Um estudo genético de longo prazo no Alasca trouxe novos indícios sobre como belugas se reproduzem longe da costa, revelando padrões pouco observados em populações isoladas e ajudando a entender como esses animais mantêm diversidade genética em ambientes extremos.
Durante décadas, o comportamento reprodutivo das belugas, também conhecidas como baleias-brancas, permaneceu pouco documentado fora das áreas costeiras.
Um estudo baseado em análises genéticas realizadas na Baía de Bristol, no Alasca, trouxe novos dados sobre como esses animais formam pares ao longo do tempo e como essa dinâmica se reflete na manutenção da diversidade genética de uma população considerada isolada.
Os resultados foram publicados em janeiro de 2026 na revista científica Frontiers in Marine Science e reuniram informações de 623 indivíduos.
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A pesquisa aponta que machos e fêmeas não mantêm um único parceiro ao longo da vida reprodutiva.
Segundo os autores, os dados indicam que ambos alternam companheiros entre diferentes temporadas, o que resulta em uma estrutura familiar composta majoritariamente por meio-irmãos, com apenas um dos pais em comum.
Estudo genético transforma Baía de Bristol em referência científica
A população de belugas da Baía de Bristol foi acompanhada ao longo de 13 anos.
Nesse período, os pesquisadores coletaram pequenas amostras de tecido, usadas para traçar perfis genéticos e reconstruir relações de parentesco entre os animais.
Essas informações foram cruzadas com dados de idade e registros de associação social observados em campo.
Por se tratar de um grupo geneticamente distinto, com baixa evidência de intercâmbio com outras populações, a região ofereceu condições favoráveis para o estudo.
De acordo com os pesquisadores, esse isolamento reduz interferências externas e permite analisar, com maior precisão, como o sucesso reprodutivo se distribui ao longo do tempo dentro do próprio grupo.
O trabalho também contou com a colaboração de comunidades locais do Alasca.
Parte das amostras foi obtida com apoio de caçadores de subsistência, em parceria com universidades e órgãos estaduais envolvidos no monitoramento da espécie.
DNA revela padrões de acasalamento das belugas
Antes da análise genética, os cientistas consideravam plausível que poucos machos concentrassem a maior parte das cópulas em cada temporada.
Essa expectativa se baseava no dimorfismo sexual da espécie, já que machos adultos são maiores, e no fato de que as fêmeas não se reproduzem todos os anos.
Os resultados, no entanto, não confirmaram integralmente esse cenário.
As análises indicaram que tanto machos quanto fêmeas tiveram descendentes com parceiros diferentes ao longo dos anos avaliados.
Ainda segundo o estudo, a concentração de filhotes em poucos indivíduos foi relativamente baixa em curto prazo.
Os dados mostraram uma variação um pouco maior no sucesso reprodutivo entre os machos do que entre as fêmeas.
Esse padrão sugere que alguns pais tiveram mais descendentes do que outros.
Mesmo assim, os autores ressaltam que não houve evidência de um pequeno grupo de machos dominando a reprodução de forma consistente.
Na literatura científica, esse arranjo é descrito como compatível com um sistema poliginândrico, no qual indivíduos de ambos os sexos acasalam com múltiplos parceiros ao longo do tempo.
Como consequência, a rede de parentesco tende a ser mais distribuída dentro da população.
Desafios de observar belugas em mar aberto
Um dos pontos destacados pelos pesquisadores é a dificuldade de observar diretamente o comportamento reprodutivo das belugas.
A espécie passa grande parte do tempo submersa, em águas frias e frequentemente turvas, o que limita o registro visual de acasalamentos.
Por esse motivo, a genética se tornou uma ferramenta central para o estudo.
A reconstrução das árvores familiares permitiu inferir padrões que dificilmente seriam identificados apenas por observação direta, especialmente em ambientes remotos e sujeitos à cobertura de gelo.
Reprodução e diversidade genética em populações isoladas
Segundo os autores do estudo, a alternância de parceiros entre diferentes temporadas pode contribuir para reduzir o risco de endogamia em populações com pouca entrada de novos indivíduos.
Ao distribuir a reprodução entre várias combinações, a diversidade genética tende a ser preservada de forma mais ampla ao longo das gerações.
O material de divulgação científica que acompanha o artigo também aponta que a longevidade das belugas pode favorecer esse tipo de estratégia.
Como vivem por várias décadas, o sucesso reprodutivo não depende de um único período, mas se acumula ao longo do tempo.
O papel das fêmeas na dinâmica reprodutiva
Em comunicado divulgado pela revista, o pesquisador Greg O’Corry-Crowe afirmou que o estudo ajuda a preencher lacunas sobre uma espécie difícil de acompanhar.
Segundo ele, trata-se de animais que vivem “sob as ondas do norte frio e muitas vezes congelado”.
De acordo com o pesquisador, os resultados contrastam com a expectativa inicial de uma reprodução concentrada em poucos machos.
A partir dos dados apresentados, os pesquisadores avaliam que a reprodução das belugas envolve uma dinâmica social mais distribuída, que se reorganiza entre temporadas.
Nesse contexto, as escolhas de parceiros não parecem estar associadas apenas a disputas diretas.
Elas estariam relacionadas a interações que variam ao longo do tempo dentro do grupo.
Com base na análise genética, o estudo oferece um retrato mais detalhado de como a reprodução ocorre em mar aberto, sem observação direta dos eventos.
A pesquisa também reforça o potencial da genética para revelar aspectos centrais da biologia de espécies pouco acessíveis.
