Aquíferos milenares nos Andes estão sendo bombeados no Triângulo do Lítio para extrair mineral essencial às baterias de carros elétricos, consumindo água ancestral em piscinas de evaporação no deserto.
Debaixo do solo mais árido do planeta, a uma altitude de 2.300 metros nos Andes, existem aquíferos que levaram dezenas de milhares de anos para se formar. A água que eles guardam infiltrou lentamente pelas rochas durante eras, acumulando-se em equilíbrio frágil com as lagoas e zonas úmidas que sustentam comunidades indígenas há mais de 11 mil anos. Hoje, esse mesmo recurso está sendo bombeado à superfície a um ritmo industrial para abastecer a revolução dos carros elétricos. O processo acontece no Triângulo do Lítio, região que compreende partes do Chile, da Argentina e da Bolívia e concentra mais de 50% das reservas conhecidas de lítio no mundo. Para extraí-lo, as mineradoras perfuram o solo dos salares — as planícies de sal que cobrem o fundo dos vales andinos — e bombeiam para a superfície uma salmoura rica em lítio.
Essa água é então despejada em gigantescas piscinas de evaporação abertas, onde o sol e o vento do deserto fazem o trabalho de concentrar o mineral ao longo de 12 a 18 meses. Ao final, o lítio precipita e pode ser coletado. A água, praticamente toda ela, some para a atmosfera de forma irreversível.
Triângulo do Lítio: o que sai do subsolo nunca volta
Só no Salar de Atacama, no Chile, o maior centro de extração de lítio do mundo, estima-se que o processo consuma cerca de 21 milhões de litros de água por dia nas piscinas de evaporação. Para produzir uma única tonelada de carbonato de lítio, são necessários em média 500 mil litros de salmoura. Como quase toda essa água evapora, os aquíferos não conseguem se recuperar no ritmo em que são esvaziados.
-
Mineradora perfurava centenas de metros abaixo da área já mapeada no Pará quando encontrou novas zonas de cobre e ouro em Furnas, projeto que pode operar por 24 anos ao lado da Vale
-
Terras raras, indenização milionária e uma fazenda em Goiás: entenda o caso em que produtor rural acusa a Serra Verde de ocupar sua propriedade enquanto disputa judicial se arrasta há anos
-
China confirma a existência de um mineral nunca antes visto, encontrado em depósito com concentração 80 vezes acima do padrão mundial, e que promete redesenhar a indústria de baterias e a disputa global por minerais estratégicos
-
O Norte catarinense pode virar um novo polo de minerais estratégicos, depois que o Serviço Geológico do Brasil encontrou concentrações elevadas de terras raras em Joinville e Garuva, com destaque para o neodímio, usado nos ímãs que movem motores elétricos e turbinas, embora a mineração ainda dependa de novos estudos
O resultado é visível nos números. O nível do lençol freático na região caiu mais de 10 metros nos últimos 15 anos. O próprio Salar de Atacama está afundando entre 1 e 2 centímetros por ano, consequência direta do esvaziamento das camadas subterrâneas.
As mineradoras já consumiram, segundo pesquisadores, até 65% de toda a água disponível na região — num dos lugares mais secos da Terra, onde a precipitação média anual não chega a 15 milímetros.
Para ter uma noção da escala dessa perda, pesquisadores da Interamerican Association for Environmental Defense calcularam que a água evaporada pelas operações de mineração equivale ao consumo total de Antofagasta — cidade chilena de 166 mil habitantes — por dois anos inteiros.
O paradoxo da energia limpa no Triângulo do Lítio
O lítio é o coração das baterias de íons de lítio, a tecnologia que alimenta desde smartphones até os veículos elétricos que prometem reduzir as emissões de carbono do transporte global. Em 2024, as baterias já respondiam por 87% de todo o consumo mundial de lítio.
Mais de 17 milhões de carros elétricos foram vendidos no mundo naquele ano, e as projeções da Albemarle, uma das maiores mineradoras do setor, apontam para uma demanda global de 3,7 milhões de toneladas de carbonato de lítio equivalente até 2030, mais que o dobro do consumo atual.

O Fórum Econômico Mundial projeta que a demanda total pelo mineral pode triplicar em relação aos níveis de 2022 até o final desta década. É nesse contexto que o Triângulo do Lítio se torna cada vez mais estratégico — e cada vez mais pressionado.
A Bolívia sozinha guarda 23 milhões de toneladas de recursos de lítio, segundo o US Geological Survey, a maior reserva individual do planeta. A Argentina tem 22 milhões de toneladas, e o Chile, 11 milhões. Juntos, os três países concentram o que o mundo inteiro precisará para eletrificar sua frota de veículos e armazenar energia renovável nas próximas décadas. O problema é que boa parte desse lítio está enterrada em regiões onde a água subterrânea não é apenas um recurso industrial — é a condição básica de sobrevivência de ecossistemas e comunidades que existem há milênios.
Lagoas que não existem mais – a extração de lítio não afeta apenas aquíferos invisíveis
Nos salares dos Andes, a extração de lítio não afeta apenas aquíferos invisíveis. Ela está secando lagoas que eram visíveis a olho nu.
Esses corpos d’água, alimentados pelo equilíbrio entre a água doce das montanhas e a salmoura dos vales, sustentam flamingos-andinos, vicunhas e uma biodiversidade adaptada às condições extremas de altitude e aridez. Quando as mineradoras rebaixam o nível do lençol freático, esse equilíbrio se rompe — e as lagoas simplesmente desaparecem.
A água que desaparece levava consigo séculos de práticas agrícolas
Para as comunidades indígenas Atacameñas, que habitam a região desde tempos pré-colombianos, a perda não é apenas ecológica. A água que desaparece levava consigo séculos de práticas agrícolas, rituais e modos de vida que dependem diretamente desses recursos hídricos. Comunidades como a de Toconao, no Chile, documentaram conflitos diretos com mineradoras pela contaminação e pelo desvio das poucas fontes de água doce disponíveis.
Na Argentina, as províncias de Catamarca, Salta e Jujuy concentram dezenas de projetos de mineração em estágio avançado. Em muitos deles, o acesso a informações sobre o impacto hídrico e a participação das comunidades locais nos processos de aprovação ainda são precários.
A tecnologia que pode mudar o jogo, mas ainda não chegou
A extração direta de lítio, conhecida pela sigla DLE (Direct Lithium Extraction), é uma alternativa tecnológica ao método tradicional de evaporação. Em vez de bombear a salmoura para piscinas abertas, o processo usa membranas ou resinas químicas para extrair o lítio diretamente do líquido, devolvendo a água tratada ao aquífero.
O consumo hídrico cai drasticamente e o tempo de processamento, que no método convencional leva entre 12 e 18 meses, se reduz a horas ou dias.

Pesquisadores e governos veem a DLE como uma solução potencial para o dilema hídrico da mineração de lítio. Em 2024, o governo chileno anunciou planos para incentivar a adoção da tecnologia nas operações licenciadas no Salar de Atacama. A Argentina também avança em projetos-piloto em diferentes salares.
O problema é que a DLE ainda responde por apenas 11% da produção global de lítio. Cada salar tem uma composição química diferente, o que exige que a tecnologia seja adaptada caso a caso, um processo caro e demorado. Com a demanda prevista para triplicar até 2030, o tempo para escalar essa transição é cada vez mais curto.
O custo invisível na bateria de cada carro elétrico
Quando um consumidor em São Paulo, Berlim ou Xangai compra um veículo elétrico, a pegada hídrica da bateria que move o carro raramente entra no cálculo. Mas ela existe e está embutida nos aquíferos milenares do deserto de Atacama, nas lagoas que secaram no altiplano boliviano, nas reclamações de agricultores argentinos que perderam acesso à irrigação.
A transição energética global é necessária e urgente. Mas os números que vêm do Triângulo do Lítio mostram que ela não é gratuita do ponto de vista ambiental.
Trocar petróleo por lítio significa trocar um tipo de pressão sobre o planeta por outro e ignorar esse custo seria repetir o mesmo erro que se cometeu com os combustíveis fósseis: crescer sem contabilizar o que se destrói no processo.
A questão que o setor terá de responder nas próximas décadas é se consegue escalar a produção do mineral que o mundo precisa sem esvaziar, de forma irreversível, os aquíferos que comunidades inteiras dependem para existir.


-
-
-
-
-
19 pessoas reagiram a isso.