado.

Por que o leite de uma vaca tratada com antibiótico vai para o descarte?

Porque o remédio não fica só no corpo da vaca. Segundo a Embrapa, o antibiótico passa para o leite, e a pasteurização, aquele aquecimento feito no laticínio, não destrói o resíduo.

Por isso existe o prazo de carência, também chamado de período de retirada. É o tempo que o leite da vaca tratada precisa ser jogado fora até o remédio sair do organismo. Cada produto tem o seu prazo, escrito na bula.

E não adianta descartar só o leite da teta doente. A Embrapa explica que o antibiótico aplicado num quarto do úbere passa para os outros pelo sangue. O leite dos quatro quartos vai fora, todos os dias, até acabar a carência.

Na roça, isso tem nome e sobrenome: é o balde que volta cheio da ordenha e não entra no tanque. “Se não temos um registro sanitário confiável, corre-se o risco de enviar leite com resíduo de antibiótico ao tanque”, alerta Bruno Carvalho, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Gado de Leite.

Como a Santa Luzia descobriu que quase metade dos casos não precisava de antibiótico?

A fazenda de Passos passou a testar antes de tratar. Dos 3.161 casos avaliados na fazenda, 1.366 deram resultado negativo e dispensaram o remédio, o que dá 43%, segundo a Embrapa.

Com o exame na frente, a Santa Luzia cortou pela metade o antibiótico usado na mastite clínica. Mastite é a inflamação do úbere, a “bolsa” onde a vaca guarda o leite, e é a doença que mais leva remédio nas vacas de leite.

Na tristeza parasitária bovina, doença ligada ao carrapato que derruba o gado, o corte de antibiótico foi de 70%.

O dono da fazenda, Maurício Coelho, resume a virada assim: “Até quatro em cada dez tratamentos podem ser evitados no modelo convencional. Elevando o status sanitário da fazenda, reduzimos custos e nos preparamos para o mercado internacional”, disse à Embrapa.

E onde mora o dinheiro? Ele mesmo apontou ao AgFeed: “O maior ganho está no leite que deixa de ser descartado pelo prazo de carência após uso de antibióticos”. O remédio que não é dado também não é comprado, mas o grosso da economia está no balde que volta a valer.

Quanto valem 244 mil litros de leite no preço pago hoje ao produtor?

Fizemos a conta com o preço do Cepea, da USP. Em setembro, o litro pago ao produtor ficou em R$ 2,76 na Média Brasil, queda de 5% sobre agosto.

Multiplicando, 244,5 mil litros vezes R$ 2,76 dão cerca de R$ 675 mil por ano no preço de setembro. É um pouco acima dos R$ 660 mil da fazenda, porque o preço do leite sobe e desce ao longo do ano.

Dividido pelo calendário, o leite salvo dá perto de 670 litros por dia. É como se a fazenda tivesse um caminhãozinho de leite a mais saindo da porteira todo dia, sem uma vaca nova no pasto.

Pelo mês, os R$ 660 mil viram cerca de R$ 55 mil, conta que o Compre Rural também fez.

ContaResultado
Leite que deixou de ser descartado244,5 mil litros por ano
Por diacerca de 670 litros
No preço do Cepea de setembro (R$ 2,76)cerca de R$ 675 mil por ano
Estimativa da fazendaR$ 660 mil por ano
Por mês (estimativa da fazenda)cerca de R$ 55 mil

O que aconteceu em 2018, quando o leite da Santa Luzia foi para os porcos?

A mesma fazenda já viu o outro lado da moeda. Em maio de 2018, na greve dos caminhoneiros, o caminhão de leite não chegava. Segundo o MilkPoint, Maurício Silveira Coelho perdeu 100 mil litros de leite num só dia, e cerca de 30 mil eram da própria fazenda.

O leite foi dado aos porcos e jogado nos biodigestores. Vaca não para de dar leite porque a estrada fechou: “As vacas não podem parar de ser ordenhadas, porque correm risco de vida”, disse ele na época ao MilkPoint. Ele calculou prejuízo de R$ 50 mil por dia.

Naquele ano, a Santa Luzia produzia cerca de 35 mil litros por dia. Na régua de 2018, os 244,5 mil litros salvos agora equivalem a uns 7 dias inteiros de ordenha da fazenda.

Quem é a família que cuida da Santa Luzia, em Passos?

É história de três gerações. Segundo a Globo Rural, a família chegou à região de carro de boi na década de 1940, e um tourinho zebu chamado Cariá ajudou a pagar a fazenda.

Vacas encaixadas lado a lado na ordenha em carrossel da Fazenda Santa Luzia, vista de cima, com o galpão cheio de animais ao fundo.
Ordenha em carrossel da Fazenda Santa Luzia, em Passos (MG): a plataforma gira devagar com as vacas em cima. Foto: Reprodução/YouTube DeLaval Brasil

Maurício é da terceira geração e comanda a propriedade desde 1990. A ordenha é feita num carrossel, uma plataforma redonda que gira devagar com as vacas em cima, enquanto a equipe coloca as teteiras.

Em 2018, a Globo Rural contou que o carrossel recebia 40 vacas a cada 10 minutos. O rebanho é de Girolando, a mistura de Gir com Holandesa que é a cara do leite brasileiro.

No vídeo abaixo, do canal oficial do Grupo Cabo Verde, Maurício aparece no pasto entre as vacas falando do pacote de manejo que a fazenda usa para produzir leite.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

O que é o selo de biosseguridade que a fazenda de Passos ganhou?

É a Certificação em Biosseguridade, a CBS. Biosseguridade é o conjunto de cuidados para a doença não entrar nem se espalhar na fazenda: controle de quem entra, lavagem de pneu de caminhão, roupa limpa para visita e registro de cada tratamento.

O selo foi criado pela Embrapa com a farmacêutica Boehringer Ingelheim. A auditoria confere mais de 140 pontos críticos da propriedade, e o programa deve chegar a 160 fazendas de leite.

A base é um documento da Embrapa Gado de Leite de 2018. A pandemia de 2020 acelerou o uso das medidas, e a certificação transformou as recomendações em itens que podem ser conferidos e anotados.

A Santa Luzia e a Fazenda Colorado, de Araras (SP), foram as primeiras certificadas, em 2024, segundo o AgFeed. O site chamou atenção para uma ironia: o modelo foi montado por uma empresa que vende remédio e faz o produtor usar menos remédio.

O que mudou na Fazenda Colorado, a outra pioneira?

Lá, a mudança foi na secagem, a pausa de descanso antes da vaca parir de novo. Em 2016, todas as vacas recebiam antibiótico nessa hora. Em 2026, cerca de 80% secam sem antibiótico, só com selante de teto, segundo a Embrapa.

E o rebanho em lactação da Colorado cresceu ao mesmo tempo, de 1.700 para 2.400 vacas entre 2016 e 2024. Menos remédio não significou menos leite, a mesma lição que vem de Passos.

O selo também já chegou ao supermercado: a marca de laticínios Xandô estampa a CBS nas embalagens, de acordo com a Embrapa.

Por que tanta fazenda ainda dá antibiótico sem exame?

O costume ainda pesa mais que o exame. Um levantamento feito em 65 fazendas de São Paulo e Minas Gerais, citado pela Embrapa, mostrou que em 43,1% delas o tratamento da mastite começava sem exame, mesmo em caso leve.

Só 12,3% das fazendas faziam cultura, o exame de laboratório que mostra qual bactéria está causando a mastite. E 53,9% nem anotavam os casos.

O peso disso é grande. Entre 52% e 62% de todo o antimicrobiano usado nas vacas de leite vai para tratar ou prevenir mastite, segundo estudos citados pela Embrapa. Remédio dado sem precisar ainda ajuda a criar bactéria resistente, que depois não morre com antibiótico nenhum.

O que o pequeno produtor de leite pode copiar da Santa Luzia?

A ideia central cabe em qualquer curral: primeiro descobrir, depois tratar, sempre com o veterinário. A Santa Luzia mostra que o exame antes do antibiótico pode poupar remédio e, principalmente, leite.

Funcionário de camisa azul com o nome Santa Luzia caminha no pasto atrás de um grupo de vacas de úbere cheio.
Funcionário da Fazenda Santa Luzia conduz as vacas no pasto em Passos (MG). Foto: Reprodução/YouTube Grupo Cabo Verde

As regras da Embrapa para a vaca que precisou de remédio também valem para todo tamanho de fazenda:

  • marcar a vaca tratada para ninguém se confundir na ordenha;
  • ordenhar a vaca tratada por último;
  • descartar o leite dos quatro quartos, não só da teta doente;
  • respeitar o prazo de carência de cada produto, sem cortar caminho.

E anotar tudo: o dia, a vaca e o remédio. É esse caderno que, segundo Bruno Carvalho, da Embrapa, evita que leite com resíduo de antibiótico chegue ao tanque e ao laticínio.

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Bruno Teles

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