Único estado brasileiro desligado do sistema nacional e dependente de diesel caro, Roraima finalmente foi conectado à rede por uma linha que cruzou a floresta amazônica
Por décadas, Roraima carregou um título constrangedor: era o único estado brasileiro fora do Sistema Interligado Nacional, uma ilha dependente de geradores a diesel e da energia importada da Venezuela. Em 2025, isso finalmente mudou. O linhão de Tucuruí conectou o estado à rede do resto do país e encerrou um isolamento energético que durava desde sempre.
A virada aconteceu em setembro de 2025, quando o linhão de Tucuruí passou a energizar Boa Vista a partir da malha nacional. O fim do isolamento não é só simbólico: significa energia mais estável, mais barata e a porta aberta para investimentos que antes não chegavam por falta de luz confiável.
O último estado fora da rede nacional
A situação de Roraima era única no país. Conforme o Poder360, até 2018 o estado dependia 100% de termelétricas movidas a óleo diesel e da energia importada da Venezuela, um fornecimento caro e instável que vivia falhando.
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Quando a energia venezuelana foi cortada, o estado mergulhou em apagões. Depender de um vizinho em crise e de geradores caros deixou a economia local refém da falta de luz. Ser o único pedaço do Brasil desconectado da rede nacional travava qualquer planejamento de longo prazo, porque ninguém investe pesado onde a energia pode faltar a qualquer momento.
De 84 apagões para 4 por ano

O impacto na qualidade do fornecimento aparece nos números. Segundo o Poder360, Roraima registrou 84 apagões em 2018, no auge da crise de abastecimento, e esse total despencou para apenas 4 em 2024, uma redução de 95%.
Essa melhora já vinha sendo construída, e a conexão definitiva à rede nacional tende a consolidar a estabilidade. Para quem morava com a luz piscando, a diferença é enorme. Sair de quase noventa apagões por ano para um punhado é a prova concreta de que a infraestrutura mudou de patamar, e é isso que o linhão veio garantir de vez.
O linhão de Tucuruí e os R$ 3,3 bilhões para cruzar a Amazônia
Conectar um estado isolado no meio da floresta não é barato nem simples. De acordo com o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, o projeto custou R$ 3,3 bilhões no total, sendo R$ 2,5 bilhões financiados por fundos federais, o equivalente a cerca de 76% da obra.
A linha opera em 500 quilovolts, em circuito duplo, ligando o sistema do Amazonas até Boa Vista, com subestações ao longo do trajeto. Construir uma linha de transmissão dessas no meio da Amazônia, com toda a complexidade ambiental envolvida, é uma proeza de engenharia. Levar energia a quem está cercado por floresta exige obra cara e cuidado redobrado, e foi esse desafio que finalmente saiu do papel.
Do diesel caro à energia da rede
A troca de fonte tem efeito direto no bolso de todos os brasileiros, não só dos roraimenses. O Ministério da Integração aponta que a conexão pode reduzir em mais de R$ 500 milhões por ano os subsídios da Conta de Consumo de Combustíveis, paga por todos os consumidores do país para bancar a geração a diesel em sistemas isolados.
Ou seja, manter Roraima ligada a geradores custava caro para a nação inteira. Com a energia vindo da rede, esse rombo diminui. Cada gerador a diesel desligado é dinheiro que para de sair do bolso do consumidor de todo o Brasil, além de cortar emissões e ruído. A conta que parecia local, na verdade, era de todos.
Roraima vira polo estratégico de energia

O fim do isolamento muda o jogo econômico. Segundo o Ministério da Integração, com a entrada no sistema nacional, Roraima se projeta como um novo polo de energia estratégico, capaz de atrair investimentos em setores que antes nem cogitavam o estado.
Entre as áreas citadas estão data centers, frigoríficos, irrigação, turismo e serviços de saúde, todos dependentes de energia confiável. Energia estável é pré-requisito para qualquer indústria moderna, e foi exatamente isso que faltava em Roraima, que agora entra no mapa de quem procura onde investir no Norte do país.
70% da demanda e até exportação de energia
A capacidade da nova conexão é generosa. O Ministério da Integração informa que, até 2026, o linhão deve atender cerca de 70% da demanda energética de Roraima, substituindo boa parte da geração a diesel que ainda resta.
Mais surpreendente: o estado que vivia importando energia já começou a devolver. Em um domingo de setembro, Roraima chegou a exportar 27 megawatts para o sistema nacional. Sair da posição de eterno importador para mandar energia de volta à rede é a inversão simbólica que mostra o tamanho da virada, de dependente a contribuinte do sistema.
Um projeto que levou décadas para sair do papel
A conexão não foi rápida. A ideia do linhão remonta aos anos 1990, mas a obra ficou parada por muito tempo por entraves de toda ordem, só sendo retomada com força a partir de 2023. Foram mais de duas décadas entre o sonho e a energização.
Houve ainda compensações ambientais superiores a R$ 100 milhões destinadas a comunidades indígenas no trajeto da linha, parte do esforço para conciliar a obra com a floresta. Construir na Amazônia é negociar com a natureza e com quem vive nela, e isso leva tempo, o que explica boa parte da demora histórica do projeto.
Por que isso muda a economia do estado
No fim, a chegada da energia confiável é um divisor de águas para Roraima. Estados isolados ficam presos a um teto baixo de crescimento, porque indústria, comércio e serviços precisam de luz estável para funcionar. Com o linhão, esse teto subiu de uma vez.
A pergunta que fica é se Roraima vai conseguir transformar a energia que finalmente chegou em desenvolvimento real, com empregos e indústria, ou se a oportunidade vai se perder. Você sabia que, até pouco tempo atrás, havia um estado brasileiro inteiro funcionando à base de gerador e de energia importada de outro país?
