A possível interrupção do petróleo venezuelano para Cuba, após ameaça de Donald Trump, reacende o risco de crise energética, pressiona a economia da ilha e amplia tensões geopolíticas na América Latina.
O petróleo voltou a ocupar posição central no cenário político e econômico de Cuba após a ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impedir o acesso da ilha ao combustível proveniente da Venezuela.
A sinalização, acompanhada do alerta de que Cuba deveria fazer um acordo “antes que seja tarde demais”, reacendeu temores de uma nova crise energética no país caribenho. Especialistas avaliam que a medida representa um endurecimento significativo da política norte-americana em relação a Havana.
De acordo com analistas ouvidos pelo UOL, o possível bloqueio do petróleo venezuelano configura um “avanço inédito na política de agressividade” dos Estados Unidos contra Cuba. Além disso, o movimento ocorre em um momento de fragilidade econômica interna, marcado por dificuldades estruturais que se arrastam desde a pandemia.
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90 bilhões de barris de petróleo, 1.669 trilhões de pés cúbicos de gás natural e 84% das reservas prováveis em áreas offshore estão sob o Ártico e o degelo que abre rotas marítimas e expõe esse tesouro energético está transformando o Polo Norte em uma disputa estratégica entre EUA, Rússia, China e Canadá por petróleo, gás, navegação e poder militar
Bloqueio do petróleo pode abrir caminho para crise mais ampla
O impacto de uma eventual interrupção no fornecimento de petróleo vai além do setor energético. Segundo a professora de pós-graduação em economia política mundial da UFABC, Joana Salém, a medida seria “a porta de entrada para uma crise total”. Ela alerta que a restrição de combustível afetaria diretamente o transporte e a distribuição de alimentos, bem como o acesso a itens básicos pela população.
“O bloqueio econômico imposto pelos EUA interfere nas trocas comerciais de Cuba com outros países, encarecendo o comércio da ilha”, afirma Salém. Para a pesquisadora, “essas ameaças de Trump correspondem a um novo momento histórico”, pois intensificam a pressão externa e fragilizam parcerias construídas ao longo de décadas.
Mudança no perfil de fornecedores de petróleo agrava cenário
Embora a Venezuela tenha sido, por muitos anos, a principal fornecedora de petróleo para Cuba, esse cenário começou a mudar recentemente. Dados do setor indicam que, no último ano, o México assumiu a liderança, exportando cerca de 12,3 mil barris de petróleo por dia para a ilha. O volume corresponde a aproximadamente 44% do total das importações cubanas.
Ainda assim, a Venezuela permaneceu como um parceiro relevante, com exportações de cerca de 9,5 mil barris diários. A ameaça de bloqueio, portanto, atinge uma relação estratégica construída desde os anos 1990 e adiciona instabilidade a um sistema já pressionado por limitações financeiras e logísticas.
Crise energética se soma a dificuldades econômicas pós-pandemia
Cuba já enfrentava problemas energéticos antes das novas ameaças. Durante a pandemia, o Produto Interno Bruto do país caiu quase 11%, e a recuperação econômica não se consolidou plenamente. “O país não conseguiu se recuperar plenamente e agora se vê diante de uma nova dificuldade”, afirma Joana Salém, que pesquisou a história cubana em seu mestrado.
Nesse contexto, a incerteza se intensifica. Para o professor Raúl Rodríguez Rodríguez, diretor do Centro de Estudos Hemisféricos e sobre Estados Unidos da Universidade de Havana, o cenário é imprevisível. “É impossível saber exatamente o que vai acontecer, os EUA dizem uma coisa, o governo da Venezuela, outra, mas haverá impactos”, diz.
Pressão dos EUA tende a se intensificar, avaliam especialistas
Rodríguez avalia que o cenário é “muito negativo” para Cuba. Segundo ele, “os Estados Unidos se concentrarão em aumentar a guerra econômica, em cortar todas das fontes de financiamento externo de Cuba, criar obstáculos e criminalizar as tentativas e as intenções do país de diversificar relações econômicas com outros governos da região e da Europa”.
Ainda assim, o professor ressalta a resiliência histórica do país. “Mas é importante considerar que nenhum país da América Latina tem a tradição e a experiência combativa de Cuba”, afirma. Na mesma linha, especialistas avaliam que o impacto mais imediato seria a redução de combustíveis, mas não necessariamente uma queda do governo.
Relação Cuba–Venezuela e o papel do petróleo nos acordos bilaterais
A aliança entre Cuba e Venezuela foi formalizada a partir da década de 1990 e ganhou força com a criação da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América), em 2004. O acordo foi assinado em Havana por Fidel Castro e Hugo Chávez. “Os dois países desenvolveram um intercâmbio político com posições baseadas em anti-imperialismo, anticolonialismo e no direito de defesa de autodeterminação dos povos do sul global”, diz Rodríguez.
Nesse modelo, Cuba passou a acessar petróleo venezuelano em troca de serviços sociais. “Os cubanos exportavam inteligência, serviços médicos, contra-inteligência em troca de petróleo”, explica Joana Salém. Segundo Rafael Pinheiro de Araújo, do Departamento de História da América da Uerj, a Venezuela buscou Cuba por ser uma referência internacional em saúde e educação.
Interesses estratégicos dos EUA vão além do petróleo
Para Araújo, o interesse norte-americano em Cuba é essencialmente político. Ele avalia que a pressão de Trump tem forte caráter simbólico. “Nesse momento de uma retomada de liderança dos EUA sobre o continente, ele deixa claro que, se não funcionar a pressão econômica, vai acionar a força.”
“Trump vai espetacularizar com a ameaça de intervenção para que Cuba se sente à mesa de negociação. Fragilizar Cuba mais uma vez passaria uma mensagem para a América Latina e para o mundo de que a última trincheira do socialismo foi derrotada”, afirma o historiador.
Além do petróleo, recursos naturais cubanos também entram no radar. “Cuba tem uma das maiores reservas de níquel do mundo”, destaca Joana Salém. Segundo ela, esses minérios despertam interesse de corporações norte-americanas, que mantêm planos de transição econômica para a ilha baseados em critérios pragmáticos, e não apenas ideológicos.


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