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Objeto de 500 km além de Netuno surpreende ciência ao apresentar atmosfera tênue

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 05/05/2026 às 15:09
Atualizado em 05/05/2026 às 15:18
Astrônomos japoneses detectam atmosfera em objeto de 500 km além de Netuno. Pressão de 100-200 nanobares publicada na Nature Astronomy. Entenda a descoberta.
Astrônomos japoneses detectam atmosfera em objeto de 500 km além de Netuno. Pressão de 100-200 nanobares publicada na Nature Astronomy. Entenda a descoberta.
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Ko Arimatsu do Observatório Astronômico Nacional do Japão (NAOJ) detectou indícios de atmosfera ao redor do objeto transnetuniano (612533) 2002 XV93, corpo de 500 km que orbita o Sol a 6 bilhões de km, com pressão de 100 a 200 nanobares, em estudo publicado na Nature Astronomy em 4 de maio de 2026.

Astrônomos japoneses identificaram pela primeira vez indícios de uma atmosfera ao redor de um pequeno corpo gelado que orbita o Sol muito além de Netuno, descoberta que desafia o que a ciência considerava possível para objetos dessa escala. O corpo, designado (612533) 2002 XV93 e com apenas 500 km de diâmetro, passou em frente a uma estrela distante em 10 de janeiro de 2024 em evento conhecido como ocultação estelar, e a análise da maneira como a luz “se apagou” gradualmente em vez de desaparecer de forma abrupta sustenta a hipótese de que uma atmosfera tênue envolve o objeto, segundo estudo liderado por Ko Arimatsu do Observatório Astronômico Nacional do Japão (NAOJ) e publicado em 4 de maio de 2026 na revista Nature Astronomy. “Este é um desenvolvimento surpreendente, mas que precisa urgentemente de verificação independente”, declarou Arimatsu em entrevista à agência Associated Press na ocasião da publicação, ressalva que diferencia descoberta científica rigorosa de manchete sensacionalista.

A pressão da atmosfera detectada ao redor do objeto está estimada entre 100 e 200 nanobares, valor que parece insignificante mas que é surpreendente para um corpo com gravidade tão fraca. Até agora, Plutão era o único objeto transnetuniano com atmosfera global detectada, e sua pressão atmosférica de aproximadamente 10 microbares (10.000 nanobares) é 50 a 100 vezes maior do que a medida no 2002 XV93, enquanto a atmosfera da Terra ao nível do mar tem 1 bilhão de nanobares, ou seja, 5 a 10 milhões de vezes mais densa do que a atmosfera que os astrônomos japoneses identificaram a 6 bilhões de quilômetros do Sol. A descoberta implica que outros objetos pequenos do Cinturão de Kuiper podem ter atmosferas que a ciência não procurou porque acreditava impossíveis.

Como astrônomos detectaram a atmosfera de um objeto invisível a telescópios

Astrônomos japoneses detectam atmosfera em objeto de 500 km além de Netuno. Pressão de 100-200 nanobares publicada na Nature Astronomy. Entenda a descoberta.

A técnica que permitiu a detecção da atmosfera contorna a impossibilidade de observar diretamente objetos tão escuros e distantes. A ocultação estelar ocorre quando um corpo do Sistema Solar passa exatamente em frente a uma estrela distante do ponto de vista do observador na Terra, e se o objeto não tem atmosfera a luz da estrela desaparece abruptamente quando ele passa e reaparece abruptamente quando ele sai, enquanto a presença de atmosfera produz diminuição e reaparecimento graduais conforme a luz atravessa camadas de gás ao redor do corpo. Foi exatamente o padrão gradual que os telescópios registraram durante os 1,5 segundos em que o 2002 XV93 bloqueou a luz da estrela em 10 de janeiro de 2024.

A observação foi coordenada por múltiplos pontos no Japão, incluindo o telescópio Kiso Schmidt na província de Nagano, observatórios em Kyoto e telescópio operado por cientistas cidadãos em Fukushima. A participação de astrônomos amadores na descoberta publicada na Nature Astronomy é detalhe que humaniza a pesquisa e demonstra que observadores dedicados com equipamento modesto podem contribuir para a ciência de ponta quando coordenados com instituições profissionais como o NAOJ. Em pelo menos dois locais de observação, os registros mostraram diminuição progressiva da luz compatível com a presença de atmosfera ao redor do objeto, padrão que seria estatisticamente improvável como artefato instrumental.

O que é o 2002 XV93 e por que ninguém esperava encontrar atmosfera nele

Astrônomos japoneses detectam atmosfera em objeto de 500 km além de Netuno. Pressão de 100-200 nanobares publicada na Nature Astronomy. Entenda a descoberta.

O objeto que surpreendeu a comunidade científica com indícios de atmosfera pertence a uma classe específica de corpos gelados nas franjas do Sistema Solar. Classificado como plutino, categoria de objetos transnetunianos cuja órbita é ressonante com Netuno (completando 2 voltas ao redor do Sol para cada 3 voltas de Netuno), o 2002 XV93 orbita a aproximadamente 38 a 40 unidades astronômicas do Sol, leva 247 anos para completar uma volta e se formou há mais de 4,5 bilhões de anos, no início do Sistema Solar. Seu diâmetro de 500 km é cerca de um quinto do de Plutão (2.377 km) e significativamente menor que o de Éris (2.326 km), os dois maiores objetos transnetunianos conhecidos.

A ciência considerava improvável que um corpo tão pequeno retivesse atmosfera porque a gravidade em sua superfície é fraca demais para impedir que gases escapem para o espaço. A regra geral na planetologia é que quanto menor o corpo, menor sua capacidade de reter atmosfera, e objetos abaixo de mil quilômetros de diâmetro no Sistema Solar exterior eram tratados como rochas geladas inertes sem possibilidade de manter envelope gasoso estável. Estudos anteriores em outros objetos transnetunianos grandes haviam estabelecido limites superiores de apenas 1 a 100 nanobares para possível atmosfera, o que torna os 100 a 200 nanobares detectados no 2002 XV93 valor surpreendentemente alto para um corpo dessa categoria.

Quais são as duas hipóteses que explicam a atmosfera detectada

Os pesquisadores propõem duas explicações para a presença de atmosfera ao redor de objeto tão pequeno e distante. A primeira hipótese sugere liberação interna de gases por processos semelhantes ao criovulcanismo, espécie de vulcanismo gelado em que processos internos do objeto liberam voláteis que formam a atmosfera, cenário em que a pressão atmosférica deveria se manter relativamente estável ou variar sazonalmente conforme a posição do objeto em sua órbita de 247 anos. A segunda hipótese propõe que um cometa ou outro pequeno corpo colidiu recentemente com o 2002 XV93, liberando gases da superfície que formaram a atmosfera temporária.

Um dado do Telescópio Espacial James Webb ajuda a diferenciar as duas hipóteses. Observações prévias com o James Webb não detectaram gases congelados na superfície do 2002 XV93, resultado que enfraquece a hipótese de evaporação contínua (se houvesse fonte permanente, o gelo seria visível) e reforça a possibilidade de impacto recente como origem da atmosfera. Se a hipótese de impacto estiver correta, modelos sugerem que a atmosfera pode se dissipar em intervalo de 100 a 1.000 anos sem reposição, e observações futuras nos próximos 5 a 10 anos que mostrem diminuição constante da pressão confirmariam essa interpretação. Se a pressão se mantiver estável, o 2002 XV93 seria corpo geologicamente ativo escondido nas franjas mais distantes do Sistema Solar.

Por que a descoberta da atmosfera importa para a compreensão do Sistema Solar

A detecção de atmosfera no 2002 XV93 obriga a ciência a reconsiderar o que pensava sobre o Cinturão de Kuiper e seus habitantes. Se um corpo de 500 km consegue manter atmosfera, mesmo que tênue e possivelmente temporária, outros objetos de tamanho semelhante podem ter atmosferas que telescópios nunca procuraram porque as hipóteses vigentes as descartavam como impossíveis. O próprio estudo publicado na Nature Astronomy destaca que “a ideia tradicional de que atmosferas globais densas se formam apenas em planetas maiores precisa ser revista”, conclusão que amplia o universo de mundos potencialmente interessantes para exploração futura.

Os próximos passos incluem verificação independente e observação continuada. Arimatsu e sua equipe planejam monitorar o 2002 XV93 nos próximos anos por meio de novas ocultações estelares e observação direta com o James Webb, trabalho que determinará se a atmosfera é fenômeno permanente que indica atividade geológica interna ou vestígio transitório de impacto recente que desaparecerá em poucas gerações humanas. Em qualquer dos cenários, a descoberta já alterou o mapa do que a ciência considera possível nas regiões mais frias e remotas do nosso sistema planetário, onde a temperatura é próxima do zero absoluto e a luz solar chega mil vezes mais fraca do que na Terra.

E você, acha possível que outros objetos pequenos além de Netuno também tenham atmosfera? Essa descoberta muda o que pensamos sobre o Sistema Solar? Deixe sua opinião nos comentários.

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